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ÍNDICE | FOLHEAR | ASSINATURAS |
InvejaA Egoísta é daquelas revistas de que apetece mesmo dizer mal. Gabada por todos, com colaboração de toda a gente, premiada pela luxuosa qualidade gráfica (e tipográfica, já agora), está mesmo a jeito para o exercício da maledicência. Ser propriedade dum grupo económico que não precisa de se preocupar com as vendas e com o número de leitores só reforça o sentimento de injustiça dos pobres. Se conhecêssemos a Egoísta quando buscávamos nome para a Periférica, não teríamos hesitado em baptizar a nossa revista de Invejosa, para nos igualarmos nos pecados e mostrarmos sinceridade.
Por encomenda do Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho (que não tem um casino), haveríamos neste número quatro de arranjar razões para denegrir a nossa concorrente Egoísta. A banalidade de muitos textos, o excesso de aparência e pose, o tamanho, o peso, o impacto ambiental, coisas assim. Mas não foi preciso. A direcção do GDCV sentiu-se redimida quando viu, numa livraria, uma senhora bem parecida hesitar entre a Egoísta e um manual de jardinagem para presente de Natal. O manual era mais barato. Que embrulhassem a Egoísta, por favor, disse a senhora. RAA Terra de cegos
Renasceu uma revista literária, a "365", é bimestral. Na sua primeira encarnação teve sete vidas, morreu entretanto, voltou agora. O primeiro número da nova série tem a data de Dezembro/Janeiro de 2003. Lemos até onde conseguimos, descobrimos o que esperávamos não descobrir: a costumeira zarolhice do outro olhar. O outro olhar, para que conste, é uma visão estrábica do universo. Não compete ao escritor imaginar uma história, muito menos contá-la. Basta-lhe lançar o olhar rameloso à realidade — a realidade dele, a única que é capaz de reter. Temos neste número vários olhares, podemos começar na página 24. É um texto de Luís Casimiro, de início assim: "Continuava a olhar-me com aqueles olhos azuis tão grandes." E chega. Recuemos à página 14, assinada por José Luís Peixoto, mestre absoluto do outro olhar, de quem todos os olheirentos parecem descender. Aqui a citação alonga-se, pedimos perdão: "Às vezes, olhavas-me. Às vezes, olhava-te. Quando olhávamos para outras coisas, olhávamos sempre um para o outro, porque olhávamos para outras coisas, mas mantínhamos sempre a atenção um no outro." Há mais "olhávamos", acreditem. Não apenas no olhar vertente mas ainda noutro, afinal José Luís Peixoto bisa. Vamos encontrá-lo de novo na página 29, de título premonitório "Espero nunca te desiludir". Não desilude, começa aliás muito bem: "Hoje, o vento foi muito forte nas ruas da cidade. Os olhares contrariados. Os rostos." E mais à frente: "Mas tu, com um olhar que amei mais do que todas as coisas (...)". Ou ainda: "Ontem, o teu rosto. Ontem, os teus olhos grandes a contarem-me muitas coisas na sua cor e no seu brilho." Os rostos. À beira da apoplexia. Os olhares contrariados, postos já na página 38. Reza ali um provável discípulo, Pedro Marques, calculamos que poeta: "Olhar no seu brinco com um dente de leite."; "Olhar como se dalgum modo chupar a orelha carnuda."; "Olhar os dedos entrelaçados.", etc. E mesmo para acabar, o outro olhar feminino. Também existe, é de Ana Maria Campos, página 39: "Eu queria arrumar-te a casa, limpar-te os cinzeiros, fazer-te a comida e sentar-me à tua frente enquanto tu comes, só a olhar-te comer. Eu queria acordar ao teu lado antes de tu acordares a olhar-te dormir olhar a tua cara toda (...)". No feminino é por fim a grande entrevista desta revista literária, secção "Encostados à Parede". A entrevistada chama-se Xana Campos, e tem como principal mérito — letras a negrito no original – ser a Marta da OK Teleseguro. Responde a uma série de perguntas picantes sobre bananas ou gelados Calipo, comê-los ou não na rua, eis a questão. Não que valha a pena ler as respostas, à procura do outro olhar. Aqui importam as fotografias – a rapariga serve, entre outras coisas, para ser olhada. Deitemos pois à revista 365 o olhar, um outro olhar, o nosso olhar. E vazemos os olhos. JP |
Ideia grátis para o DNAJá existia a Coluna Infame (um prazer para os neurónios), blog da responsabilidade de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho, todos jornalistas, os primeiros a escrever no DNA. Para contrapor, os irmãos Silva (José Mário e Manuel Deniz) criaram o Blog-de-Esquerda, e a festa renovou-se.
