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LenhadorConto de Vítor NogueiraNão penso muito nisso, coisa que, para ser franco, facilita bastante a minha vida. Mas a porra toda é mesmo quando penso. De qualquer modo, foi no último Outono. Tornei-me lenhador num Outono como os outros, quando as árvores agonizam. Ora, a eutanásia é um processo que admito, em circunstâncias extremas como aquelas: as folhas tombando em coro na montanha, como gritos caindo-me nos ombros. Passei todo o Inverno a cortar lenha, pondo fim ao que julgava uma agonia. E só agora, entretanto chegada a Primavera, de súbito me aparece atravessada uma fronteira muito fina, que vai da eutanásia ao homicídio. As folhas já não tombam em coro na montanha, mas a montanha cada vez esconde mais vozes: «Cuidado com os ramos. Despacha-te, despacha-te com isso. As árvores têm estado à espera o dia todo. Que estranho parentesco liga desde sempre os peregrinos! Quem dera ver pintado o teu nome no casco de um navio!» Não penso muito nisso, já o disse, mas a porra toda é mesmo quando penso. Ainda hoje, por exemplo, estava a cortar pelo tronco um amieiro. De repente, dei comigo fugindo antes que ele viesse atrás de mim. Correndo pela encosta, protegi-me dos ataques solidários que pudessem chegar das outras árvores da manada. Correndo pela encosta, uma vez mais fui perseguido pelas vozes, como se as do coro de uma tragédia grega: «Cuidado com os ramos. Despacha-te, despacha-te com isso. As árvores têm estado à espera o dia todo. Que estranho parentesco liga desde sempre os peregrinos! Quem dera ver pintado o teu nome no casco de um navio!» Em certas ocasiões a floresta é toda ela uma emboscada. Felizmente, consegui chegar a casa. Pois aqui estou, encostado ainda à porta, à espera do meu fôlego, que não costuma tardar nestes momentos, não sei se também ele fugindo do amieiro mutilado, não sei se simplesmente correndo em meu socorro. Ele aí está. Respiro fundo. Não penso muito nisso, já o disse, mas a porra toda é mesmo quando penso. A pequena casa onde vivo, de madeira, cativou-me no primeiro momento em que a vi, adjectivada pelo riacho recortado na montanha. E ao olhá-la senti a agradável presença de um cliché, daqueles que guardo na retina desde a infância, quando em Janeiro o meu pai trazia porta adentro as mais belas imagens que há no mundo, desenrolando calendários de parede. É assim por fora a minha casa. Mas por dentro... Bem, um sujeito como eu não devia viver só. Tornou-se um pandemónio, por dentro, a minha casa. Há
alturas em que de facto não percebo por que mudam os estados de espírito. A paciência é uma virtude
que em tempos se me escapou por entre os dedos, de tal modo que chego a abrir caminho à machadada. Sou lenhador, portanto,
e ultimamente é assim que abro caminho. A princípio pareceu-me adequado fazer isso. Ajudava-me a encontrar as
coisas nos armários. Hoje tenho sérias dúvidas a respeito do processo. Até porque um sujeito como eu
não devia estar sozinho, levando a sério o que disse o psiquiatra que consultei justamente no último Outono.
Não penso muito nisso, já o disse, mas a porra toda é mesmo quando penso.
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«A pequena casa onde vivo, de madeira, cativou-me no primeiro momento em que a vi, adjectivada pelo riacho recortado na montanha.» |