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João Pereira Coutinho

Entrevista de Rui A. Araújo, Carlos Chaves e F. Gouveia

João Pereira Coutinho é cronista d' O Independente e da masculina Super Maxim. Tal não seria motivo suficiente para uma entrevista, mas os textos do "rapaz" (afinal de contas são só vinte e seis anos!) têm características que os destacam na imprensa nacional.

A um discurso frontal e provocante alia um excelente domínio da língua, um estilo invejável, uma prosa culta mas límpida, sem rebuscados nem vã retórica. Isto não é receita de sucesso popular, mas resulta em puro prazer intelectual. Claro, para quem esteja disposto a desafios e saiba crescer com ideias por vezes irritantemente contrárias.

O pensamento de Pereira Coutinho é, claramente, conservador. No entanto, o colunista aqui e ali distancia-se da "cassete" a que tais paragens do pensamento não raro recorrem. O estilo pode estar na vizinhança do de Vasco Pulido Valente - mas que o esteja, daí só pode vir bem ao mundo.

Na Periférica acreditamos no confronto de ideias (ou não houvesse aqui na redacção de tudo, política e esteticamente). A leitura de João Pereira Coutinho serve esse confronto em doses elevadas. Esta entrevista é um convite para que o leitor perca preconceitos (aqueles que os têm) e compre O Independente (temos comissão...). São garantidas irritações em abundância (antes isso que a boa vizinhança do pântano), mas depois vem a dependência e o deleite.

Ah, João Pereira Coutinho publicou um livro (Jaime e Outros Bichos, Difel, Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1996); foi pianista de jazz em bares e hotéis; está a pensar reunir em livro grande parte dos seus artigos d' O Independente; e está a trabalhar num livro de filosofia política que provavelmente vai sair no próximo ano.

Não queremos entrar-lhe na vida íntima, mas alguma coisa teremos de saber de si...

Se eu uso roupa interior feminina...

Que formação tem e coisas afins.

[Súbita mudança de tom e de semblante] Tenho vinte seis anos, sou licenciado em História. Iniciei um doutoramento em História Clássica na Universidade de Cambridge em Inglaterra e depois vim embora, porque, de acordo com o professor que me estava a orientar, o meu latim era razoável, mas o meu grego era uma miséria. Regressei a Portugal, neste momento estou a fazer o doutoramento em Ciência Política e sou investigador no Instituto de Estudos Políticos na Universidade Católica em Lisboa. Para além disso, sou jornalista.

Onde?

Eu comecei por ser jornalista aos dezasseis anos num pequeno jornal, o Jornal de Matosinhos. Depois comecei a escrever opinião, a fazer reportagens, a fazer entrevistas... Aos dezanove anos tive problemas com o tribunal. Apanhei dois processos por abuso de liberdade de imprensa. Perdi o primeiro processo, fui condenado. (Sou cadastrado...) Depois apanhei o segundo processo por um artigo que escrevi a reafirmar tudo aquilo que tinha escrito no primeiro. Mas o segundo acabou por ser arquivado.

Qual era o assunto dos artigos?

Era um tema de questão local, política. Era um insulto. Fui muito bem condenado.

E reincidiu no insulto...

E reincidi. Levei outro processo e devia ter sido condenado.

O que prova que a Justiça não funciona bem em Portugal...

Mas eu acho que estas coisas se haviam de decidir ao duelo. Devia-se marcar uma hora, no adro da igreja... pistolas...

Quem era a vítima do insulto?

Era um vereador da Câmara Municipal de Matosinhos que actualmente é ou o presidente ou o vice-presidente do PS-Porto, o Dr. Manuel Seabra. Não sei se posso dizer isto, ainda levo outro processo, mas eu chamei-lhe "carraça". Ele não gostou do termo e meteu-me em tribunal. Foi a tribunal dizer que não era uma "carraça".

E o insulto tinha razão de ser?

Não tinha razão de ser. Eu na altura é que estava um pouco deprimido...

Nunca mais teve nenhum processo?

Não. Eu bem me esforço...

Talvez ainda não concedam a devida importância aos seus textos.

Não sei. Mas também acho que estou a amaciar.

Mas entretanto lá teve a polémica com o Eduardo Prado Coelho.

Ah, sim. No fundo eu e o Eduardo até gostamos muito um do outro. Acho que há aqui uma paixão subterrânea, há uma pulsão homossexual nesta nossa relação de amor e ódio... Portanto, não é grave. Enfim, os amantes têm estes momentos...

[...]

Entrevista completa na edição em papel...

[João Pereira Coutinho por Rui Ângelo Araújo]

Fotografia:
RUI ÂNGELO ARAÚJO

«No fundo eu e o Eduardo [Prado Coelho] até gostamos muito um do outro. Acho que há aqui uma paixão subterrânea, há uma pulsão homossexual nesta nossa relação de amor e ódio...»