A rapaziada é toda muito erudita. Têm todos muito espírito. São muito amigos. A maioria até trabalha para o mesmo suplemento de jornal. Mas algo os separa: o fio de lâmina que divide a direita da esquerda. Com os media tradicionais a confundirem "generalidade" com "superficialidade" (talvez porque rimem), ou a entregar o espaço à coisa popular, é higiénico o cidadão refugiar-se na Net — não podendo ser no estrangeiro. O confronto entre os blogs de esquerda e de direita (eles não se ocupam só desta guerra) informa, ilustra e diverte. Três coisas se aprendem de imediato. Que a esquerda perde o combate da ironia — esta dá-se melhor com o cinismo da direita (Eça era ou não um reaccionário?) —, e, por consequência, o literário. Que é mesmo verdade tornar-se a direita infantil e algo estúpida quando o assunto é a guerra (excesso de chumbo no sangue por demorado manuseio de soldadinhos na infância). Por último, aprende-se que o DNA se tornava finalmente interessante se fizesse copy/paste com os blogs dos seus colaboradores. (Não precisam de me agradecer quando inaugurarem a nova secção.) RAA Bom RumorPrimeiro foi um rumor (nem sempre inimigo da verdade) apanhado aqui e ali. Depois, vieram os artigos, que se davam a ler com a evidência das coisas físicas. Por último, um texto que confirmava a suspeita: durante seis meses houve uma nova polémica literária em Portugal. O texto era de Abel Barros Baptista, e o alvoroço, afinal, era a revista, a Inimigo Rumor. Tudo começou com um ensaio duma tal Marjorie Perloff, seguido de dois comentários (de Gustavo Rubim e do próprio Abel Baptista). Os textos foram publicados no número doze da revista editada pela Cotovia em conjunto com a Angelus Novus e a brasileira 7 Letras. A temática, a traços largos e torpes, era a poesia, a poética, a crítica, a relação da poesia com a universidade e o alegado iminente ou desejável divórcio daquela com os jornais. Num primeiro momento, houve uma reacção de António Guerreiro no Expresso. Mas, porque a segunda parte desta reacção estava prenhe de farpas, logo saltaram a terreiro, em tempos e media diferentes, Fernando Pinto do Amaral, Pedro Mexia, Eduardo Prado Coelho e Luís Miguel Queirós. Agora, de novo na Inimigo Rumor, no número treze, Abel Barros Baptista vem lamentar tanto barulho por nada. Que os senhores se perderam em assunto laterais e pessoais, que preferem a troca de insultos, o exercício de ironias e sarcasmos, que o cerne da questão ficou por discutir. Antes que se diga de mim que também quero "molhar a sopa" em tão elevada questão, aviso já que o que me traz aqui é mesmo a defesa da troca de insultos e a apologia do exercício de ironias e sarcasmos. Haverá, certamente, urgência de discutir as coisas da poesia, sobretudo aquelas que se prendem com o binómio jornais/universidade. Mas parece-me que o sr. Abel Barros Baptista ignora outro lado não menos importante da literatura: o lúdico. A "questão" em que se envolveram os doutos senhores pode não ter sido a "magna questão" — mas não fez pouco pela poesia. (E de caminho divertiu os leitores com assunto uns graus acima dos programas de TV.) Os media andam arredados da poética, por isso a Pátria agradece polémicas destas, capazes de chamar a atenção para revistas e matérias habitualmente ignoradas. De que outro modo seria despertado o interesse dos cidadãos não universitários para coisas como os pontos onde a poética e a poesia se confundem ou distinguem? Venham as farpas, venha a ironia e o sarcasmo! Por mim, estou disposto a pagar os custos da interioridade (os portes de correio da Inimigo Rumor) nesta questão. RAA |
Semear em Prado fértil
O sr. Eduardo Prado Coelho é a personalidade preferida da intelectualidade portuguesa. Seja porque esta o tem como guru, seja porque é preciso abatê-lo. Por vezes não se fala do sr. Prado Coelho, mas nem assim ele escapa. Cabe sempre como citação, exemplo, referência, ou até só para dar cor à anedota. Toda a intelectualidade acaba por se situar, mesmo sem querer, em função de Prado Coelho. Ou porque o homem escreveu baboseira, ou porque acertou no que disse. Não me parece que ele se sinta mal nesse papel de "incontornável". Para ir alimentando o élan, a espaços até selecciona umas polémicas onde se envolver. Por mim, não lhe vejo especiais méritos ou defeitos. Acerta umas poucas, falha umas quantas, como todos os que publicam prosa abundante. Escreve uns artigos quase sempre dispensáveis no Mil Folhas. Aqui na redacção há quem lhe dedique estima (talvez pelo ar bonacheirão). Mas se concordamos em enviar-lhe a Periférica é porque esperamos publicidade gratuita — não exactamente opinião. RAA Levados do DiaboNestas andanças de edição e escrita de revistas, não raro faz-se a crítica à religião católica ou aos que a