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Pulp Fiction

A fuga dos cardeais

Conto de José Prata | Ilustração de Rui Lúcio Carvalho

[Ilustração de Rui Lúcio Carvalho]

O Papa está placidamente deitado dentro da redoma de vidro. À volta do Pastor Supremo, dispostos em círculo, pastam os cardeais. Na cripta, pelo respeito que a data impõe, foram desligados os telecomunicantes. Ouve-se apenas o roçagar aveludado das sotainas no chão de mármore. São vermelhas as sotainas, dourados os rebordos, solene o momento: vive-se o dia 28 de Maio de 2064, o Sumo Pontífice comemora 173 anos. E ainda mexe.

Mexem as mãos, sobretudo. Uma tremideira antiga, piorou nos últimos quarenta anos, mais década menos década. Os dedos ganharam ritmo próprio, coreográfico. Cada mão é um leque que abana à direita, que abana à esquerda, acabando invariavelmente por chocar contra as paredes de vidro, de ambos os lados. Vidro grosso, inquebrável, louvado seja o Senhor.

Está em plena forma Sua Santidade, e não só das mãozinhas irrequietas. As imagens cerebroscópicas provam-no, ainda há ali vida mental. Os eléctrodos ligados ao Santo Cérebro começam a vibrar, o seu primeiro pensamento do dia ascende ao ecrã digital suspenso do tecto. E surge a palavra, no italiano sacramental: Fratelli!

Um frémito percorre o círculo cardinalício, corrente eléctrica a atravessar as cabeças coroadas de mitras. Depois o silêncio, pesado como um mausoléu. Imobilizam-se as muletas, os báculos aquietam-se no chão marmóreo, calam-se as cadeiras de rodas num derradeiro chiar de pneus. As sotainas dos que ainda se mantêm em pé emudecem, suspensas, à espera da revelação. O rumor tornou-se mais insistente nos últimos meses, corre desesperado pelos corredores do Vaticano, fervem os telecomunicantes eclesiásticos: sua santidade vai renunciar, temos conclave.

Irmãos!, repete o ecrã em polaco. Irmãos!, insiste, agora em inglês: Yo Brothers! E treme a ala Norte do círculo. Os cardeais afro-americanos, tocados pela graça da referência, sacodem os brincos-antena ao ritmo das cabeças aquiescentes, gospel imenso a trepar pelas paredes da cripta. Depois em japonês – impressionante ainda a caligrafia mental do Santíssimo –, em chinês, até em árabe, Irmãos, Irmãos, Irmãos!, escrito de trás para a frente.

Bom, e em português, como é?, resmunga entredentes o cardeal luso, agarrado à tripeça, os olhos impacientes a tentarem focar o ecrã, cataratas à espera, lacrimejantes. Calma, hombre!, cicia o homólogo espanhol, louro asturiano e angelical, o mais novo de sempre a pisar a cripta, 65 anos apenas. Serás o próximo Papa, esta noite sonhei com fumo branco, tinha o teu nome inscrito, diz-lhe num sussurro. Lábios colados à orelha do outro, língua brincalhona a explorar-lhe a cavidade.

O sorriso maroto gela-se-lhe nos lábios ao sentir a língua presa, apantanada na cera cardinalícia do luso representante, nos pêlos que a envolvem. Valha-nos Deus! E a língua colada, elasticada agora ao máximo, a ameaçar ruptura. Os cardeais em volta pressentem escândalo, os cegos levam a mão em concha ao ouvido, os surdos aguçam os aparelhos auditivos, os mudos arregalam os olhos, à espera.

Ploc. A língua descola-se. Subitamente desprovido de apoio lateral o luso cardeal cai da tripeça, desamparado. O espanhol apressa-se a levantá-lo, erguem-se os dois ofegantes, embaraçados, uma pontinha de excitação a afoguear-lhes as faces.

Viram-se ambos para a redoma, sorriso beatífico a disfarçar-lhes o semblante. O entrepernas castelhano, desgovernado, aponta virilmente na direcção do Soberano Pontífice, a trair a força eloquente da aliança ibérica. ¡Cabrón, que te he dicho que limpiaras las orejas!, indigna-se, coraducho, o espanhol.

Fratelli! Reza outra vez o ecrã. Já o Bispo de Roma abençoou as línguas todas do alfabeto, nem as africanas foram esquecidas, regressa agora ao italiano. Fratelli! Così fan tutte!, estrondeiam as imagens no ecrã. Os cardeais entreolham-se, interrogativos. Puttane, puttane, puttane! As letras a aumentarem de corpo, voluptuosas, ensandecidas: Porca miseria! Puttane! Vaffanculo!

Chocam as mitras espantadas, colidem em revolta os báculos. Sacrilégio! Dos eléctrodos irrompem faíscas, luzes acendem-se e apagam-se, enlouquecidas. O Núncio da Informática acode aos comandos, puxa alavancas, massacra botões, Jesus, Maria! O Núncio da Segurança surge desabrido com um malho nas mãos, urge destruir o computador, Vade retro, vade retro. Mas tropeça na sotaina, aterra de cabeça no vidro afinal quebrável. Abre-se uma racha, e outra, o oxigénio da cripta penetra selvaticamente no redoma, envolve o Santo Corpo. Horror!

O Santo Corpo estremece ao contacto com o oxigénio, guincha, sacode-se possesso, entra em combustão espontânea: Fogo! Grossas labaredas disparam da redoma, propagam-se, crepitam cabos, retorcem-se no chão, serpentes do mal em fúria. Debandam os cardeais, Porca miseria! Cadeiras de rodas volteiam à procura de portas, bengalas e muletas em atropelo, algálias em queda livre, sotainas a arder. Acudam, acudam! O Núncio da Informática enforca-se com o fio do rato, o Núncio da Segurança ardeu há muito, o luso cardeal tropeça no corpo carbonizado do asturiano, Que belo era, arranca-lhe do dedo o anel bispal, retoma a tripeça, ala que se faz tarde.

As portas são arrombadas com estrondo, entra de rompante a Guarda Suíça, Aleluia! Que lindos uniformes! Os cardeais precipitam-se para a saída, perseguidos pelas chamas. Acotovelam-se, chicoteiam-se com os terços, voam muletas na refrega, báculos manipulados com mão assassina, lanças da guarda.

E cá fora, olhos postos no Vaticano, os jornalistas abanam a cabeça descrentes. Oh não, fumo preto. Again.