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Pulp Fiction

Males da urina

Conto de José Ferreira Borges

O senhor Adalberto acabou de dar os bons-dias à dona Ernestina. Saíra para comprar cigarros e, na volta, encontrou a hospedeira sentada, no corredor, a fazer renda. Agora, no quarto, o senhor Adalberto é invadido por uma importuna vontade de urinar. Sucede, no entanto, que um pudor imbecil, um cálculo dissimulado, o impede de ir à casa de banho. Ver-se-á coagido a enfrentar outra vez aquela mulher, e saudá-la novamente parece-lhe uma atitude insana. Por outro lado, enclausurar-se num mutismo franzido talvez revele descortesia na postura. Finalmente, libertar um dito espontâneo (sobre o tempo ou a saúde) é incompatível com o seu temperamento ponderado, muito sucinto no tocante àquelas palavras que fazem pontes levadiças entre os seres humanos.

Sem muitos minutos para pensar, o senhor Adalberto vai revolvendo todas as hipóteses. Uma repetida saudação é desde logo posta de parte, a menos que a dona Ernestina pensasse haver nele falhas de memória. E isso não acontece. Há sempre a possibilidade de dizer: «Não sei se já lhe dei os bons-dias ou não. Se o não fiz, faço-o agora. Bom dia!» Perfeita estupidez, se ainda há dois minutos a saudou! Convertendo a fórmula numa pergunta, não lhe soaria grosseiro o tom interrogativo: «Será que vamos ter mesmo um bom dia?» No entanto, discorrendo melhor, isto lhe parece um despropósito. Se, afinal, exprimiu há pouco um desejo, não é justo que agora lance a dúvida sobre ele.

E quanto à segunda hipótese? É óbvio que a dona Ernestina compreenderá o seu silêncio. Que mais haverá a dizer, depois de uma saudação, entre estas pessoas, que tão de fresco se conhecem? O certo é que o senhor Adalberto não se sentirá bem consigo mesmo carregando tal mudez. Não irá a hospedeira concluir que há nele um défice de educação ou um temperamento bilioso? Não de todo, lembremo-nos do recente cumprimento. Seja como for, o silêncio não é opção. Seguir calado até nem seria tão problemático, se no momento a dona Ernestina tivesse o olhar preso na renda. Benigna contingência, mas profundamente duvidosa. Por outro lado, posto que de carácter tímido, o senhor Adalberto prefere um olhar desassombrado a um olhar esquivo. E porque não um sorriso? Um sorriso amarelo, pois claro! É desprovido de sinceridade, e, ainda por cima, o senhor Adalberto mostra-se incapaz, nesta circunstância, de sorrisos de outra cor. Acresce que sorrir sugere, por vezes, um convite a perigosas cumplicidades, íntimas envolvências, que repugnam vivamente ao hóspede. A não ser que ponha um sorriso para ninguém, idêntico ao das almas sonhadoras e dos espíritos idealistas. Se lhe observar o rosto, a hospedeira verá uma expressão pacífica, reconciliada com o universo. No entanto, poderia supor igualmente que ele troçava dela com ar de olímpico desprezo.

O senhor Adalberto passa à terceira hipótese, a ver se descobre uma saída. Trata-se de emitir uma daquelas frases insignificantes, ainda assim fundamentais no estabelecimento da comunicação. Em princípio, as indicações do tempo são as que melhor lhe servem: «Hoje está bom, não está?» «Está frio!» «Virá a chover?» (O senhor Adalberto aproxima-se da janela e olha para o céu. Nublado. Só agora nota que o algeroz da casa contígua termina junto ao peitoril da sua janela. Repara também que o estore exterior ameaça desengonçar-se.) Perguntar se virá a chover é, de certo modo, desapropriado quando o interlocutor não tenciona, de imediato, sair à rua. E custa-lhe tanto dizer o que não sente, ou perguntar o que não lhe interessa!

Aparentemente esgotada a totalidade das hipóteses, a cabeça do senhor Adalberto remexe por dentro. Indigna-o a ausência de uma solução minimamente firme. Porque não fazer o trajecto a passo veloz, como em socorro de alguém ou de alguma coisa? Mas que poderia ele salvar numa casa de banho vazia? E o corredor não é uma pista de atletismo! Ainda há outra hipótese: fingir que lhe dói qualquer coisa, os rins, a cabeça, um braço, os órgãos genitais, e colocar as mãos sobre a dor imaginária, pondo um esgar de sofrimento ou soltando um leve gemido. Muito solícita, a dona Ernestina perguntaria: «Passa-se alguma coisa, senhor Adalberto?» E ele responderia: «É só uma pequena dor, Deus queira que passe!» Disto obteria outra grande vantagem: no regresso, achar-se-ia um motivo de conversa: «Já está melhor, senhor Adalberto?» Que sim, muito obrigado, foi uma dor passageira! Esta hipótese é, de longe, a melhor. Nenhuma das anteriores resolveria o problema do retorno ao quarto: repetir os gestos, ou as palavras, ou o silêncio duplicava o incómodo. Portanto, eis a solução!

[...]

Conto completo na edição em papel...

[Ilustração de Paulo Araújo]

Ilustração:
PAULO ARAÚJO