Se está a ler este parágrafo é porque o seu browser não suporta convenientemente folhas de estilos CSS (Cascading Style Sheets). Sugerimos que actualize o seu browser, pois caso contrário o aspecto deste site será muito diferente do planeado, se bem que continue a ser legível. As versões recomendadas dos browsers são: Internet Explorer 6.0 (5.5 já é bom), Netscape Navigator 6.2 (6.0 já é bom) e Opera 6.01.

Contacto

António Cabrita

Entrevista de Rui Ângelo Araújo e Carlos Chaves | Ilustração de Paulo Araújo

António Cabrita é director da revista Construções Portuárias, editor das edições Íman, crítico no Expresso, poeta, autor de contos, de argumentos para cinema, de documentários... E sabe-se lá o que mais é o homem. Sendo tão polifacetado, não admira que tenha dado uma entrevista tão interessante. E empolgada.

O editorial que escreveu para o número 1 da revista que dirige pareceu-se-nos com um manifesto. Boa prosa, interessantes reflexões, pertinentes críticas, oportunas propostas.

Partimos daquele texto para fazer as perguntas. Com candura. Mas excedemo-nos.

No seu editorial do número um da Construções Portuárias (CP, salvo seja) faz uma espécie de (re)posicionamento pessoal em relação à vida, mas também um manifesto em relação à literatura, à poesia em particular. O que teve mais peso na decisão de publicar a revista, a sua necessidade pessoal de se reinventar como editor, ou a necessidade de um novo olhar crítico sobre os caminhos da literatura?

— Esta revista é indistinta do meu trajecto como autor e sempre foi um projecto meu, anterior ao próprio nascimento da Íman. Sempre li coisas ao lado do que estava na moda. E na década de 90 só li praticamente poesia estrangeira, o que me levou a orbitar em referências exteriores ao que estava em uso no burgo. Percebi que para se entender, por exemplo, uma certa inquirição da linguagem, ou que a forma como parto o verso ou me inclino para o «poema longo» tem mais a ver com Mario Luzio do que com William Carlos Williams, teria de dar a conhecer o poeta italiano e que só tornando visível o meu mapa astral podia legitimamente esperar que se percebesse o que ando a fazer. Não fiz logo a revista no começo da Íman por pudor.

Um ano depois, dado as boas recepções críticas que a Íman foi tendo e o meu percurso algo "obscuro" como autor, mas em passos seguros, pensei que já me cabia o desassombro e a idade suficiente para a ousar editar sem me ralar com possíveis acusações de narcisismo. Qualquer autor é um Copérnico em potência, ou, como dizia Lineu, a cada novo aparelho de medida a terra cresce.

Depois, constato que em Portugal está tudo por divulgar, e como acredito que, para lá das flutuações das estimas críticas, é possível divulgar outros modelos, outros exemplos, e promover outro tipo de qualidade, tentei que a CP correspondesse a esse projecto. Mas não é exclusiva nem única.

Diz que «hoje é de novo necessário vituperar o fetichismo da objectividade, ou o fetichismo da concisão e da clareza».

A vituperação é suficiente para acabar com o fetiche de que o que importa na literatura é a transparência? E se não o for, o que tenciona fazer a seguir? Um segundo número da CP?

— Sim, que mais fazer, além de debater-me a quatro mãos contra a luz que me encadeia? Vituperar nunca é suficiente e atrás de uma vaga de «claridosos» outras virão. O mal não reside na «transparência» mas na louca obstinação em caiar as sombras. Os egípcios, que a sabiam toda, quando projectavam uma pirâmide seguiam uma regra secreta muito antiga que insistia em que cada pirâmide devia assentar sobre uma outra invertida, com as mesmas proporções. Penso que o texto terá de reger-se pela mesma regra de inversão piramidal: um texto que mostre na mesma medida em que oculte, um tecido secreto e um tecido visível. O que é explícito por exemplo num poema tão aparentemente transparente como o célebre Anecdote of the Jar, de Wallace Stevens, e que afinal traceja uma "ocultíssima gnose". Mas querem coisa mais vibrátil e transparente que a poesia de John Berger, por mim divulgada? No segundo número seguimos a nossa linha chiaroscuro e divulgaremos outros poetas transparentes — um deles aliás até é invisível.

