Se está a ler este parágrafo é porque o seu browser não suporta convenientemente folhas de estilos CSS (Cascading Style Sheets). Sugerimos que actualize o seu browser, pois caso contrário o aspecto deste site será muito diferente do planeado, se bem que continue a ser legível. As versões recomendadas dos browsers são: Internet Explorer 6.0 (5.5 já é bom), Netscape Navigator 6.2 (6.0 já é bom) e Opera 6.01.

Debaixo do vulcão

A poesia portuguesa em 2002

Texto de MANUEL DE FREITAS

Comecemos por uma evidência que alguns tendem a escamotear: 2002 foi um ano pouco entusiasmante, no que se refere à poesia portuguesa. Houve, felizmente, admiráveis contra-exemplos. Antes de mais, um livro imensamente inovador no timorato panorama da nossa lírica: Ulisses Já Não Mora Aqui, de José Miguel Silva (&etc).

Após uma excelente estreia – com O Sino de Areia (Gilgamesh, 1999) –, J. M. Silva reafirma-se como uma das mais seguras e inquietantes vozes poéticas deste tempo português. Há muito que a língua de Camões e de Pessanha não se via tão ferozmente brandida contra o estentor de epígonos, escolas e outros equívocos: "Movia-o a coragem de estar só, divisão / dos que celebram o massacre / da esperança. // Caiu a sua casa, vendeu as suas veias, / partiu para o desastre, / chegou à nossa frente" (pág. 53). Ainda na &etc, mas bastante aquém do que de ambos os autores seria legítimo esperar, registe-se a publicação de A Mulher-a-Dias, de Adília Lopes, e Tijoleira, de Alberto Pimenta (cujas capas, no entanto, merecem um particular louvor).

Um outro momento cimeiro da actual lírica portuguesa intitula-se Curtas-Metragens (Relógio d'Água) e é da autoria de Jorge Gomes Miranda. Sublinhe-se, além do habitual rigor prosódico, a preferência pelas derivas do humor e da (auto-)irrisão, bem como um sábio adensamento de certas opções metafóricas. Processos que talvez causem surpresa a quem, nesta escrita, valorizava sobretudo um logrado efeito confessional e a máxima contenção retórica. Porém, entre diferenças e continuidades, "o punhal que sangra / nas palavras" (pág. 32) deste livro obriga-nos a considerá-lo, sem hesitações, um dos mais relevantes conjuntos de poemas entre nós divulgado em 2002.

[Capa de 'Ulisses Já Não Mora Aqui', de José Miguel Silva]

Igualmente incontornáveis se apresentam os mais recentes títulos de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge. O primeiro refundiu, re-escreveu, despistou (não estou certo, ainda, de ter encontrado o verbo adequado) aquilo que eram os seus primeiros livros. O magnífico resultado dessa manobra invulgar ficou agora a chamar-se Consequência do Lugar (Relógio d'Água). Independentemente dos ínvios processos de sedimentação ou rasura – cujo inventário o autor vivamente desaconselha –, somos de novo confrontados com o que deveria ser já uma certeza: J. M. Magalhães é um dos mais importantes poetas portugueses dos últimos trinta anos.

A mesma afirmação é aplicável a João Miguel Fernandes Jorge, para quem 2002 se revelou um ano precioso – como se diz de um vinho ou de um intenso e perdurável amor. Amor à poesia, claro, mas também (ou sobretudo?) às artes plásticas e à "pequena pátria" que nos tinge o coração. Março, Os Remadores No Douro, Funchal em Fundo (ambos da Asa) e A Pequena Pátria (Presença) constituirão, doravante, antologias de referência na já extensa obra do autor. Por sua vez, Museu das Janelas Verdes (Relógio d'Água) é a confirmação de que não existe em Portugal voz alguma que tão bem saiba dar expressividade lírica a um intransigente diálogo artístico.

