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Tempos modernos

O homem moderno não teme resfriados

Texto de Vítor Nogueira

Começo por lhe pedir desculpa, não estranhe o meu comportamento. Em especial nos dias frios, abordo assim várias pessoas, mas acredite que o faço com a melhor das intenções. Sinto-me aquilo a que se chama um homem quente, todavia correctíssimo e incapaz de faltar ao respeito a uma senhora. O certo é que, apesar da prática que venho acumulando, nestas alturas fico muito nervoso. E quando estou nervoso faço muitas perguntas, talvez à espera de uma combinação específica de palavras que continuo incapaz de antecipar. Contudo, não se preocupe, estou preparado para qualquer resposta, e ela não me afectará. Mas preciso de saber. Sabe como é.

Tudo começou há três invernos, quando experimentei as malhas higiénicas do Doutor Rasurel, compradas no 195 da Rua Augusta. Em abono da verdade, digo-lhe que nesse tempo eu não passava de um rapaz debilitado: gripes, constipações, reumatismo, achaques sucessivos que envergonhadamente me empurravam para dentro de mim mesmo. Enfim, nada disto que agora vê à sua frente. Ora bem, de então para cá a minha vida mudou radicalmente. Quer dizer, continuo sem descobrir a primeira namorada, mas sinto-me de tal maneira quente que em cada rosto com que me cruzo adivinho uma alma gémea. Sem dúvida por capricho do destino, não encontrei ainda uma interlocutora à minha altura. Não desfazendo. Mas as pessoas raramente me dão espaço para falar. Outras vezes, se me dão espaço para falar, não correspondem: deixam-me a falar, sem dar ouvidos. De maneira que quase sempre interrompo o meu discurso algumas frases após ter começado.

Gostaria também de esclarecer (e agradeço-lhe por continuar a ouvir pacientemente) que não pretendo contar-lhe a minha vida, ou procurar saber a sua. Se há coisa que de facto me incomoda é a história duma vida contada na primeira pessoa à primeira pessoa que aparece. Serve isto para dizer que também dou com pessoas demasiadamente faladoras. Nesses casos, mal percebo a trapalhada em que me meto, sou eu próprio quem termina com a conversa, exactamente no momento em que uma conversa de circunstância se transforma numa improvisada consulta de psicanálise. Resumindo: sem que me passe pela cabeça desistir, reconheço não ser fácil encontrar o equilíbrio, no fundo aquilo a que chamei uma alma gémea.

É como lhe digo. Tudo começou há três invernos, quando experimentei as malhas higiénicas do Doutor Rasurel, compradas no 195 da Rua Augusta. E aqui estou eu, homem moderno que não teme resfriados. Saio de casa, confiante, quaisquer que sejam as condições meteorológicas. A propósito, se um dia a convidar para sair, gostaria que aceitasse. Então? É aqui a sua deixa. Talvez fosse boa altura para mostrar o seu sorriso e dizer alguma coisa. Não responde? Nem sequer olha para mim? Ora, por que não responde? Não me ouve? Pensei que começávamos a ser amigos. E os amigos ouvem-se uns aos outros. Bom, sendo assim, acho que chegou o momento de darmos um aperto de mãos, em jeito de despedida. Espero que me conceda um simples cumprimento, e por favor não o faça apenas para se ver livre de mim. De resto, e por assim dizer, foi o destino que nos aproximou. Passeamos na mesma rua, como vê. Só é pena caminharmos em sentidos antagónicos.

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