Desordem – 4 poemas
Poemas de José Miguel Silva
Casa pombo-correio
Hey Joe, where are you going with that knife?
Nick Cave & The Bad Seeds
Para o Evandro Oliveira
Trabalhei durante meses numa casa de sementes,
um posto escurecido pelo fumo dos escapes
onde a luz não chegava e as sementes choravam
pelos campos de Sião. Sementes de ervilhaca,
de cenoura e girassol, sementes de colza,
milho miúdo. Deste nada abastecíamos um bairro
de neuróticos vagantes, entre lajes de cimento
e construções ao deus-dará, com gaiolas
enforcadas na janela para melros, pintassilgos
e canários. Todos prisioneiros uns dos outros.
Era triste de ver, tantos mortos por tabela,
dedicados ao futuro, tantos sacos de ração
para animal desalojado. E das terras de Sião,
já ninguém sabia nada.
Part-time
Fifteen minutes with you I wouldn't say no.
The Smiths
Durante muitos anos trabalhei em part-time
na Livraria Bakunine, ao Carregal.
Não foram os anos mais felizes da minha vida,
pois o amor, o ranço, a solidão, a verdade
é que ficava muitas horas encostado à montra
a ver se tu entravas perguntando se eu tinha
segredos, sebes, aluviões ou a ignorância
da morte. Dir-te-ia que sim. Mas tu,
Gata Borralheira, só querias saber de astrologia,
de puericultura, de pronto a vestir para o outono
da alma. Raios te partam, rapariga,
como podia eu amar-te, tão estúpida eras.
Não conta nada
Last night I told a stranger all about you.
Morphine
Ontem à noite tentei contar
a um estranho tudo o que sabia
acerca de ti, e não sabia nada.
Talvez o amor seja mau psicólogo,
talvez nos embruteça a inteligência.
Quem tem uma vida pode contá-la,
mas quem ficou preso numa rede
de sentimentos adversos, quem
se debate no interior de um soneto
de onze varas, só pensa em acordar
num corpo distante, tem lá tempo
para usar a cabeça. Vai pela névoa
de coração vendado, na boca palavras
que não proferiu, leva para casa
tudo o que lhe dizem, por que será.
Os melhores anos da minha vida
A person isn't safe anywhere these days.
The Chameleons
Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.
Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.
Os melhores anos da minha vida troquei-os
por isto.
Rubrica completa na edição em papel...
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