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Pulp Fiction |
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RectaConto de Nuno Camarinhas(Banda sonora sugerida: Anamorphose, Stereolab; Struggle for Pleasure, Wim Mertens; Winter, The Fall.) Tudo dependia da precisão daquele movimento rápido. Da precisão e da força aplicada no local certo. Disso resultaria a forma desejada, idealizada a partir das lacunas observadas. Era um processo gradual. Sabia-se que determinada pedra com determinada configuração encaixaria num dado espaço aberto, mas as exigências que esse preenchimento traria só a seguir seriam analisadas. Henrique meditava nisto enquanto observava, cabisbaixo, a regularidade dos desenhos na calçada da Rua da Prata. Gostava da planura daquela extensa recta e do traço contínuo em calcário azul escuro que a percorria. Caminhava agora sobre ele e prometia a si mesmo que nunca dele se desviaria. Sairia dele só porque ele chegasse ao seu fim. Enquanto houvesse traço, Henrique percorrê-lo-ia. Ensaiava, por isso, duelos imaginários com outros transeuntes que se deslocavam no sentido inverso, pelo mesmo caminho. Imaginava o que iria nas suas mentes, se seriam impelidos pela mesma convicção. Mal via a sua forma começar a desenhar-se ao longe, espécie de prolongamento vertical do traço, seguindo aquele caminho em direcção a si, olhava-os fixamente e apostava em como não seria ele a desviar-se. A convicção posta no olhar devia ser de tal forma evidente que ele nunca saíra derrotado. O seu palmarés levava-o a convencer-se de que aquele longo traço azul escuro fora traçado para si. Até um dia. Foi em Maio, num dia em que chovia pela primeira vez depois de meses. Henrique caminhava apressado, desconfortável com o peso da mala e a humidade da sua gabardina. Olhava os sapatos e repreendia-se a si mesmo pelo facto de ter sempre as pernas das calças sujas de lama. Invejava os seus amigos que andavam sempre impecáveis porque achava que essa imagem estaria mais de acordo com a sua personalidade. Sempre andara tão embrenhado na sua recta, no seu trajecto, que nunca reparara na quantidade de alternativas que aquela rua oferecia. Saiu da grande praça e entrou pela rua. Olhou rapidamente para a sua recta e encontrou-a desimpedida. Era a primeira vez que isso acontecia. Sem a possibilidade de um duelo, reparou como havia pessoas que tinham escolhido outros caminhos. Havia quem caminhasse por uma recta traçada a par da sua, duas rectas que nunca se tocavam, duelos para sempre adiados. Outros havia que escolheram o branco como o seu caminho, numa dualidade que lhe lembrou um jogo de xadrez. Reparou finalmente num movimento curioso à sua frente, à esquerda. Um vulto feminino cujo caminho alternava de direcção a cada passada. O seu trajecto desenhava como que o contorno de T's, direitos e invertidos, eternamente entrelaçados. O avanço fazia-se de constantes retrocessos. Um passo em frente era seguido por uma para o lado, outro para trás, novo passo para o outro lado e dois para a frente. Abrandou o passo para observá-la mais demoradamente. Achou-a bonita. Achou a sua compenetração bonita. Achou a sua ausência de direcção bonita. Caminhava agora muito lentamente, deixando-a passar sucessivamente. Cada passo dos seus equivalia a quatro dos dela. Ela reparou na sua presença. Evitou o seu olhar primeiro; depois perguntou-lhe: «Por que não continuas a andar?» Ele respondeu: «Porque quero continuar a ver-te.» Ela serpenteou mais um pouco. A rua fervilhava à sua volta. O caminho que encarara até ali como um
resquício de ordem na confusão da cidade, parecia-lhe, agora, apenas mais um... e nem era o mais interessante. Ali
estava ela, concentrada num caminho que era tudo menos o mais óbvio. «Vem,» disse-lhe ela, «ainda
não viste nada.» Henrique colocou o pé esquerdo fora da sua recta. Deu-lhe a mão. Experimentou de tudo:
outras rectas, os complexos desenhos entrelaçados do Rossio, as cornucópias da Avenida da Liberdade, os ziguezagues
da Avenida da República, os traços contínuos das grandes avenidas, os tracejados... Quando o dia terminou
achou-se esgotado... As calças enlameadas de uma lama nova rasgaram-lhe um sorriso. Não sabia como ela se chamava
mas achava que a voltaria ver um dia. No último percurso que fizeram juntos ela dissera: «As rectas mantêm-nos
isolados... abandona-as.»
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«Ela serpenteou mais um pouco. A rua fervilhava à sua volta. O caminho que encarara até ali como um resquício de ordem na confusão da cidade, parecia-lhe, agora, apenas mais um... e nem era o mais interessante. Ali estava ela, concentrada num caminho que era tudo menos o mais óbvio.» |