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O oitavo passageiro |
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DisputasTexto de Onésimo Teotónio AlmeidaJá deu título a um livro sobre os portugueses (Discurso do Filho-da-Puta, de Alberto Pimenta) e agora foi objecto de discussão em tribunal, com direito a relatório extenso e pormenorizado. Chegou-me em recorte de imprensa, curiosamente via Cabo Verde, aonde foi parar por boas razões: é lá o Instituto de Língua Portuguesa da CPLP e esta é uma história de linguística. De semântica, mais especificamente. E de vernáculo, ao fim e ao cabo. Resuma-se: um fulano dos arredores de Lisboa frequentava (o eufemismo figura na notícia) a filha da arguida, emigrada no Canadá, mas de férias em Braga. Houve zanga do dito com a família, metendo um polícia à porta acorrendo ao barulho, a quem a ré terá desabafado algo como: Ó senhor agente, vem um filho de puta de Loures para aqui chatear as pessoas. Nada mimoseado com a filiação, o ofendido levou o caso a tribunal. O relatório é divertido e dá para se aprender algumas nuances semânticas curiosas, como a diferença entre ser-se filho de ou filho da. Foi até aduzida como argumento jurídico essa distinção alegadamente praticada nos Açores. Eles lá sabem. Por mim, nado e criado naquelas terras ilhoas, só já crescidote me familiarizei com a expressão e, se me apercebi das duas variantes, sempre as atribuí a diferenças de classe social e de domínio da língua. Ao que parece, os tribunais, que devem ter experiência vasta em casos quejandos, estarão melhor informados. Não sendo portanto versado na matéria, de uma vez rondei bem perto de me envolver em escaramuças linguísticas afins. Tom O' Brian, advogado irlandês aqui nas redondezas, em Fall River, apanhou-me ao telefone. Tinha um favor a pedir. Pago. Era consulta profissional. Na voz, pressenti-lhe embaraço. Deixei correr: Um patrício, como eu micaelense de berço, exaltara-se numa altercação em certo barrom da cidade. Perdidos os travões da língua, escapara-lhe: A tua mulher é uma puta! Caso para advogado. Que era ele. E então vinha agora contratar-me para um serviço, aliás muito simples. Eu iria depor no tribunal na qualidade de especialista de português perante os jurados americanos. Explicaria simplesmente que puta e filho de puta são expressões corriqueiras e polissémicas, usadas numa diversidade de situações não registadas nos dicionários, mas parte do saber comum. Respondi ao Tom que sim, pura verdade falara e com conhecimento de causa. Mas eu não poderia satisfazer-lhe o pedido. Quando um homem da minha ilha, no princípio, meio, ou fim de uma discussão, diz a outro A tua mulher é uma puta! a frase só tem um sentido. Ele sabia, mas foi em cata doutro linguista. Também eu fiz há dias uma consulta ao meu amigo Eduardo Mayone Dias, em Los Angeles, ele sim especialista de Português, bem como de espanhol, na sua versão mexicana. Eu tinha visto o filme O Crime do Padre Amaro naquela adaptação libérrima do romance de Eça, transposto para o México de hoje. Numa das cenas, o bispo, tronco nu e munido de telefone portátil, encaminha-se para a banheira. Fala zangado com Amaro e, referindo-se a outro padre, diz que... ou ele faz isso ou está... fucked! Eu deitara atenção ao espanhol e o verbo era chingar, o tal que é tema de um capítulo de El Laberinto de la Soledad, de Octavio Paz. Pensei que os tradutores tivessem exagerado e que chingar seria mais piamente convertido em screw, talvez um lixar em português, que ficaria bem melhor a Sua Excelência Reverendíssima. Mas não — assentou o meu consultor — chingar era mesmo to fuck. Fiquei então sabendo e registei. Afinal, não era a primeira vez que me constava semelhante léxico em boca de antístite. Era eu adolescente quando numa aula contou o professor que um pimentão vermelho pequeno, mas violentíssimo à primeira trincadela, se chamava pimenta filha-da-puta exactamente porque teria sido essa a expressão jaculatória que à mesa, entre comensais, teria