Blues for Mary Jane (1)
Poemas de Manuel de Freitas
Segunda classe
Estávamos os dois no comboio
para Tomar, mais precisamente
no gueto trepidante dos fumadores,
quando ele me pediu o isqueiro
"só p'ra fazer um charro" e eu lho dei.
Gastou-o nisso, quis-mo pagar, declinei
(tinha aliás outro, de um mais fraco azul).
Algumas estações à frente, voltou
a precisar do lume que garantisse
um pouco mais de esquecimento.
Fumámos juntos, falando sobre o tempo
e outras derrotas banais. A surpresa maior,
porém, foi quando me disse a vontade
de ler que a "moca" por hábito lhe trazia.
Que só tinha livros estranhos, ripostei,
mas qualquer (afiançou) serviria ao seu desejo.
Emprestei-lhe o menos bizarro –que era
meu, de poemas– disfarçando mal o embaraço.
Leu uma dúzia de páginas (a minha estação
estava próxima), cabeceando às vezes
e passando as folhas com dificuldade.
Outras obras, percebia-se, requeriam
os seus dedos largos e fabris.
"Tem poemas fixes", foi o seu único
comentário, talvez o que de todos prefiro,
tão distante do esterco dos jornais.
A verdade, apeteceu-me dizer, é que
os comboios e a teoria da literatura
nunca levaram a lado nenhum. Em vez disso,
agradeci o charro, deixei-lhe o isqueiro
e nem sequer menti ao desejar-lhe "Bom Natal".
Requiem para uma jukebox
Pensavas tu, errando o título.
O Manel do Estádio informa-te
de que a máquina foi só a arranjar
e vem depois das férias da Páscoa,
para semear de tristeza ou escárnio
os mesmos fados. Ainda bem.
Na mesa em frente, duas putas
antigas têm a razão suprema
de confundir Fernando Pessoa
com Fernando Pessa. O que
morreu cedo, aqui perto, e é agora
"grande" nas bocas que não o
leram nem amaram. Ao outro,
pelo contrário, parece faltar
qualquer vocação para a morte.
Mas eis que entra o Rui de Castro,
com o seu inescapável bagaço
e a consequente voz acanalhada.
Vai mudar a hora, é sexta-feira
de Paixão. E se estamos aqui
sentados é apenas para que o tempo
passe, não doam tanto as certezas
–que é como quem diz a morte.
Da televisão, espreita-nos a vida
em technicolor do crucificado.
Eu sou o pão que escurece,
o cordeiro do infortúnio –diria
um qualquer desses émulos de Celan
que só chegam ao cair da noite
e não gostam de Cesário.
Mas a melhor poesia portuguesa
está agora sentada neste café
e não se chama Manuel de Freitas
nem deixará como ele inúteis vestígios
de paixão, pedacinhos de ócio,
o milagre incerto da multiplicação da morte.
o milagre incerto da multiplicação da morte.
Rubrica completa na edição em papel...
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