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Pulp Fiction |
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Histórias de lobosConto de António Cabral1Parar, às três da madrugada, em pleno Marão, motor aos soluços, raio de azar! O frio já colado aos ossos. Árvores derreadas na noite branca. L. que, confiante, tinha vindo a observar os chapéus de neve nos marcos da estrada, começou a desenhar, com muita lentidão, um S no vidro da porta. — Podias desenhar no pára-brisas. — Por quê? — Via-se melhor. Restava um cigarro que não dividimos ao meio, por uma razão económica: fumámos alternadamente. E recostámo-nos. — Ouviste alguma coisa? — Não. — És mouco. De facto, estava a ouvir mal do ouvido esquerdo. Voltei-me, que não era desse lado, os lobos deviam andar por ali e a Pousada ficava a três quilómetros gelados. — Pode ser que venha um carro e nos ajude. — Não vem. — Como sabes? — Sei. — E também sabes que a Pousada fica exactamente a três quilómetros? Percebemos, ao mesmo tempo, que conflituávamos. Como sempre que, no átrio relvado, alguma coisa parecida com um réptil ou um pedregulho. A penugem das ideias espalhada por ali. 2— Ouves agora? — pergunta de L. A serra crispava-se desde o ponto onde se adivinhava a valeta. Neve. Neve. Debaixo daquele arco de ramagens esquisitas, o automóvel tinha simultaneamente algo de napoleónico e de estúpido. Um pouco de lua branca deslizava, flácida, no cômoro, coleava entre os pinheiros, estava ali, subia entre as mangas e o musgo dos braços. Assim estive. Até que vi uma ave, grandes asas, pousar docemente na antena da rádio. Vi não é bem o termo: adivinhei-a, pois o pára-brisas estava completamente embaciado e gelado. Para a ver bem, corri o vidro da minha porta e deitei a cabeça de fora. Tinha um brilho de fogo lento e do bico pingava-lhe uma coisa que salpicava o capot. Os meus olhos não se devem ter fechado um só instante, enquanto a ave ali esteve. Vi cair-lhe uma pena, floco de neve igual aos que, a espaços tombavam da ramaria. Alonguei o pescoço, pois queria ver-lhe os olhos, mas ela ia girando, à medida que a minha cabeça girava. Tentei abrir a porta e sair: em vão. A humidade devia ter-lhe inchado as borrachas, ou gelado. A porta não se abria. Pensei naturalmente que havia ali qualquer coisa mais do que a humidade, mas não me importei, apesar de ter estremecido. Estiquei o pescoço novamente e a filha da puta da ave saltou para a estrada, começando a caminhar, a passos lentos, rodando, de quando em vez, a cabeça para trás, o bico em V, mas os olhos cerrados, a chamar-me. Cada pegada abria uma letra em brasa, logo apagada pelo floco de neve em que cada pena caída se transformava. Até que ficou completamente calva, brandindo o bico em movimentos rápidos e curtos. Quando me apercebi de que a soma das letras dava a palavra "noigandres" e de que a sonata em mi bemol que ouvia não vinha do rádio, qual rádio, mas dos meus nervos, dos meus neurónios transformados em instrumentos de cordas, abri o porta-luvas, tirei a pistola, puxei a culatra e apontei na direcção da... Tinha-se esvaído. Olhei para a direita: L. atravessava o vidro e era engolida por uma enorme pupila, ali, rente ao meu MT-83-96, um automóvel fabricado na Alemanha, produto de ciência avançada, em pleno século XX. O que restava da minha consciência inflamou-se. Disparei e pude observar um pingo metálico, alaranjado, escorrer no vidro, com um sorriso indulgente. 3— Tens frio? — Queimámos quase os livros todos e a lenha ainda não começou a arder. Estávamos num recanto, à entrada de uma gruta. O lobo continuava à nossa frente, língua de fora, a lamber a lua. — Se voltássemos para o carro? Discordância imediata do monstro: vimos as patas e suas garras elevarem-se bruscamente, rec-rac na penha em cima da gruta e logo uma coisa que desabasse. Fomos ver: batemos contra um enorme bloco oval e transparente — a passagem estava cortada. O monstro a lamber a lua. Sentámo-nos, a lenha começou a arder, ainda pude ler o resto de uma folha escrita por um memorialista filipino: "ibéricos, de tão habituados à presença humana, são quase animais domés." O silêncio já tinha fechado os olhos, foi-se estilhaçando lentamente; primeiro, um tremeluzir longínquo de sons; depois, um olho fosforescente no fundo da caverna. Decidimo-nos e fomos pela caverna adiante. 