proferido um senhor bispo ao provar pela primeira vez esse exemplar de pimenta trazido nas caravelas. Si non è vero, foi dita ali sem rodeios por Monsenhor Lourenço, que sabia de Índias de lá ter andado, e que de humor foi meu mestre. Os problemas de semântica e as complexidades das nuances lexicais são território minado, embora lá para os nortes (e isso vinha largamente referido na dita notícia do jornal) haja uma liberdade a que o sul é alheio e as ilhas muito mais. A ponto de, na minha meninice, até corisco fazer parte da lista de palavrões com foro de pecado. Havia lá em casa uma lata de bolachas americanas "Crisco" e o meu irmão, desde garotito já garoto, provocando o pai, atrevia-se a experiências de leitura em voz alta Cr-is-c...o! Técnica de insinuação malévola bem conhecida do nosso Camilo Castelo Branco, a que por sinal pouco recorria, por preferir a verdasca. Um dia, porém, soube usar de requinte. Era um brasileiro, um tal Octávio de Sousa Filho, com quem tivera um debate. Do Rio, chegara uma carta anunciando ao escritor que o carioca delegava num amigo em Lisboa o poder de lhe dar uma bofetada. Camilo responde com desplante: "O Sr. Octávio de Sousa Filho, de- (tracinho, para a outra linha) puta e delega no seu amigo, o poder de..." No tal caso de tribunal, a notícia cita o advogado, segundo quem dizer filho da puta na região nortenha, e concretamente em Braga e seus arredores, seria o mesmo que dizer fulano. Mas não! garantia um conselheiro. Há circunstâncias! Os tribunais acharam que não havia dolo e o Supremo Tribunal da Justiça nada mais pôde fazer. O conselheiro lembra, a propósito, a sentença do juiz de 1ª instância, convencido pela brilhante argumentação durante as alegações: no noroeste do rectângulo, "dizer filho da puta até pode ter um sentido positivo. Pode mesmo ser um elogio". Perante tais razões, o magistrado absolveu a arguida, acrescentando: Não me agradeça a mim. Agradeça ao filho da puta do seu advogado! (Juiz com humor, diga-se. Como o outro, num julgamento em que o réu escolhera ser seu próprio advogado e, achando o juiz demasiado hostil, não se conteve: O senhor não gosta de mim. Ao que o interpelado contrapôs: Não é verdade! Não gosto é do seu advogado.) Voltemos às destrinças vocabulares e às liberdades expletivas minhotas. Um meu amigo nortenho, universitário e vice-reitor, (eu não invento estas estórias) contou-me que à mesa da consoada, família em peso, deixara escapar no maior dos à-vontades, envolto numa frase qualquer, um Carago! A sobrinha, de sete anos, curiosa já em matéria de léxico, apanhou um momento de silêncio e perguntou: Ó tio, carago é o mesmo que caralho, não é? Dúvidas, dúvidas. E não há sítios onde possamos devidamente esclarecê-las porque os dicionários coíbem-se, envergonhados. Ficam assim os vocábulos ao deus-dará na boca das gentes, sem ninguém para destrinçar o seu uso legítimo das forças de expressão mal-contidas. A dita notícia dava bem conta do ar perdido de juizes e advogados naqueles intermináveis debates sobre os filhos de/da. E não sei como terá respondido a minha cunhada a uma consulta da filhita. Juro que não invento. Ouviu-a
a Leonor, num telefonema para Lisboa falando precisamente com a irmã. Sabia (sabíamos) dos problemas do Quico,
seis anos em crescendo de complicações comportamentais na escola onde ouvia de tudo e chegava a casa exibindo novo
palavreado, desconhecido da irmã, dois anos mais nova, testemunha das repreensões desencadeadas. Pois nesse dia a
Leonor escutou os passitos de corrida aproximarem-se e a voz da Maria, ofegante, consciente de que o irmão abusara outra
vez, mas indecisa: Ó mãe, mãe! Caralho é pior que estúpida?
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«Dúvidas, dúvidas. E não há sítios onde possamos devidamente esclarecê-las porque os dicionários coíbem-se, envergonhados. Ficam assim os vocábulos ao deus-dará na boca das gentes, sem ninguém para destrinçar o seu uso legítimo das forças de expressão mal-contidas.» |