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A Oeste nada de novo

['Ex-presso'?]

De degrau em degrau...

Li no Público de 21/09/2002 que o sr. arquitecto Saraiva pretende acabar com a revista do Expresso. A ideia será integrar parte dos conteúdos noutras secções do jornal. A Revista ver-se-á substituída por um suplemento mais ligeiro, ao estilo do «social» Vidas, do mesmo jornal. O Expresso, imagina-se, pretende ir ao encontro dos leitores.

Curiosamente, a Revista é talvez o suplemento mais lido da imprensa portuguesa. Milhares de leitores compram todo o entulho que o Expresso vende com o único intuito de a ler. A intenção de acabar com ela parece absurda. A não ser que ao Expresso não interessem «estes» cem mil leitores...

A tendência de «aligeiramento» dos conteúdos já o director do jornal a havia confessado em entrevista a Margarida Marante. Se bem me lembro, creio que o sr. arquitecto assumiu mesmo alguma cedência ao sensacionalismo. O que significa isto? Que é inevitável o «apimbalhamento» da coisa impressa? Ou que o sr. Saraiva e companhia não resistem ao canto de sereia das «massas»? Depois de o saber «escritor de romances», não me custa imaginar o arquitecto a fraquejar perante o apelo da «selva» popular. Em vez de se reformar o Expresso (pelo menos desta maneira) não se pode reformar o «grande arquitecto» Saraiva? RAA

...E por falar na Impresa

É comum o elogio ao sr. Emídio Rangel por todo o bem que trouxe à comunicação social portuguesa. Há quem deseje para ele um lugar no panteão nacional. Os mesmos que apoiaram a sua passagem pela RTP. Concedamos: o homem terá feito a TSF e, nos primórdios da SIC, melhorou a informação televisiva. E o resto? A quem se deve o Big Show Sic e o glorioso percurso subsequente? Ao Papa?

Na data em que escrevo, surge a dúvida sobre quem terá recusado o Big Brother. Balsemão? Rangel? Who cares? Emídio Rangel nunca foi um. Entre as crónicas no DN e o apimbalhamento da TV sempre o homem se passeou como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Na RTP, o máximo que conseguiu foi a proeza de, sem rir, chamar debate às peixeiradas abjectas de Gregos e Troianos. Não deixa saudades. RAA

O jornal dos 3 éfes

O JN é evidentemente popularucho. Não se duvida disso. Vive quase exclusivamente dos roubos por esticão e das locais do Porto e províncias adjacentes. É esta a sua vocação. E se por vezes faz uns relatos do que se passa na casa sórdida do Big Brother é porque «não pode fugir ao seu papel de espelho da sociedade que serve e que o justifica». É que a realidade do país, o tal que se reflecte no JN, «é feita não só do fútil, fácil e fictício, mas também desses mesmos escapes sociais», Fernando Martins dixit. O Provedor do JN, depois de nos ter apresentado a sociedade que o jornal «serve» e que o «justifica», assegura-nos que tentar ignorar aquelas três qualidades da pátria é «irrealista» e «até talvez» snob. Não fôssemos nós pensar que era higiénico. RAA

Palavra do Senhor

[Capa do número '1 zero' da 'Palavra em Mutação']

Portugal não há-de perder-se por falta de edições e revistas literárias. A gente distrai-se e, zás, tropeça em mais um autor, em mais uma revista. A maior parte dos autores, graças a Deus, mantém-se num distante anonimato, publicando na paróquia. As revistas costumam terminar cedo. Por profilaxia dos céus.

Tenho nas mãos o número «1 zero» da revista Palavra em Mutação (na hora em que me lêem, se não houve sorte, terá saído o «2 zero»). Leio o editorial e determino: a «revista de outras palavras» não merece existir. Em três páginas de muito e mau texto, é-nos explicado por que não interessa a revista. Indignada com a crueldade e o desinteresse do mundo e agastada com os azares do parto, a Palavra em Mutação não mobiliza — cansa. A revista quer entrar-nos pela casa dentro, não para nos divertir, não para nos distrair, não para nos ilustrar — mas para desabafar. Ao leitor não pede atenção para a literatura inclusa — mendiga-lhe o ombro para chorar as mágoas. A revista começa derrotada. Quando nos vem com promessas de arte e luminosidade já nós apagamos a luz para dormir. O «tom poético» que embrulha a apresentação apenas aviva o burlesco: a Palavra em Mutação parece um jornal de província. A mesma retórica indignada, o mesmo lirismo beato, a mesma dialéctica bafienta. Se tiver sequela, já se está a ver o resultado: revista 3, literatura zero. RAA

