a jovem diana ergue para mim os plácidos olhos através da porta envidraçada. não há nada para ninguém. a patroa foi dar um giro, diz-me naquela linguagem dos calmos em que nada se ouve e tudo se entende. coisas para iniciados. a patroa foi num pé à mercearia aviar um caldo entalado numa massa escura, só para dar um gostinho ao guisado.
por acaso apareceu na mesma altura um rapaz. o rapaz não era de cá, mas de lá. do outro lado. ora, para quem está aqui à beirinha do mar, ele é mar que chega, de alto a baixo é só mar, ora para quem está deste lado, repito, o outro lado é a terra que o velho cabral achou, contra ventos e marés, já lá vão mais de quinhentos anos. pois o rapaz era de lá, e alombava com sofás que saíam de um grande camião de goela aberta. e pede o rapaz com aquele sotaque carinhoso num português amolecido pelo sol: mi vendji umas maçãs? sim, lhi vendo as maçãs que quiser. vendo-lhas todas até. e ele escolheu três das mais rijas e brilhantes e a merceeira lhi pesou as maçãs e ao mesmo tempo salta com a ferroada pronta: você acha bem a maneira como deixou o camião estacionado? não vê que pode riscar os carros que estão perto? para se ser respeitado, tem de se respeitar. se não foi você, diga lá isto ao motorista do camião. o rapaz pagou, engoliu o recado no momento, e as maçãs, depois.
a patroa abre a porta envidraçada e diana salta para a rua. nã, isto não está encerrado, encerrada precisava eu de estar durante um ano. para fazer obras, mas era em mim. ficava outra.
isto já não é o que era. disse-me ela com os olhos magros ainda luzindo debaixo da boina. as voltas que a vida dá. soubesse o que sei hoje e não tinha comido tanta feijoada, tanto porco na brasa, tanto torresmo. nem bebido o meu tintol, só para acompanhar, não sou de bebidas. tudo se paga. agora para aqui ando, nem lhe digo o que passo, para quê tanta miudeza?
quer um conselho? conselhos são a única coisa que ainda tenho para dar. não se gaste. não corra à frente. atrás é bom. quem vai atrás anda devagar e tem tempo para ver. e ver é o que nos falta. quando a gente vê, não escorrega na lama. só se for tolo. e se não escorrega, não cai. digo-lhe isto porque sei. olhe para a minha diana. quietinha detrás da vidraça. olhando. os animais sabem muito. mais do que nós. farejam o temporal e a calma. convívios.
e digo-lhe mais e para acabar, para não dar ideia de que sei tudo: ponha um letreiro na porta da casa, no escritório, e na alma, sobretudo na alma: encerrada para obras. mude a direcção. mude a agulha ao pensamento. não é bem fazer tudo ao contrário, mas olhe que quase. encerrada para obras é um bom começo. pense nisso. afinal não tem o tempo todo. e o tempo passa, digo-lhe eu.
depois tudo vai ser diferente, verá. os tapetes vão ter outra cor, os filhos vão olhá-la como gente, cada outro será outro e isso, parecendo que não, é uma coisa imensa. e que dizer dos cheiros, dos sons, dos cantos velhos? é como se as coisas aparecessem pela primeira vez, basta olhá-las devagar, tomar-lhes o peso, a leveza também.
lave-se por dentro. mas, primeiro encerre. para obras. não precisa de deitar tectos abaixo, mas derrubar paredes, isso
sim. para que o ar circule, amplo ar, desobrigado, vastíssimo.
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