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Os cavalos também se abatem |
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Não é fácil dizer bemTexto de João Pedro GeorgePassei as últimas semanas a ler autores portugueses: António Mega Ferreira, Possidónio Cachapa, Inês Pedrosa. Escritores de renome no nosso pequeno mundo literário, publicados em editoras consagradas, êxitos de livraria, faladíssimos, aplaudidíssimos. Tinha curiosidade. Supunha que eram bons. Mas enganei-me. Estava iludido. Porque, no fim de contas, isso não é, nunca foi, sinal de qualidade. Começamos com Amor, de António Mega Ferreira. Winnie, perto dos 50, e o narrador, com pouco mais de 20 anos, vivem uma paixão que dura cerca de 70 páginas. Ela já viu tudo, já esteve em todo o lado, Tibete, Índia, China, Peru, Quénia, Madagáscar e no Woodstock. Ele é atrevido e ainda acredita «na pureza infinita do amor». Aos dois amantes ouvimo-los discorrer sobre o Mediterrâneo, a caligrafia chinesa, a Revolução Francesa, a teologia solar dos pré-colombianos, civilizações exteriores, até que o narrador diz: «acusei-a de eurocentrismo». Logo à terceira página de texto, o leitor apanha com o Quarteto de Alexandria de Durrell, o sentido do intertexto de Baltasar e os paradoxos de Pursewarden. Até ao final, uma salganhada de referências, ora John Doone em inglês, ora Peter Handke em alemão, mais os améns de Cervantes, Artaud e Rilke. Quanto a amor niente, é artificial, não passa da epiderme. A relação termina em Marraquexe, ficando o leitor com a sensação de que aquele amor nunca existiu. Só voltam a encontrar-se ao fim de 20 anos, pouco antes de Winnie morrer. Em termos de escrita e de qualidades estilísticas, a falta de imaginação de Mega Ferreira não deixa de ser surpreendente, pois trata-se de um escritor experimentado, que não é propriamente um estreante. Sendo uma novela com pouco mais de 70 páginas é difícil não reparar que na página 9 «o olhar passeava pela sala» e, mais adiante, na página 13, «passeando o olhar à volta». Quando o narrador e Winnie conhecem Samir, um menino de rua de Marraquexe, «era como se estivesse à nossa espera». Vinte anos depois, quando o narrador reencontra Winnie, «era como se estivesse à minha espera», «como se tivesse sido ontem o nosso último encontro». Além disso, o texto está carregado de «sorrisos vagos», «indiferenças vagas», «penumbras indiferentes». Resumindo, fórmulas gastas, ausência de sentido de ritmo, incapacidade de transmitir o mais vago sentimento, afectação intelectual. Não é fácil dizer bem. [...] Rubrica completa na edição em papel... |
«Resumindo, fórmulas gastas, ausência de sentido de ritmo, incapacidade de transmitir o mais vago sentimento, afectação intelectual.» |