[Retrato do artista: ilustração de Paulo Araújo]

Retrato do artista

Admitindo que existe esse "fetiche" da "clareza", o que contribuiu mais para a sua disseminação, a «pressão do mercado para impor o que é facilmente assimilável e, a curto prazo, descartável», ou um défice de engenho dos escritores a quem uma "norma" assim dá jeito?

— Penso que a polémica brasileira que levou ao explosivo texto de Alexei Bueno publicado na revista é bastante explícita. Só tenho a dizer o seguinte, há poetas que acham o seu sulco na "contenção, no rigor e na objectividade" e há outros mais caudalosos que praticam um certo "rigor barroco", com mais sombras e volutas, e o ideal é respeitarem-se mutuamente. Para além deste aspecto há outro lateral: o mercado dará sempre o seu aval a uma literatura que não tenha vários níveis de significação, no pressuposto que o leitor rejeita. Claro que isto se ajusta à explosão demográfica de autores por centímetro quadrado. Ao que se junta as estratégias de promoção montadas por cada geração (e é por isso que sou contra a ideia de geração na literatura — por causa das barreiras e do ruído que instalam em nome de uma tomada de poder e da lógica segmentar de grupo, que não se identifica a não ser distinguindo-se dos outros por diferentes níveis de solidariedade e/ou de oposição). É estranho que ninguém questione porque é que um escritor de uma geração anterior à do José Luís Peixoto, que desenvolve os mesmos temas que este mas com uma superior desenvoltura narrativa e uma mais rica relação com a língua, e falo de Francisco Duarte Mangas, não obtém um quinto do favorecimento mediático do autor de Morreste-me. Como é que um pegou contra o engenho mais apurado do outro? (Esta mesmíssima questão já a coloquei pessoalmente ao Peixoto, prevenindo-o contra os riscos da lisonja.) O Peixoto tem talento mas falta-lhe espessura, não confundir pieguice com sentimento, e capacidade de corte. Alguém reparou no primeiro livro de Maria João Cantinho, «A Garça» — muito superior aos de Peixoto?

«O escritor é tanto mais um polinizador de subjectividades quanto maior for a sua fidelidade à "desarrumação sintáctica" através da qual lê o real.» É isto uma defesa de que existe maior "virtude" na "opacidade" do que na transparência? A contestação dos efeitos perniciosos do fetiche da objectividade obriga à passagem para o campo oposto?

— Claro que não. O maniqueísmo é vosso. Não se pode ser racional até à demência? O melhor é fugir das virtudes e catar opacidades às terças e quintas e sábados no fito de podermos conviver com as transparências, no resto dos dias, munidos de um arsenal de sedução e de mistério.

«O escritor é tanto mais um polinizador de subjectividades quanto maior for a sua fidelidade à "desarrumação sintáctica" através da qual lê o real.» Por que resistem os leitores à "fecundação" que lhes pode vir dos escritores mais «elaborados e complexos»?

— Porque temos um século de ejaculadores prematuros, a adorar Rahab, a quem podemos atribuir o papel de "a deusa da publicidade". Rahab, que Dante colocou no Paraíso, entre os espíritos amantíssimos, permitiu que os dois espiões de José entrassem em Jericó, e segundo o Talmud era uma expressão tão viva da sedução que todo o homem que mencionasse o seu nome ejaculava de imediato. (Ah, já está, tenho as calças molhadas!) Este é o sonho de qualquer campanha de marketing: impedir por fraqueza-pós-jaculatória que homens sãos ponham a cabeça ao relento e desatem a espreitar a diversidade do mundo. Tudo o que tem valor é da ordem do devagar... quando se desfruta o tempo é natural que se aceite a complexidade, mas para isso é preciso dar tempo ao tempo, ao devaneio. Depois do primeiro devaneio deixamos de entender a obsessão das linhas rectas...

