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Os canhões de Navarone |
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Smell TVTexto de Rui Ângelo AraújoNão houve grande proveito em reunir uma comissão de sábios para repensar a televisão do Estado. As talentosas personalidades escolhidas para o exercício penaram para arranjar consensos. A escassa doutrina conseguida será estimadamente ignorada pelo governo — ajudado pela distracção militante do share que o elegeu. Creio que nem com a minha ajuda a comissão poderia ter feito melhor serviço. (Não ma pediram, nunca se terá a certeza.) Mas há outra gente emérita que não desiste de conceber o melhor para o pequeno écran nacional. Num tasco aqui perto encontrei uma outra comissão — esta constituída exclusivamente por intelectuais de esquerda — que me pôs a par da desejada nouvelle télévision. A nouvelle télévision, dizem os meus amigos da comissão ad hoc, será uma forma de acabar com a desvergonha do audiovisual português. Como se sabe, as estações de televisão lusas levam a cabo uma alegre descida aos infernos da boçalidade. E, a bem da dignidade intelectual do país, há que travar o descalabro, há que afastar os cidadãos do televisor. A teoria que me apresentaram preconiza que isso acontecerá quando os aparelhos domésticos de TV emitirem cheiros juntamente com as imagens e o som. Os meus amigos deram exemplos. Presumivelmente, o cidadão recuará de mão no nariz sempre que, no final dos jogos de futebol, os atletas ignorarem os chuveiros para virem às câmaras expor as suas complexas análises, as suas ponderadas conclusões — e o seu fragrante suor. Do mesmo modo, o público, que habitualmente não foge dos elaborados pensamentos das sras. Bobone, Jardim e Caneças, há-de o fazer, com toda a certeza, se tiver que lhes inalar o hálito. A Smell TV, dizem os teóricos da coisa, clarificará o cenário. Sempre que se verificar ser um programa uma perfeita merda, toda a gente poderá cheirar compenetradamente a verdade da afirmação. Não mais haverá dúvidas sobre a bondade das grelhas, nem questiúnculas sobre a qualidade dos gostos. A verdade virá sempre a cima. Às narinas. Ao entrar numa sala com a televisão ligada, o contribuinte nem precisará de olhar o écran — pela aragem saberá o esterco que passa. E poderá, aliviadamente, mudar-se para a biblioteca, para o bom do Lobo Antunes. Os resistentes, os viciados na TVI e no Big Brother, ou no Masterplan e na SIC, não encontrarão forma de esconder a depravação, a baixeza do gosto, as longas exposições ao telelixo. As suas vestes serão impregnadas pelos habituais programas aromáticos das TVs. [...] Artigo completo na edição em papel... |
Ilustração: «Ao entrar numa sala com a televisão ligada, o contribuinte nem precisará de olhar o écran — pela aragem saberá o esterco que passa.» |