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Nos limites do silêncio

Dois poemas

Poemas de Rui Pires Cabral

Fotografias

[ilustração de Daniela Gomes]

Ilustração:
DANIELA GOMES

Nesta vida – é um facto – estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo

para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios

da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.

Victoriana

O silêncio e a temperatura dos museus
permeiam toda a cidade. A quantos serviram
estas velhas casas? Hoje são montras de antiqualhas,
folhas roubadas ao calendário da mocidade inglesa
de 1890. Caixas de tabaco, tinteiros de louça,
leques ilustrados com danças de estilo e figuras.
Melhor ou pior, toda a gente desperdiça
a sua vida.
Entretanto o dia expira a meio da tarde
porque é Dezembro. A esta hora os autocarros
já vão cheios de gente para os arredores, Sydenham,
Whitnash, South Farm, onde as estradas anoitecem
entre casas geminadas e os corvos sobrevoam os quintais
dos imigrantes. Certos sentimentos podem de repente
viciar as cores do mundo. Vêem-se cercas, antenas
e tabuletas, tudo coisas úteis às complicações
do escuro que nos pertence, que sempre
nos pertencerá.

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