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Tempos modernos

Anamnese

Texto de Vítor Nogueira

Bem, Senhor Doutor, se tivesse de descrever as dores de cabeça que me fizeram marcar esta consulta, diria que elas parecem um formão a entrar pela moleirinha. A moleirinha, exactamente, esta parte aqui de cima que só fecha quando a gente tem sete anos. Isto é, mais coisa menos coisa. O Senhor Doutor lá saberá melhor do que eu, modesto amanuense do Banco de Portugal. Mas é precisamente aqui. Se me permite que acompanhe os seus dedos e lhe indique o sítio certo... Ora, aí está. Como se um formão entrasse por aí, um formão martelado a uma cadência insuportável. E olhe que não estou a exagerar: é um formão, Senhor Doutor, é um formão. Quando tudo isto começou, sentia apenas o martelo, mas entretanto a dor tornou-se mais profunda. É claro que neste momento nada sinto, de outro modo não estaria a falar serenamente. Esta desgraça vai e vem, sem avisar.

O que eu queria mesmo era um cérebro forte, daqueles capazes de vencer no turbilhão da vida moderna. Acha que é pedir muito, Senhor Doutor? Não terá um rapaz de trinta anos direito a fazer carreira, a conferir o montante dos depósitos, a calcular taxas de juro, a fazer contas de cabeça, enfim, sem esta coisa a atrapalhar? E logo um formão... Caramba, formão é coisa de marceneiro! Eu sou amanuense do Banco de Portugal. Ainda se fosse uma caneta de tinta permanente, de preferência com bico fino e quebradiço... Valha-me Deus, trinta anos não é idade para se andar metido nesta vida.

Vejo que escreve enquanto falo, Senhor Doutor. Uma receita! Poderei então alimentar alguma esperança? Haverá remédio para este mal que possa ser comprado na farmácia? Ainda bem. Nem sabe o peso que me tira da cabeça. Já agora, deixe ver se percebo a sua letra, para poupar trabalho ao farmacêutico. Perdoará, mas regra geral os médicos parecem convencidos de que os farmacêuticos estudam estenografia, ou até paleografia. Por seu turno, os farmacêuticos, nunca soube bem porquê, têm a mania de que só eles conseguem ler aquilo a que se convencionou chamar letra de médico. Pois olhe, Senhor Doutor, tenho para mim que à conta disso já deve ter morrido muita gente.

[Publicidade às Pastilhas Mágicas de Gessler]

Pastilhas mágicas de Gessler. Gessler? É assim, Senhor Doutor? Curam em vinte minutos? Então o senhor acha que sim? Pois bem, vinte minutos ainda sou capaz de aguentar esta agonia. Entretanto, farei como diz: meto uma caixinha no bolso e ando sempre com ela, para o que der e vier. E será que o formão não me passa para outro sítio? Quer dizer, as pastilhas têm efeitos secundários? Não? Pronto, Senhor Doutor, saio daqui mais descansado.

O que seria de nós sem os milagres da ciência? Às vezes dou comigo a pensar no sofrimento dos antigos. Como é que aqueles fulanos conseguiam sobreviver sem as pastilhas milagrosas que hoje temos? Lá está, Senhor Doutor: não conseguiam. E a prova é que já morreram todos.

[Publicidade ao Neurobiol]