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Por quem os sinos dobram

As 7 Maravilhas de Portugal

Texto de Fernando Gouveia

Em Dezembro de 2000, consumiam-se os últimos cartuchos do milénio passado, empreendemos para o defunto Eito Fora a hercúlea missão de estabelecer o cânone das Sete Maravilhas de Trás-os-Montes.

Entretanto fundámos a Periférica, abrimos os olhos para lá dos alcantilados montes da nossa região — e descobrimos que é Portugal inteiro um país prenhe de maravilhas, maravilhas que urge dar a conhecer aos mais desatentos.

Ei-las. Como manda a tradição, limitámo-las ao sacro hepteto. Desculpem-nos os preteridos — e foram tantos! —, mas a mão férrea dos Antigos cai sobre nós.

 

1. Casa da Música

Requiem e música de câmara

Conta-nos Heródoto que a mais antiga das Maravilhas da Antiguidade, a Grande Pirâmide de Quéops (em Gizé, no Egipto), levou vinte anos a erigir. Portugal não poderia ficar atrás desse magnificente império de outrora e respondeu com igual celeridade: poucos duvidarão de que apenas outro tanto será necessário para concluir a Casa da Música, no Porto.

Uma semelhança adicional entre as duas construções prende-se com a sua utilidade. De facto, algumas teorias negam que alguma vez a Grande Pirâmide tenha sido usada para o fim que alegadamente ditou a sua construção (servir de túmulo ao faraó Quéops) — de igual modo, já o Porto 2001 está morto e enterrado há muito tempo e da Casa da Música nem um acorde.

Seja como for, para uma coisa a Pirâmide servia certamente: para impressionar, mostrando a capacidade de realização de um povo. Não sabemos se essa mesma ideia habitava a cabeça dos ideólogos das obras do Porto 2001, mas lá que resultou, resultou: é verdadeiramente impressionante a capacidade de realização que, como país, demonstrámos!

[Casa da Música]

Fotografia:
FERNANDO GOUVEIA

2. TAP

aviões suspensos pelo pescoço

[...]

3. Estátua do Cónego Melo

um servo de Deus contra os ímpios

[...]

4. Edifício Transparente

a insofismável utilidade de ser

[...]

5. Metro no Terreiro do Paço

despachos, comissões de inquérito e outros funerais

[...]

 

6. Alberto João Jardim

o Colosso da Madeira

Muito se escreveu sobre o Colosso de Rodes — a gigantesca estátua que se ergueu à entrada do porto da ilha grega com o mesmo nome —, frequentemente com mais fantasia que verdade: a mais famosa das lendas é a de que o Colosso se apresentava de pernas abertas sobre a dita entrada. Somemos aos efeitos negativos dos exageros o facto de a estátua apenas ter durado 56 anos (foi destruída por um terramoto), e torna-se fácil perceber por que razão a sua existência foi posta em causa por muitos.

Desse mal não sofre Alberto João Jardim, sexta maravilha de (ainda) Portugal. Que existe não há dúvidas: estão aí os congressos do PSD, os Orçamentos Gerais do Estado, as faltas de chá teledifundidas (e outros carnavais) para nos provar que este Conselheiro de Estado é, para lusitana glória, bem real.

Mas o Alberto João é mais do que um rei momo: é um Titã, um campeão de duelos medievais, incansável na defesa da honra (e do dote) da sua Dama, a Região Autónoma da Madeira, contra os ataques dos cubanos do "côntnânte". Vislumbre-se apenas uma ameaça às suas dotações orçamentais ou anuncie-se o desmando de pretender aplicar lá as leis gerais da República — salta o Colosso para a arena, arengando às massas sobre a iniquidade neocolonialista, ou envia o lacaio de serviço a acenar com a Nova Jerusalém que se ergue na colina da independência insular. E quem abre, no final das contas, as pernas é o próprio Governo central.

Depois, o Alberto João é mesmo maior do que o Colosso original: não só se aguentará mais de 56 anos no seu posto, como nem um terramoto o tira de lá...

[Alberto João Jardim caricaturado por Paulo Araújo]

Ilustração:
PAULO ARAÚJO

7. SIC e TVI

os faróis de Portugal

O primeiro farol (como estrutura permanente) de que há registo constituiu-se como a sétima maravilha do mundo antigo; situava-se nos arredores de Alexandria, no Egipto, mais exactamente na ilha de Faros, de onde lhe ficou o nome.

Dai-me, ó Ázides, voz clara e grandiloquente
P'ra eu poder cantar os faróis da Lusa gente!

Eis que nem na derradeira maravilha deixaria Portugal seus méritos por mãos alheias. Veramente, seria o alexandrino farol suplantado por, não um, mas dois — Atentai! —, dois novéis faróis de suas acronímicas graças 'SIC' e 'TVI'. E são deveras maviosos ditos faros, comungando com o Divino do ubíquo predicado — não havendo local no vasto território pátrio não abençoado pela luz que deles emana —, pelo que não só quantitativa, mas outrossim qualitativamente, superam estes aquele que dos Ptolomeus e de Sóstrato provém.

Oh! Invadem-nos tremores epifânicos sempre que, sobreviventes do holocausto pardo da nossa vida, nos permitem adentrar as vidas tão mais interessantes dos televisionados. O real pode ser antracítico, a escuridão medonha, mas os nossos passos sucedem-se confiantes, pois sabemos que — lá, no Reino Hertziano — existem dois Redentores que seguramente nos apontarão a luz ao fundo do poço!1

1 Já depois do fecho da presente edição, uns réprobos sem nome insurgiram-se contra a — na opinião deles — ignominiosa referência ao "fundo do poço". Biltres! Quanto não terá rogado o Povo Eleito por um poço na sua jornada pelo deserto até à Terra da Promissão onde corria o leite, o vinho e o mel?! Um poço que fora! A Portugal dá a Divina Providência dois com sistema de orientação incorporado, para que destrincemos o caminho por triangulação, e vós, peixes, apoucais a doação!

Rubrica completa na edição em papel...

[Ilustração de Boligán]

Ilustração:
BOLIGÁN