Embora a custo, temos de reconhecer que poucos mais motivos de fascínio poético existiram durante o ano de 2002. Esperava-se melhor dos novos livros de Jorge Fazenda Lourenço (Derivas) e de José Bento (Um Sossegado Silêncio), editados na graficamente irrepreensível colecção "Pequeno Formato" (Asa). Nos casos de António Franco Alexandre e Helder Moura Pereira (que, na Assírio & Alvim, editaram respectivamente Duende e Lágrima), o esforço de auto-renovação acabou por conduzir a resultados tão surpreendentes quanto duvidosos. Também os últimos livros de Fiama Hasse Pais Brandão, Fernando Guimarães (As Fábulas e Lições de Trevas, Quasi) ou Gastão Cruz (Rua de Portugal, Assírio & Alvim) dificilmente poderão ser considerados sedutores. António Osório, por seu lado, deixa-nos cada vez mais saudosos de livros como A Ignorância da Morte, resvalando para uma candura quase entendiante ou para meras e auto-complacentes dissertações eruditas em Libertação da Peste (Gótica). Na mesma editora, surgem dois livros que pecarão igualmente por excesso de brandura e de dívidas literárias: O Preço das Casas, estreia de Joaquim Cardoso Dias, e Novas Razões, de José Ricardo Nunes. Liberte-se um dia o primeiro de "asas azuis" (pág. 49), de "espumas delicadas" (pág. 53) e de todo um obsessivo aparato metafórico, e talvez a poesia surja. São outras as razões e as reservas nomeáveis quanto ao novo livro de J. R. Nunes. Além da presença notória de determinadas "vozes" (como a de Luís Miguel Nava), é de lamentar, não poucas vezes, a redução do poema a um inócuo apontamento: "Lembro-me das quatro esferográficas / que o meu pai tinha sempre à secretária. / Quatro cores, quatro opções / perdidas no tempo, há muito tempo" (pág. 38).

[Capa de 'Curtas-Metragens', de Jorge Gomes Miranda]

Outra editora, a Cotovia, parece há muito ter-se dedicado a apostar em poucos – e nem sequer aliciantes – poetas. O caso de mais flagrante teimosia é, sem dúvida, o de Paulo José Miranda, que, contrariando a lógica (aliás discutível) do vinho do Porto, consegue que a sua terceira colectânea de poemas (O Tabaco de Deus) seja aquela que menor interesse oferece; ao ponto de não se chegar a perceber, quer prosódica quer gramaticalmente, as mudanças de estrofe e os (des)acordos verbais. Um pouco menos exasperante, Angst, de Luís Quintais, não deixa, contudo, de suscitar alguns motivos de perplexidade. Não há inocência que justifique os versos finais de "Uma inocência": "certo tipo de coisas certo tipo / de asas flap flap flap certo tipo / de razões desesperadas" (pág. 42). Dir-se-ia que, por vezes, o mais aclamado neo-melancólico lusitano já não se distingue desse de quem todos querem fazer o poeta que não é: José Luís Peixoto (A Casa, A Escuridão, Temas & Debates).

Bem mais interessantes se revelaram os livros de Inês Lourenço (A Enganosa Respiração da Manhã, Asa) e de António Barahona (Sombra da Minha Noite, ICQUS), este último com a particularidade de corresponder ao "primeiro volume da Obra Poética" do autor. Caso ambíguo – nem que seja pela extrema volubilidade dos seus modos de escrita – é o de José Emílio-Nelson. Humoresca (Black Sun), embora literariamente convincente, parece soar demasiado à voz, inconfundível já, de um poeta bastante mais novo do que J. E.-Nelson: Carlos Luís Bessa. Ainda na Black Sun, registe-se a destreza com que Fernando Guerreiro encerra o ciclo "teórico" iniciado em 1997, convocando "de novo, os avatares impuros da literatura" (Caminhos de Guia, pág. 57).

À falta de conclusão (pois a poesia é sempre o que, por onde não sabemos, vinga e prossegue), fiquem estes versos, a sua dura e concisa substância, para que finjamos uma vez mais que não estamos mortos: "Vem. Abre o livro. / Quem lê não está morto. / Somente aproxima as palavras / da chama do tempo" (J. M. F. Jorge, Museu das Janelas Verdes, pág. 44).

[Capa de 'A Pequena Pátria', de João Miguel Fernandes Jorge]