«... O mercado insiste em ver na diferença uma "afectação"...» «...O mercado apoda tudo o que é mais elaborado e complexo de "demodé"...» Fala do mercado como de uma entidade abstracta. Mas no mercado não coexistem os editores, os críticos e o público? A quem atribuir essas características "malévolas"?

— Não podemos atribuí-las com certeza ao fantasma Gaspar, que é um bom amigo. Claro que o mercado é uma instituição anterior à sua ditadura. Rubens era um "predador" do seu mercado. Como Vermeer, que trabalhava condicionado pelas leis do género. Mas Ionesco e Beckett faziam tudo ao contrário do que "o mercado pede". Hoje se calhar já não há "fora de mercado" e não temos de agir como intocáveis donzelas mas não podemos deixar de notar que é malévola a venalidade que se instalou no circuito do livro. Quando eu comecei a escrever nos jornais não recebia convites de editoras para jantares de agradecimento a críticos cujas recensões haviam ajudado a impulsionar o êxito duma obra. Não estão a ver a perversão? Que já nem o próprio editor acredita que basta a qualidade duma obra para a mesma se impor naturalmente e que acha necessário fazer uma espécie de "clube de amigos de". Ao fim de três jantares de agradecimento a plaina da indulgência conquistou um pescoço, pois somos todos humanos e a fraternidade rói a inteligência. O mercado não é uma entidade abstracta — é um polvo. Os polvos não têm de ser demonizados, mas fingir que não existem é contraproducente, mais que não seja porque este polvos têm tinta.

Apresenta a metáfora como um recurso injustamente "desprestigiado" na literatura e em franco uso na publicidade ou no cinema. «Aquilo que parece arcaico num suporte é noutro incensado.» Mas, de novo, quem "incensa" e quem determina o que é arcaico? E que ser indefeso é o público que aceita as determinações do "mercado", do qual parece não fazer parte?

— Como dizia o Humpty Dumpty à Alice: o que me interessa não é o que possas dizer mas quem manda no que possas dizer. Desde que a psicanálise demonstrou que a «linguagem pensa por nós» a questão está em saber onde está o público que «pensa por si». A liberdade é uma coisa tremendamente condicionada, basta pensar que a própria questão do livre arbítrio já foi colocada «em contexto» — e o enigma é: porquê a maçã, um fruto com tão poucas vitaminas? Em relação ao uso da metáfora na economia de cada obra, a sua presença não é obrigatória — só quis lembrar que há muito boa gente que pensa por imagens e que o «ditame» automático de uma época não deve passar por um convite à amputação.

Que possibilidades tem uma revista como a Construções Portuárias de influenciar o mercado, de furar o círculo de leitores habitués destas coisas, de conquistar novos públicos?

— Nenhumas. Como aliás se viu pela escassez das vendas. Mas pobres de nós se de vez em quando não ousamos cair no pecado da ingenuidade.

«Esta revista (...) não se escusará a dizer que Herberto Helder, Maria Velho da Costa, João Miguel Fernandes Jorge (...), Manuel Gusmão ou Daniel Faria, por exemplo, são cordilheiras de modelo mais complexo do que os vales e serras que se recortam em David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Adília Lopes; que a inteligibilidade é um recurso e não "a" via e que, a um determinado nível, não existem textos ilegíveis mas leitores preguiçosos e afanosamente voyeuristas.» Parece-lhe que o mercado favoreceu mais os segundos autores do que os primeiros na sua função de "polinizadores"?

