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Missão Impossível

O Navio de Espelhos

crónica de uma livraria anunciada

Texto de Rui A. Araújo e Carlos Chaves | Fotografias de Rui A. Araújo

O Navio de Espelhos ainda não cavalga. Mas há-de fazê-lo em breve. À beirinha do Canal de S. Roque, em Aveiro, no rés-do-chão e na cave de um edifício reconstruído com gosto, há-de abrir a mais prometedora das livrarias da cidade. Esta é, portanto, a crónica de uma livraria anunciada.

O navio de espelhos / não navega, cavalga [...] Seus dez mil capitães / têm o mesmo rosto // A mesma cinta escura / o mesmo grau e posto // Quando um se revolta / há dez mil insurrectos [...] E quando um deles ala / o corpo sobre os mastros / e escruta o mar do fundo // Toda a nave cavalga / (como no espaço os astros) // Do princípio do mundo / até ao fim do mundo

Mário Cesariny
A Cidade Queimada, o navio de espelhos XIII

O leitor perguntar-se-á que raio de tolice é esta de escrever sobre o que ainda não é. O jornalismo agora passou a futurismo? Não, este não é o momento de astrologia da revista. Não contratámos a Maya nem ressuscitámos o Professor Zandinga. Aconteceu recebermos uma carta misteriosa. E, como nos melhores policiais, fomos investigar.

No envelope lia-se «Requisição de cumplicidade», e o remetente era «O Navio de Espelhos». Seria que embatêramos de frente no surrealismo de Cesariny? O navio, que o poeta pusera a cavalgar, dera agora em praticante de epistolografia? Os dez mil capitães insurrectos precisavam de cúmplices? Delirávamos. A realidade ainda não tinha prefixo. Mas era igualmente poética. A carta narrava, numa prosa murmurada e doce, o processo de criação de uma livraria em Aveiro. Mais: requeria aos destinatários participação na construção do espaço. O programa estava exposto e era apaixonado. Apaixonante. Dois jovens «remadores aportados neste cais de sal» sentiam «a urgência de imprimir a palavra ler na combustão dos minutos». Não tanto por eles, que já eram «leitores compulsivos». A ideia era conseguir para a cidade «um espaço onde a fruição do livro seja possível (e provável) e em que se possa viajar por mundos reais ou imaginários». Nada de meros «expositores de lombadas, onde a espuma da edição é a voz que ordena, e o livreiro se deixa levar pela maré vigente».

Fomos seduzidos. Os livros, como se sabe, não são hoje coisa que muito prestigie quem os usa. Enunciar assim às claras um projecto em volta de livros, confessar o desejo de construir uma livraria na «fiel linha lunática, tradição suicida e corrente d' ar estética da Literatura», faz disparar um alerta em qualquer ser sensível. Ainda a campainha retinia e já sentíamos o dever de agir, de ser cúmplices. É que isto dos livros, meus caros, exige dedicação, persistência e redes de cooperantes. De contrário, a última onda engole-nos.

[...]

Reportagem completa na edição em papel...

[A futura livraria 'O Navio de Espelhos' de dentro para fora]