Directamente da Tailândia

De repente acordei. Tinha adormecido quando passava no ecrã a imagem de um ministro da presidência com cara de boxeur. Agora tinha à frente dos olhos um daqueles programas que contam piadas com barba à Rasputine. Permanecia num estado de torpor semi-lúcido próprio de todo o despertar em local estranho. Talvez por isso, a fala da personagem — proprietário de uma inenarrável loja de vende-tudo, com palavreado para vender a um esquimó dez pares de sandálias — parecia muito distante. Lembrei-me vagamente do ministro, que me parecera esmurrar um saco de areia enquanto falava de uma lei qualquer para regular a têvê. O lojista procurava impingir, a um cliente provido de um ridículo chapéu enfeitado com uma pena, um televisor capaz de captar, "com a melhor qualidade estereofónica", um único canal. Alguém por ali disse que uma das duas coisas — o projecto do governo ou o aparelho de antiquário — havia sido importada "directamente da Tailândia". Mas na situação semi-catatónica em que estava não consegui reter qual delas. RB

Eles imberbes, elas também

Em alguns dos comentários amabilíssimos que sobre esta revista apareceram na imprensa escrita, insistia-se no facto de ela ser concebida e aparafusada por gente jovem. O que, fica claro, logo a tornava particularmente meritória. Foi bom saber tal coisa, apesar de dirigentes e atletas terem quase todos, imagine-se, mais de trinta. Alguns a rondar os quarenta. Um quase cinquenta (o cota não me deixa dizer quem é). Outros ainda um pouco mais ou menos. Mas não foi possível captar logo que coisa havia aqui para nos fotografarem assim, tão precoces e favorecidos. Como imaturos imberbes, com a pica toda e a querer dar nas vistas. Seriam as nossas ideias deploravelmente instáveis e vagamente nubladas? A conversa um bocado mole sem um registo córneo e viril? A mancha gráfica supercalifragile e uma inocultável petulância de origem irrecusavelmente provinciana? A triste situação, com um odor vagamente romântico a águas-furtadas, de óbvia falta de grana? A suspeita, que infelizmente se confirma, de não possuirmos um edifício-sede com sofás de cabedal cor de vinho? Um dia destes, quando formos todos velhinhos, teremos as respostas. Podem crer. RB

Estatística

E aqui estou, uma vez mais, sem coragem para arrancar o corpo a esta poltrona, passeando o olhar pelas paredes arrumadas desta sala, cada coisa em seu lugar, os objectos dispostos ao milímetro.

Há certas alturas em que um tipo devia ser obrigado a sair de casa. Mas não saio. Teimo preguiçosamente. Teimo sem dar conta que teimo. Esqueço-me do mundo, dos pássaros, das nuvens, da brisa, das carcaças de frigoríficos que empestam florestas, das aldeias destruídas por um gosto de merda que entretanto se democratizou. De resto, não é a primeira vez que as ditaduras chegam ao poder por via democrática.

Não saio. Não saio porque estão horríveis os campos, as aldeias, as cidades. Mesmo assim, há certas alturas em que um tipo devia ser obrigado a sair de casa. A apanhar o sol na cara, a queixar-se do vento e do cieiro, a mandar as carcaças de frigoríficos para a puta que as pariu. A dizer palavrões, aos berros, de maneira a assustar os pássaros. Porque os pássaros de agora fazem ninhos onde calha. Procuram comida entre amontoados de pneus, brinquedos mutilados e sacos de plástico. Passeiam pelas lixeiras, como se gostassem. Ou então acreditam na estatística. Que este moderno Portugal já não tem lixeiras, tem aterros sanitários. VN


Rui Ângelo Araújo, Rui Bebiano, Vítor Nogueira.