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Os canhões de Navarone |
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Em defesa de uma revolução socialTexto de Rui Ângelo AraújoEis o que mais me irrita: o acriticismo em relação ao povo. À esquerda e à direita, o povo é única entidade intocável. Nem Deus nem Marx, nem Maurras nem Rousseau, nem o Hino Nacional nem o Livro Vermelho de Mao, nem Agustina nem Saramago, nada é mais protegido de um juízo do que o bom do povo. À esquerda, tudo o que querem fazer é a favor do inocente povo. Mesmo quando lhe fazem mal, é por um desejo consciente de lhe zelar pelo bem-estar. À direita, o amor ao liberalismo e ao mercado coloca o povo e as suas escolhas acima de qualquer juízo. O povo prefere chafurdar na merda? É um direito inalienável. Desde logo é preciso notar que o povo, na versão dual de pureza rude e inocente boçalidade, já não existe. Com o fim do mundo rural e a extinção do proletariado, o único povo que resta é uma classe média de largo espectro. Com vários níveis económicos, mas com um comportamento standard. Uma enorme classe média que deixa pouco espaço a qualquer outra classe, mesmo aquela que se refere ao "estilo". Do povo antigo, esta classe média rejeitou a pureza e herdou, inelutavelmente, a boçalidade. A esquerda e a direita têm concepções diferentes do que é melhor para a sociedade. Coisa óbvia. Historicamente, digladiam-se, procurando cada um dos sistemas fazer vingar a sua opinião. Acontece que, nesta luta universal, os paladinos dos dois lados foram-se distraindo do verdadeiro objectivo que os devia ocupar e têm vindo a perder-se em jogos florais para ver quem mais e melhor insulta o adversário. Aproveitando esta brecha no caminho, o povo (ou a classe média) foi fazendo pela vidinha e tomando as opções que achava que melhor lhe convinham. Sem as referências, sem as directrizes, e, por que não dizê-lo, sem as imposições que lhe deviam chegar do crivo da luta ideológica, o apolítico e indolente povo, não tomou, obviamente, as melhores opções. Foi assim que surgiram os Big Brothers, as Margaridas Rebelo Pinto, os Paulos Coelho, os Joões Pedro Pais, o Jet Set, a Caras, o Herman, o buraco do ozono, o Algarve, o Guterres e o Sampaio, o Durão, certa música e toda uma lista interminável de coisas e pessoas que traduzem um só estado de espírito: o PIMBA (Povo Imbariabelmente Amado). Certos pensadores mais relaxados, que habitam ilhas escarpadas, castelos com fosso e crocodilos, condomínios fechados com milícia privada, ou paraísos afins, lançam um olhar indulgente à manada e acenam a sua aprovação ao estado das coisas. Os problemas sobram para nós, aqueles que por injustiça do destino têm que passar os dias no meio da turba. [...] Artigo completo na edição em papel... |
Ilustração: «Certos pensadores mais relaxados, que habitam ilhas escarpadas, castelos com fosso e crocodilos, condomínios fechados com milícia privada, ou paraísos afins, lançam um olhar indulgente à manada e acenam a sua aprovação ao estado das coisas.» |