4Uma estátua branca emergia dum poço redondo que marulhava. Nós, de braço dado, encostados ao varandim. Galerias para um lado e outro, um velho andrajoso numa esquina, mulheres com ânforas à cabeça, náides luminosas num tanque de jaspe, sob o olhar atento de Apolo, um grupo de sete homens, a ulular, muito peludos, com grandes varapaus encimados por pedras pontiagudas, movimentos, revérberos: o tempo entrelaçado. Mas o que mais sobressai no filme que L. faria é uma enorme macieira com uma rapariga enroscada, a deitar fumo azulado pelos seios. L., que é especialista em cultura suméria, aproveitou a oportunidade para encher o tempo da melhor maneira, já que o olhar da rapariga nos tranquilizava. Pedi ao velho que se atirasse ao poço, como alguns já tinham feito. Ele agradeceu, quando lhe toquei no ombro, mas preferiu desfazer-se em bocadinhos de vidro que chocalharam e cintilaram até se evaporarem. Zym — assim se chamava a rapariga da macieira — começou logo por dizer que não era nenhuma rapariga, como estávamos a pensar. "Vocês têm a mania de ver tetas, estômagos e braços em todas as coisas. É um erro, bocadinhos de quartzo, é um erro." L. e eu voltámo-nos, ao mesmo tempo, um para o outro. Bocadinhos de quartzo?! Mas... deixá-la falar. "É um erro — continuou. — Vocês sabem que o sistema de irrigação do Tigre não seria possível, sem primeiro esvaziar uma ou duas estrelas? Instalei aqui um regime seguro, o que de princípio me tornou impopular, pois tive de mandar cortar a cabeça a sete chefes rebeldes e ambiciosos que disputavam a posse de Nipur." Zym respirava ao ritmo das águas que, em leve ondulação, banhavam a peanha da estátua branca. Depois de chacinar todos os rebeldes do seu povo, Zym governou durante alguns séculos uma terra próspera, mas viu-se de repente a braços com o gravíssimo problema dos Lobos — o Lobo 1 que, depois de habilidoso negócio, detinha o feroz domínio de cinquenta por cento das terras férteis e respectivos celeiros; e o Lobo 2 que, depois de também habilidoso negócio, manobrava completamente o sistema hidráulico do Tigre. Zym passou cem noites sem dormir, guardando um jejum rigoroso, erguendo os felpudos braços súplices ao deus de Ereque, grandioso em seu templo, e imolando em cada noite, quando o primeiro galo desse sinal, a mais bela virgem de cada aldeia. Finalmente, sim, achava-se inspirado para o feito: degolar os Lobos, a fim de restituir a alegria aos súbditos famintos. Imaginou um ardil cuja astúcia se ficava a dever à limpidez do pensamento purificado em cem dias e cem noites de vigília: chamaria conjuntamente ao seu palácio o Lobo 1 e o Lobo 2, com o pretexto de dividir com eles o poder sagrado, nomeando um Ministro da Agricultura e Comércio e o outro, Ministro da Indústria e Energia. Atraídos pelo gosto da fama, além do proveito, os Lobos compareceram. Eram irmãos e compadres e, pelo caminho, já tinham elaborado um sólido plano quinquenal. Zym, radioso em seu gesto, estava sentado no trono engalanado com os cabelos de cem donzelas e disse, com a mão firme na espada oculta sob o manto reluzente: "Irmãos meus, vós que fizestes jus ao sagrado poder, aproximai-vos para o ósculo dos eleitos." Aproximaram-se, mas, quando Zym levantava a sua decidida opulência, os Lobos... No seio esquerdo da rapariga viu-se entrar, fulgurante, uma espada, e sangue aflorar, rápido, e começar a pingar, aos flocos, como a neve, uma neve futura. 5Chegámos ao fim do túnel. O velho andrajoso que, pelo visto, havia ressuscitado, cuspia nos dedos para voltar a página dum semanário político. C'um olho lia, c'o outro pedia. Deitámos-lhe a moeda que restava no zinco das mãos e saímos para o sol. Um sol frio. L. tirou o xale, pô-lo num ramo de urze, baixou-se e soprou sobre um molhinho de giestas e faneco a que tinha chegado o isqueiro. Notei que o fumo descrevia pequeninos círculos, adelgaçando-se e comprimindo-se, alfabético. L. Meteu a mão no fumo, julguei que para se aquecer, e tirou um livro de J. de S. em que leu: "Não creio que, nos tempos de hoje, se possa honestamente fazer ficção de outra coisa", etc. Como tínhamos ideias divergentes sobre literatura, pusemo-nos para ali a discutir, a discutir. — É tarde. Vamo-nos embora — disse L. — De facto, é tarde. Vamo-nos embora — disse eu. Descemos a rochosa ladeira. Em silêncio, silêncio interior, diga-se, porque, fora de nós, uivos cada vez mais nítidos começavam a ouvir-se nas quebradas próximas. O automóvel estava ainda a uma hora de caminho e, a poente, uma nuvem muito escura aproximava-se. Que longe aquele dia por entre as oliveiras e céu paralelo ao tempo dos olhos seu brilho nas franjas do xale verde ainda não lhe tinha dito a razão nem mesmo no dia de anos porque não sabia apenas verde é que eu te quero verde e um pato bravo em voo contra o sol nós enlaçando as extremidades do mundo. 6Estremeci novamente, parecendo-me ouvir qualquer coisa como o raspar de garra no vidro. Seria mesmo? Desimportei-me. L. dormia no meu ombro. Não a acordei e voltei a recostar-me no estofo do MT-83-96, sorrindo da conferência sobre Gabriel García Márquez, no Porto, que, raios a apartam, tinha demorado até à meia noite e nos metera naquele sarilho. Que frio! Porra!
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