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Fernando Venâncio

Entrevista por Rui Ângelo Araújo e Carlos Chaves

Rezam as badanas dos seus livros que Fernando Venâncio «nasceu em Mértola em 1944. Fez estudos em Lisboa e em Braga. Desde 1970 vive na Holanda, onde se licenciou em Linguística Geral. Aí se doutorou, em 1995, com uma tese sobre ideias literárias em Portugal no século XIX. É desde 1988 docente na Faculdade de Letras de Amsterdão.»

Para o que aqui interessa, Fernando Venâncio é, também, crítico literário. No Expresso, no Jornal de Letras, na Ler. Recentemente, publicou dois livros onde reúne crónicas (Maquinações e Bons Sentimentos, Campo das Letras) e ensaios literários (Objectos Achados, Edições Caixotim). Acima de tudo, bate-se pela clareza, pela nitidez na literatura. É fã da "Campanha Alegre", usa um estilo desassombrado nas suas críticas e envolve-se com facilidade em polémicas. A que poucos escapam. O que tem o condão de nos agradar.

Fernando Venâncio é também ficcionista (Os Esquemas de Fradique e El-Rei no Porto). Diz mesmo, nesta entrevista cibernética, que «meter-se um fulano a crítico sem a menor experiência da criação literária é atrever-se a perigosa aventura». E garante que se tivesse de optar escolheria a ficção. Fazia mal.

A mais primária das perguntas a um crítico: qual é a importância da crítica literária?

É a importância de uma opinião em que confiamos. Pode ser a daquele amigo que nos diz «Tens que ler este livro», ou então «Não perdes muito se não leres». Como não temos amigos que encarreguemos sempre disso, usamos a crítica literária. Ela dá-nos um mínimo de orientação. Além disso, ela pode nortear o próprio autor, que deve partir do princípio de que o crítico é sério. Há autores que partem da incompetência ou da má-vontade de um crítico, o que é simplesmente infantil. São uns mimalhos.

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Em muitas das suas crónicas, defende, por blague mas possivelmente não só, que importa identificar os visados de críticas, mandar menos mensagens nas entrelinhas. Que razões vê para essa coisa de deixar nuvens ou sombras sobre os nomes? Cobardia? Comodismo? Desejo de não comprometimento? Hábito enraizado?

É nítida cobardia. Existe, na cultura portuguesa das últimas décadas, uma falta de frontalidade autenticamente descarada. E a cobardia mais detestável é a que diz: «Não os cito, para não promover esses cabrões.» Já no comentário político, há progressos, ataca-se mais de frente. Sirva de exemplo Miguel Sousa Tavares, que é, ainda por cima, um prosador espantoso. Mas, no domínio literário, somos uns cagarolas. Batemos palmas ao Luiz Pacheco, e isso desobriga-nos de lhe imitar a coragem. É um jogo do esconde com que ninguém ganha, e que só cria impunidade à nossa volta. Há quem se ria na sombra.

Eduardo Prado Coelho?...

Ele tem feito algum mal à nossa literatura, promovendo aquilo que já não implica risco nenhum. Eduardo Prado Coelho cria o seguro, e depois joga só nesse seguro. Procede por auto-enxertia, num circuito fechado e doentio. Mas ele tem um álibi que, por profundamente injusto, sempre me desarmará: é, ele próprio, um magnífico estilista. Enfim, não sendo a escolha mais feliz, antes ele do que um qualquer merceeiro da cultura.

O facto de estar fora do país facilita a maneira aparentemente despreocupada («de viseira aberta», expressão que utiliza muitas vezes) como se mete em polémicas? Faria o mesmo se estivesse cá?

Mas eu estou «cá». Porque é cá que as apanho. É cá que crio os meus anticorpos, as minhas inesperadas inimizades. É cá também que, como ficcionista, vou pagando, duramente, as atitudes do crítico. Mas tenho de conceder: não dependo profissionalmente de ninguém aqui. Escapo, portanto, a chantagens e outras coisas desagradáveis.

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Entrevista completa na edição em papel...

[Fernando Venâncio por João Carlos Santos (Expresso)]

Fotografia:
JOÃO CARLOS SANTOS (Expresso)

«Existe, na cultura portuguesa das últimas décadas, uma falta de frontalidade autenticamente descarada.»