— Se bem me lembro (para citar um esplêndido deste século português), foi Maurice Nadeau, o editor da esplêndida Les Lettres Nouvelles, quem, perante a insistência de um autor que lhe queria sacar a opinião sobre o seu livro, lhe respondeu: «Il est génial, mais plat...». "Plat" é também o vício do voyeur pois quem quer ir mais fundo na visão, quem quer polinizar, não pode deixar de penetrar no reduto anfíbio. De qualquer dos modos e respondendo a um desafio do meu amigo Helder Moura Pereira, que ficou um tanto incomodado com essa minha frase, estou a escrever um livro onde tentarei precisar as miras que me levam a declarar que Eugénio de Andrade é "menos complexo" que o Herberto, ou os outros que cito. Terão de aguardar.

Que «quarenta anos depois de O Amor em Visita uma nova geração se afirme pelo desconsolo de remar (ainda) na corrente de Herberto Helder» faz dele um excelente polinizador, ou uma outra espécie de «fetiche»?

— Vou-vos falar dos riscos do fetichismo a que estão sujeitas todas as gerações. Há poucas semanas fui apresentar uma reedição de um livro do Luís Pacheco, acrescentando mais três anedotas à sua hagiografia. No dia seguinte, em Évora, conheci uma jovem bióloga que me elucidou sobre o seu trabalho de inventariação das espécies de roedores existentes em Portugal através das análises dos "rejeitos" das corujas (as bolas de osso e biomassa que a ave não digere e regurgita). O que a obriga a esquadrinhar o país madrugadas fora, descobrindo igrejas, ermidas e solares abandonados por todo o todo e cujas "ruínas" devassa na busca das aves. Falou-me com enlevo do seu trabalho e da sua paralela tristeza ao constatar a dimensão do património abandonado. E veio-me de rajada, no dia anterior o Acontece apressara-se a cobrir o lançamento do livro de um bêbado crónico que há 30 anos se deixou aprisionar pelo anedótico; com esta gente que ama verdadeiramente a sua terra e a sua cultura e que nela participa activamente ninguém fala. No dia seguinte estive em Portel com um jovem casal de actores que contra a inércia local e a basbaquice autárquica (que só promove espectáculos com as Simaras deste mundo) escolheu sediar-se no Portugal profundo e levar o teatro às escolas, procurando formar um novo público mais crítico e informado. Este trabalho ciclópico não aparece na televisão. E então dei-me conta que tinha colaborado numa farsa, e que o Pacheco é um fetiche absolutamente anacrónico. Mas nem todos os fetiches são maus — no caso do Herberto estamos diante de um modelo que supera o quadro e os seus encarniçados "desvios". O Herberto é para mim o poeta português do século XX (está dito!) e o melhor exemplo que ele deu contra o «culto da personalidade» está na purga violenta que efectuou à sua obra com O Poema Contínuo.

[Retrato do artista com a menina]

Retrato do artista com a menina

«Não vejo como possa o escritor que herdou todas as liberdades conquistadas pelo século XX deixar de deitar mãos a todas as técnicas e mecanismos processuais.» Eis um dos pontos onde o seu editorial se parece com um manifesto por uma nova postura literária. Vê forma de isto se tornar uma realidade ou apenas projecta uma utopia muito pessoal?

— Nesta matéria sou de uma democraticidade enjoativa. Cada um deve vazar os seus líquidos no recipiente que melhor se lhe adaptar. Sou é contra as interdições, os cânones, as imposições... o primado da crítica sobre a obra.

É mesmo verdade que todas as obras queiram "comunicar"? Ou que todas tenham essa capacidade? Não há criadores autistas (com ou sem consciência disso)?

— Aqui aconselho-vos a leitura de Paul Watzlawick, onde, com vantagem, se capacitarão que não é possível «não comunicar». O que não quer dizer que não se possa legitimamente produzir charadas que, como todas as festas da inteligência, têm os seus cultores e aficcionados. Autores como o Jacques Roubaud, o Pimenta, o Grabato Dias — de uma caudalosa e lúbrica experimentação formal — estão a ser autistas ou a alargar o âmbito expressivo da linguagem e as teias da imaginação? Há aqui uma seriedade que não admite leituras apressadas e levianas.

