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O Padrinho

Carta de J. Rentes de Carvalho

Para Barbara Philipsen


Prezada senhora,


Talvez lhe pareça estranho só agora receber resposta à carta que há tanto tempo me escreveu. A minha demora não tem a clássica desculpa da falta de tempo, nem tão-pouco se deve a uma falta de interesse. Bem ao contrário. A falar verdade ela foi causada pelo facto de a sua carta vir remexer dentro de mim em inquietações que em geral tento pôr de lado, pois a minha vida seria uma agrura se constantemente me preocupasse com as misérias do mundo e a minha certificada incapacidade para lhes dar remédio.

Na sua tão simpática carta a senhora diz-se chocada com os grandes incêndios que no Verão sistematicamente destroem as matas de Portugal e pergunta-se se eu, português e escritor, não terei possibilidade duma ou doutra maneira pôr cobro a essas calamidades.

Como não nos conhecemos, tenho de supor que a senhora vive com a noção mítica de que o escritor é um ente com poderes e meios de influenciar a sociedade. Mito, aliás, que os próprios escritores em geral ajudam a propagar. Mas deixe-me desde já dizer-lhe que assim não é. Guardadas as devidas proporções e lançado o manto da caridade sobre as vaidades, do escritor (h/m) não fica mais que um humano como os outros, com problemas de saúde, de amor, de dinheiro e aborrecimento.

Se ele por vezes consegue enriquecer a sociedade com uma obra do seu fabrico e daí lhe advém eventualmente condecoração ou estátua, a sua influência sobre a vida em redor limita-se àqueles campos em que o primado cabe à fantasia. E, como a senhora deve saber, com fantasias não se acode a desastres, não se dá de comer a quem tem fome, nem se mitiga a dor dos que sofrem.

Pela minha parte, e mau grado o desassossego que isso possa vir a causar, inclino-me para a abolição do mito da importância do escritor na vida dos povos. Do mesmo modo que veria com bons olhos que, socialmente, os escritores fossem equiparados aos varredores e a outras profissões humildes como a de lava-loiça ou assistente de limpeza. Entre os vários benefícios que isso traria, creio que se contribuiria também para pôr termo à extraordinária inflação que a actividade da escrita actualmente conhece na maioria dos países, a ponto de em muitos deles a flatulência se ter tornado tema literário, e a edição e a venda de livros ganhar fortes parecenças com o comércio de vento.

Embora com nenhuma esperança de vê-lo chegar, eu sonho com o dia em que nas livrarias e nas bibliotecas se encontrem apenas os livros que nos enriquecem o espírito ou nos divertem. Não vá porém julgar que eu desejaria ver proibidos os restantes. De forma alguma. A esses, a gigantesca massa dos volumes em que gente sem talento nos dá conta das doentias vivências das suas pequeninas almas, eu desejaria apenas que fosse aplicada uma taxa segundo o princípio já corrente de que o poluidor deve pagar. E quem sabe se então, desencorajados, os pseudo-escritores não se deixariam tentar por uma actividade útil como é, por exemplo, a de ser bombeiro em Portugal.


Cordialmente seu,

J. Rentes de Carvalho