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Nos limites do silêncio

Três filmes

Poemas de José Miguel Silva

MORRER EM LAS VEGAS – MIKE FIGGIS

Ó Las Vegas, altar do mundo,
não é sorte o que te peço,
só te peço que recebas esta alma
já em corpo decomposta, este corpo
decomposto em desespero.
Eu, cidade, fui cuspido, eu não
quero nada, eu acendo-te uma vela
que não arde.

O amor quando chegou à minha vida
chegou como ambulância retardada pelo tráfego.
Acolhe com favor a minha negação
e sepulta-me de rosto virado ao deserto.

A BARREIRA INVISÍVEL – TERRENCE MALLICK

É difícil caminhar sobre uma linha invisível,
uma linha de água, entre o mal e o mal.
Divididos pelo sangue que atravessa os pensamentos,
do inferno ao paraíso, com o medo entrelaçado
na memória, os bolsos pesarosos de metal ferroso,
caminha sobre as águas quem caminha sobre si.
Por isso é tão difícil caminhar sobre as águas.

A BARREIRA INVISÍVEL – TERRENCE MALLICK

(Poema II)

O último graduado a saber de cor
passagens inteiras da Ilíada foi
o tenente Jünger em mil novecentos
e dezassete. Mas esse era alemão e,
pior do que isso, entomologista.

Nós, em Guadalcanal, anos depois,
o que tínhamos era sobretudo medo de cair
em desgraça perante o nosso deus;
que não era Ares nem Apolo mas um homem
que se ria de tudo isso: a cólera a bravura
o ethos violento dos cabreiros
de Rodes, de Tróia, do Peloponeso.

Ria-se a figura do nosso barro,
do nosso deus; mas nós não nos ríamos.
Havia que matar, ainda que sem fé;
havia que morrer, mesmo sem perdão.
Fazíamos rebanhos de medos isolados.
Cada um agarrava-se àquilo que tinha:
a barra do beliche, um punhado de cartas,
o pano ainda virgem do idealismo,
a crista humedecida dos joelhos.

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