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Pulp Fiction |
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Mudança de rumoConto de J. Rentes de CarvalhoA técnica que ela usa, simples e eficiente, foi-lhe ensinada por uma lavradeira andaluza com quem viveu uns meses. Pega-se o coelho pelas patas traseiras, espera-se que ele se aquiete e, usando a mão como cutelo, dá-se-lhe uma pancada atrás das orelhas. A morte é instantânea. — Estás a ver? Esfolá-los é mais difícil e é preciso proceder com muito jeito para que a pele não se estrague. Faz-se um corte na barriga e então, cuidadosamente, puxando dum lado, puxando do outro, a pele vai-se despegando aos poucos. Tem de se ter cautela com as patas, porque nelas a pele é mais frágil, basta um descuido para que logo rasgue. Seria mais fácil se alguém a ajudasse, mas desde que foi viver para o Norte as visitas fazem-se raras e, a falar verdade, ela também não sente necessidade de companhia. — A carne de coelho é boa, sabes? Sem gordura, nutritiva. Muito saborosa. Principalmente quando se lhes dá uma alimentação apropriada e saudável: cereais, pão de centeio endurecido ao ar da noite. Bom para roer. Água de nascente, verdura macrobiótica. E todas as noites palha nova no ninho. Caminhava diante de mim com o coelho pendurado pelas patas, um fio de sangue a escorrer da boca para o chão. — Estico as peles com pregos na porta do palheiro, esfrego-as com sal marinho e em duas ou três semanas, tudo depende da secura do ar, ficam prontas. Na cozinha sentámo-nos defronte um do outro e ela tirou do bolso uma navalha afiada, pediu-me que segurasse o animal e, com um gesto seguro, cortou-lhe a pele de cima a baixo. — Mete os dedos assim como eu e puxa. Devagarinho. Surpreendeu-me a quentura da carne e que a pele, ao separar-se do corpo, fizesse um ruído de papel que se rasga. Ela examinou o pêlo atentamente e em seguida, pegando numa faca maior, assentou o coelho contra o rebordo da mesa e decapitou-o de um só golpe, atirando a cabeça para o caixote do lixo. — Não prestam para nada. Além disso, com os olhos abertos, até metem medo. Mas há quem as coma, isto é, os miolos. — Já há tempo que não nos víamos — disse eu. — Como te sentes agora? — Assim assim. Terminei um curso de onanismo e estive em dois grupos de terapia verbal, mas sem resultado nenhum. A única coisa que me distrai é forrar as paredes do meu quarto com as peles dos coelhos. E o chão. — Mas tu não podes ficar assim a vida inteira. — Bem sei. Para o ano estou a pensar noutra coisa. Talvez vá estudar Economia em Londres.
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Ilustração: «Surpreendeu-me a quentura da carne e que a pele, ao separar-se do corpo, fizesse um ruído de papel que se rasga.» |