praticam. O que noutras matérias é rotina cívica, aqui passa por ser uma afronta. E de pouco servirá apresentar um currículo de antigas e boas relações com padres e freiras. De pouco valerá provar a inexistência de traumas vindos da frequência de seminários tortuosos (especialmente não os tendo frequentado de todo). Invadido esse território sagrado, o estigma é inevitável: é-se um pedreiro-livre, um jacobino, ou, menos anacronicamente, um execrável dum herege. "Levado do diabo", quando ainda há espírito para a versão mais caridosa. A polémica acerca dos quadros que a pintora Paula Rego fez para a capela do palácio de Belém (cenas da Bíblia, com o estilo e o traço comuns da artista) serve para recordar o lado mais pernicioso e inseparável da religião: o do obscurantismo, da ignorância e mesmo da intolerância. O modo como Paula Rego retrata Cristo e Maria é grotesco e ofensivo, dizem. E não se trata tanto das cenas como das feições, sublinhe-se. Os católicos que assim se pronunciam ignoram, claro, a história, a antropologia e a mensagem cristã (que a mera defesa de imagens, sejam elas quais forem, contraria). Mas também ignoram (ou não?) que, ao defenderem com veemência as imagens tradicionais dos seus santos, estão a promover uma espécie de eugenia. Que noutras circunstâncias não é improvável que condenassem. O facto de várias personalidades da hierarquia religiosa demonstrarem, neste assunto, uma abertura e inteligência saudáveis não anula a nefasta tutela que a igreja católica mantém sobre o obscurantismo de muitos pobres de espírito. Que, como Cristo, são obviamente louros e têm olhos azuis. RAA Deixar arderAcabei de ler O Que Farei Quando Tudo Arde, de António Lobo Antunes. Li-o na língua original, por não ter apanhado a edição em inglês. Agradou-me muitíssimo a leitura desta novela. Não só porque a creio muito inovadora, mas também porque me revejo nela de forma surpreendente. O autor português utiliza uma estrutura narrativa baseada em fragmentos desconexos, em permanentes recuos e avanços no tempo, sem que facilite ao leitor a definição clara das inflexões temporais, a fronteira entre os vários momentos que constituem o programa do livro. Este, o programa, consiste na convocação expressionista de experiências traumáticas, em rememorizações sofridas e cruas, por vezes cruéis, numa forma que se diria mais tirada do divã de um psiquiatra do que de um bloco de notas de um escritor.
Eu invejo mister Lobo Antunes. O estilo, a forma, os recursos, a temática, tudo me toca, como se um dia eu tivesse escrito igual. Comove-me que no cômputo dos narradores haja um deficiente mental. Quando publiquei O Som e a Fúria fi-lo hesitando na pertinência da fórmula. Que abandonei, por receio. Mal sabia que, do outro lado do Atlântico, uma alma gémea estava a levar este desiderato (esta maneira de construir novelas) a tal expoente: contra as minhas míseras trezentas páginas, o sr. Antunes leva umas boas três mil. Se não estivesse já, prostrava-me! WF
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Redondamente enganadosNão sou daqueles fundamentalistas anti-FNAC que expõem com um dedo nodoso o mercantilismo de que supostamente padece. Pelo contrário, a ser alguma coisa, serei profeta das suas qualidades, pois em poucas livrarias me sinto tão bem como lá (excepto nas épocas em que a maré cheia do consumismo mais nos ameaça submergir). Tem melhores preços, tem quantidade, tem variedade e, coisa rara, tem funcionários simpáticos, eficientes e até com grande conhecimento e gosto pelo produto que vendem, os livros. Em contrapartida, uma certa livraria mais que centenária que conheço tem ao balcão uma vendedora de queijos (uma má vendedora de queijos, entenda-se) que se enganou na morada do emprego... Mas deixemo-nos de elogios, que outra coisa nos traz aqui.
Pois deu-se o caso de, um dia destes, passar eu pela FNAC. Percorria as estantes em busca de pequenas preciosidades de alguns autores fundamentais, mas cujo respeito reverencial (da minha parte) não me permitiu ainda partir para as obras de mais fôlego. Encontrei «Avenida Névski», dei-lhe uma rápida volta a verificar o preço na contracapa — 5 €, óptimo —, juntei-o aos dois ou três previamente escolhidos, segui para a caixa. Lá — coisa rara — olhei para o mostrador à medida que os preços iam sendo lidos. E foi então que, ao passar da «Avenida Névski», vi aparecer o preço: 5.85 €. Estranhando, pedi ao funcionário para me deixar ver a etiqueta da contracapa: lá estava, 5 85 €, assim, com os cêntimos relegados à categoria de expoente mínimo. «Agora são assim os preços,» informou-me o caixa, «a grande só vem o preço mais redondo; os cêntimos vêm mais pequenos, para não confundir.» Right... FG |
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