Por que se hão-de indignar com a escassez de vendas aqueles que constróem obras anagramáticas?

— Obras anagramáticas? Na doçaria: o mil-folhas e a bebinka, dois êxitos de venda. E para quê partir do princípio que aqueles que não põem a tónica no enriquecimento económico se indignam? Estamos atados às dificuldades, elas formam a nossa identidade — é através delas que nos definimos. Se um bom livro for um sucesso de vendas tanto melhor, o autor escreverá o seu novo livro em condições menos tumultuadas. Mas se um novo livro tiver que sair ele sai, é evacuado, seja quais forem as condições. Agora quem escreve não para se exprimir mas para a manutenção do status e aferição do "seu público" quando falha o alvo deve sentir-se de facto na merda... Quanto à pergunta, uma trouvaille que vos deve ter deixado babados: anagramático é o modo como pensamos, numa percolação do tempo que perpassa o dobrado manto das imagens... (E agora, para percolação, uma perguntinha?)

No editorial sentencia: «só sobreviveremos se o leitor quiser ser cúmplice». Não lhe parece que mais facilmente arranjaria cúmplices para assaltar um banco? Que outros fetiches é necessário vituperar em Portugal para que uma revista como a CP seja algo mais do que um objecto de culto, seja lida e criticada à luz do sol? Pensa existir um movimento discreto, subterrâneo, suficientemente grande de pessoas que apenas precise de um "clic" para incendiar o país (literário, pelo menos)? Em suma, é um optimista?

— «Sentencia»? Era apenas um SOS ao leitor, que se esteve nas tintas para isso, e se calhar bem. Não tenho de me queixar da recepção da revista, que foi acarinhada pelos jornais, aqui, em Espanha — onde saiu um artigo na Leer — e no Brasil — na Cult —. Agora lida e criticada à luz do sol já me parece pedir demais. Que candura, irmãos! Ou pensam que alguma vez deixarão de ser considerados como periféricos?

Claro que não — até porque não saberíamos pegar no guardanapo nos tais jantares de agradecimento...

— A única coisa que há a fazer é dar-se sempre o máximo naquilo que se faz. Portugal é um país insalubre que não vive sem pais e sem "autoridade" e que odeia a independência do espírito: tudo é encarado como um jogo de espelhos em que nunca se olha para o objecto sem lhe procurar o lado para onde deita a sombra, a ver que tendência ou capela reflecte. Juntem a isto o vosso temperamento periférico. Estão lixados... se não derem o máximo e não perceberem que este é um país de brandos e barrigudos bombeiros. Se sou optimista? Sou um crente, dos que alimentam uma fé contra as igrejas...

Em certo sentido, nós gostamos de estar lixados, e para isso dá-nos jeito um país de brandos e barrigudos bombeiros. De resto, entre outros condimentos, a Periférica também é feita por alguns ateus, graças a Deus.

Ao contrário do que se costuma apregoar, parece haver em Portugal uma grande apetência pela poesia brasileira, pelo menos no âmbito de várias revistas literárias. Este aparente namoro deve-se à feliz descoberta de grandes poetas no "grande irmão" Brasil ou a uma aproximação politicamente correcta, favorecida pela natural abundância (afinal eles são 180 milhões!) e militante oferta de "intenção artística" naquele país?

— Havia todas as vantagens numa redescoberta mútua. Mas em Junho quando fui à Amazónia e a S. Paulo fazer o lançamento da CP aproveitei o ensejo para tentar vender vários escritores portugueses aos quatro ou cinco editores com quem falei (— ia inocente, à procura de uma parceira brasileira para a produção da CP). Mostraram-se invariavelmente desinteressados e quando eu tirava em último recurso da cartola o Prémio Camões da Maria Velho da Costa eles faziam uma cara de grande perplexidade — desconheciam o que fosse e a utilidade comercial do Prémio, o que quer dizer que o dito cujo não passa dum malogro. É para mim paradoxal que os governos não legislem no sentido de facilitar as trocas comerciais com o Brasil, abolindo a taxa sobre o livro e permitindo finalmente uma livre circulação dos autores nos dois sentidos. Quanto ao Brasil, ele não há um mas muitos e isso espelha-se nas suas manifestações artísticas. Até aqui, o eixo Rio de Janeiro–S. Paulo tem sido dominante e por isso muitos bons autores "periféricos" têm sido silenciados — como provou o dossier da literatura de Belém do Pará na CP. Há muitos outros casos, que fazem do Brasil uma fascinante floresta por desbravar.

