Seria uma espécie de barco pernoitando no cais
Poema de Eugénio Branco
Foram poucas as vezes que nessa noite quebrámos
o silêncio do rio que percorríamos, quando começámos
a sentir-nos estranhamente deuses. Talvez por causa do amplexo
do nevoeiro contra os nossos rostos, disseste tu no dia seguinte
quando acordei como se ainda fosse noite. No espaço do teu corpo
a luz começava novamente o dia, brandindo ainda o mesmo azul
do oceano, que permanecia flutuante em todos os ângulos do teu olhar.
Recolho da memória o sítio em que suspendemos
a existência do universo: era o encontro possível das nossas mãos
pelos corpos; a proximidade do respirar dilatava a exultação
do momento, quando disseste o verso: coroai-me em verdade de rosas.
Lembro-me ainda de como ficámos imóveis pela noite, flutuando
com um rebanho de sensações que tornavam a ausência
um espaço completamente vazio. Depois, dos teus braços,
o olor da sagração percorria lentamente a terra, como sussurros
de deuses que nos permitiam o segredo de habitar a existência.
Agora, sentado, com o mesmo movimento
envelhecido pelo tempo, recordo o sabor a maresia que se condensou no teu rosto.
E parece já tudo uma amálgama de sonhos longínquos, ainda
reverberando na cinematografia frágil da memória. Continuam os dias
dançando o mesmo movimento sobre o eixo do mundo. Está ainda o teu corpo
delineado na areia... Com o silêncio dos nossos lábios quietos
poderíamos ainda dizer tantos versos. De Ricardo Reis
oiço a geometria pendular dos passos que se aproximam
lentamente. O azul da água desloca-se
em direcção ao velho, pescador
nas horas vagas. Apetece-me
partir... para onde
exista um pouco de mar.
Abandono agora o rio.
Mais tarde, farei o mesmo com o cais,
e quando o fizer lembrar-me-ei novamente
do barco. Nesse em que nunca chegámos a entrar,
embora tivesse permanecido durante alguns dias no cais.
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