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Editorial |
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Uma revista chataÉ compreensível que se estranhe não ter optado a Periférica pela irreverência do costume. De facto, o mais natural numa revista com estas características (descentralizada, pequena tiragem, gente nova...) seria enveredar pelo experimentalismo, por uma alegre (ou depressiva) "vanguarda", pelo ignorar (ou desdenhar) das correntes vigentes. E, claro, a Periférica não devia ser vendável fora dum restrito clube de fãs. Mas a irreverência do costume não nos apetece. Desde logo porque, para o bem e para o mal, não é esse o nosso estado de espírito. Depois, porque, bem vistas as coisas, é prática tautológica. Adicionalmente, porque a irreverência do costume não é lida — é displicentemente folheada, e desculpada com paternalismo. A Periférica só faz sentido se for lida. A resistência que esta revista preconiza (e aí está a desejada irreverência) não tem tanto a ver com a recusa de escolas estéticas démodées, com a oposição a ideologias dominantes, com a desobediência a academismos, com o antagonismo às publicações sérias. É algo mais simples e anterior a isso que nos ocupa: a resistência à iliteracia e a mediocrização. Não, não é uma ridícula ostentação de hipotéticas virtudes. Obrigarmo-nos a fazer uma revista destas (em Vilarelho como em Nova Iorque) e a ter preocupações com o que lá vai dentro é contrariar a tendência natural das estatísticas em Portugal. É também, reconhecemos, suma pretensão. Preferimos, portanto, um texto bem escrito a duvidosos experimentalismos. Estamos a favor das estatísticas de literacia — não em busca do graal das artes. É quase conservadora a nossa revista. Mas, olhando a feliz mediocridade reinante, alguém tem de o fazer. Conservar o mínimo. Limitamo-nos a fazer a nossa parte. É uma revista para ser lida e (se o conseguir) agradar a quem a lê. Por ter coisas boas. Não quer ser um cadáver esquisito, com irreverência politicamente correcta a disfarçar o medíocre, ansiando pelo reconhecimento afectuoso do episcopado da vanguarda. Não quer ser um conjunto de páginas onde a mancha de texto serve apenas para embrulhar experiências gráficas, decorar veleidades estéticas. Repetimos: é mesmo para ser lida, embora saibamos ser a essa a actividade mais deficitária no reino. Portanto, a Periférica é uma chata: só serve para dar trabalho às pessoas. A nós que a
fazemos e ao leitor que tem de... a ler.
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Capa [Take 1]: «Obrigarmo-nos a fazer uma revista destas (em Vilarelho como em Nova Iorque) e a ter preocupações com o que lá vai dentro é contrariar a tendência natural das estatísticas em Portugal. É também, reconhecemos, suma pretensão.» |