A sensibilidade estética e as correntes brasileiras têm correspondência em Portugal?

— Não. E ainda bem. Não vejo vantagem em abraçar as correntes, suspeito que para nos safarmos da hipotermia temos de sair das correntes. Foi assim com o Ferreira Gullar, com o Vicente Franz Cecim, bichos fora de toda a corrente. Quanto à sensibilidade, esta também se forma no molde da língua e não esqueçamos que em termos de sintaxe os brasileiros colocam a mobília no tecto — somos assim não apenas dois gémeos diferentes ao espelho mas com a imagem invertida. E está bem assim, os prazeres duplicam.

No meio de tantos poetas brasileiros (e criadores em geral) como se encontram os bons sem que se vivam décadas de insónia? Pelo nome que lá tenham?

— A insónia não é boa conselheira, no ponto beta duma insónia a existência ou não de poetas brasileiros é irrelevante. O primeiro passo é cultivar-se o gosto, o segundo permanecer equidistante de fluxos e promoções. Por exemplo, porque não ficar em casa a beber chazinho, a roer as unhas e a ler, reler e tresler o Jorge de Lima ou o Murilo Mendes, poetas que para mim enchem um século. Se um poeta for realmente bom, não obstante o bombardeamento mediático dos seus compadres, ele há-de vir ao nosso encontro. O aconselhável é abrir o coração a Iemanjá — Aquele que conecta achará as calhas para a sincronicidade, Amén! Depois há boas revistas: a Poesia Sempre, a Teresa, a Inimigo Rumor, a Rodapé, a Agulha... por fim têm a Internet... não desistam, vasculhem.

Passamos a vida a vasculhar, por isso é que o encontrámos.

Uma curiosidade: quem escreveu as "cartas ao director" [assinadas por um Reformado da Função Pública, um Engenheiro do Ambiente, um Actor e um Topógrafo], que nitidamente colocam alguns problemas caros à revista, como se fossem uma primeira parte do editorial (que se calhar são)?

— Isso é a mesma coisa que perguntar a uma virgem se se guarda para o pai. Há segredos que não se podem revelar. Imaginem...

Como se define editorialmente a Íman Edições? Que critérios estão presentes nas escolhas editoriais?

— Por motivos económicos isso ainda não se tornou visível, mas há duas Ímanes. A literária, que eu oriento, e outra mais virada para o ensaio nas áreas da Psicologia e Psicanálise, orientada pelo Luís de Sousa Ribeiro, e cujos primeiros livros sairão este trimestre. No que me cabe, tenho privilegiado a literatura e os livros de cruzamentos de género. Para este ano penso concentrar mais a literatura na revista — que já está atrasadíssima — e corrigir um pouco a mira da editora, abrindo o leque nos temas (sem me desviar da qualidade), se não a coisa não se aguenta. Já há livros para isso, oremos, a ver se as coisas correm melhor, com uma maior aceitação comercial. De qualquer dos modos, dei conta de que fui acumulando manuscritos que, apesar de reflectirem vozes e estilos muito diversos, têm uma obsessão comum: a ideia de metamorfose.

[Retrato dos artistas quando jovens: António Cabrita (à direita) e o designer da 'Construções Portuárias', José Teófilo Duarte]

Retrato dos artistas quando jovens: António Cabrita [à direita] e o designer da 'Construções Portuárias', José Teófilo Duarte