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Júlio VanzelerTexto de Maria Filomena e Fernando Gouveia | Fotografias de Fernando Gouveia | Ilustrações de Júlio VanzelerO encontro estava marcado para as seis da tarde, mas imprevistos vários e conveniências diversas ditaram que entrássemos na casa de Júlio Vanzeler à meia-noite. Júlio Vanzeler? O nome não dirá muito a muita gente, mas o seu trabalho já passou certamente, e por diversas vezes, por esses olhos que agora não reconhecem o nome. Podemos (ou pudemos) encontrá-lo nas páginas e capas da Ozono ou do Notícias Magazine, da Máxima ou da Hei! Para tal, basta(va) rodar a cabeça noventa graus e procurar as letras miudinhas dos créditos das ilustrações. Outros sítios menos propensos a torcicolos são alguns livros infantis e a selecção anual da Ilustração Portuguesa, ou ainda, espalhados pelos tapumes das eternas obras do Porto, nos cartazes do Teatro de Marionetas. Vão lá procurar... Já está? Se sim, já terão por esta altura percebido por que, na opinião dos que compõem a Redacção da Periférica, Júlio Vanzeler é considerado um dos três melhores ilustradores portugueses (os outros dois revelá-los-emos quando os entrevistarmos...). Se, apesar das dicas, não encontraram nada do que este ilustrador tem feito, então aproveitem e dêem uma vista de olhos às ilustrações que acompanham o texto destas páginas. Mas leiam o texto — é que não se falou apenas de ilustração.
A princípio, o seu meio de eleição era a aguarela. A ilustração por meios digitais surgiu mais tarde, em resposta às necessidades específicas de um dos seus clientes regulares, uma empresa alemã de surf e street ware, cujo estilo pretendido, «muito graffiti», obrigava ao uso do computador. Júlio Vanzeler experimentou, procurou, perseverou, e acabou por encontrar a sua própria linguagem. Hoje muitos dos seus trabalhos são feitos desta forma, apenas recorrendo a esquissos muito rápidos, que digitaliza e "pinta" por cima com o Photoshop, nos casos em que a composição pretendida é mais complexa. Apesar de não usar os meios plásticos tradicionais, as suas ilustrações não perdem personalidade, não se tornam "computorizadas", como se poderia ser levado a crer — o meio digital abre-lhe possibilidades, não as restringe: «Muitas vezes faço texturas em acrílico ou aguarelas ou lápis de cor, digitalizo-as e depois aplico-as, digitalizadas, nas ilustrações.» O resultado é uma multiplicidade de efeitos que ora remetem para o sfumatto do óleo, ora para as linhas claras do airbrush, ora ainda para uma quase-dimensionalidade de porcelana ou uma diafanidade de aguarela, e que de alguma forma criam uma empatia com quem vê, a que não será estranha uma sensação miudinha de que "algo" de diferente subjaz à imagem. O estilo e traço específicos podem variar, bem como a temática e o público-alvo do produto final, mas raramente surgem dúvidas de que estamos perante algo "100% Vanzeler": uma certa atmosfera perpassa as suas ilustrações. Aspectos estéticos à parte, Júlio Vanzeler admite existirem algumas reticências por parte dos mais puristas em aceitar o trabalho feito em computador: «Porque não é a mesma coisa, porque não é um material nobre, porque não é o óleo...» são alguns dos "argumentos" apresentados. «Agora já nem tanto,» concede, «mas continua a acontecer.» [...] Perfil completo na edição em papel... |
Ilustração: «Não ouso ter a veleidade de tentar ensinar mais ninguém, mas se o meu trabalho é público, creio que tenho a obrigação ética de tentar fazer o melhor que sei. Também aí tenho dúvidas, mas não deixo de tentar. Isto é, no fim de tudo, a minha responsabilidade.» |