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Pulp Fiction

O infinito

Conto de José Ferreira Borges

Nunca soube o que seja o infinito. Possivelmente idêntico à loucura, ele não se deixa olhar a partir de fora. Mesmo envolvido pelos seus dedos, não o entendo em grande parte. E desconhecê-lo desse modo é ignorá-lo por inteiro. Arrisco uma definição, e a probabilidade de errar, essa, não tem fim. Estou perto de o dizer, portanto. Mesmo soltando um dislate, tê-lo-ei afirmado em silêncio. É assim o mistério: arrasta-nos para si. Apesar de o sentir inesgotável, digo que o infinito é a negação da morte: junta a noite e o dia no mesmo amplexo intemporal. No seu interior, onde julgo encontrar-me, durmo e, todavia, falo, convencido de que até nos abismos do sono se cultiva a palavra. Deixem-me dizer-vos que não sou original. Um arco-íris, por nascer da fusão de luz e água, nunca é original. Em todo o caso, não roubo nada ao Criador: fruo as cores que me habitam.

No entanto, não deixo de ser um arco-íris invulgar. Colorido e, por consequência, visível; invisível e, dizem, inexistente. Começa aqui a diferença ou, antes, ela iniciou-se no dia em que me apaixonei por uma nuvem. Direi melhor: eu sou o fruto da paixão do Sol por gotas selectas. Não são sete as cores que irradio, mesmo se olhos mortais não alcançam outro número. Olhos dessa natureza vêem limites por todo o lado. O número das minhas cores é infinito. Assim dotado, nunca me afundo na ausência: adormeço nos intervalos do amor. Acordo, se as gotas da nuvem descem. Lugar de convergência de água e luz, eis surjo deslumbrante, síntese final de todas as cores. A linfa da chuva anuncia-me um segredo. Ouço-o de soslaio, ele traz sílabas de infinito. E eu penso que, de certa maneira, sou eterno. Mergulhado em tal excesso, não poderia ser outra coisa. Donde veio o condão dessas gotas? Pois bem: os caracteres da sua fórmula química, se não me engano, são letras que um dia tentaram dizer o infinito. Sendo o espaço do desejo, acordo quando a nuvem me inventa. É essa a carícia com que sou amado. A que outra grandeza pode aspirar um velho arco-íris? Um dia, num dos instantes da minha aparição cromática, a nuvem decidiu narrar-me a sua história.

«Vim dar», contou-me, «àquele cume desolado. Dias sucessivos errei para fugir do meu país. Bem sei que há almas atormentadas de saudade. Elas dizem maravilhas do berço, cantam veredas e arroios e dourados fins de tarde. Eu não sou dessas. O meu país tornou-se inóspito, desde o dia em que os inquisidores tomaram as rédeas do poder. Mais grave que todas as outras, penso ter sido a decisão atrabiliária que tomou o Ministério das Letras. Ficou assente que a palavra "infinito" e sinónimos deviam ser banidos da santa república. Este horror ao infinito desencadeou uma verdadeira caça aos livros e panfletos que versassem sobre o tema. Bibliotecas inteiras foram devastadas, livros queimados, páginas rasgadas. O infinito é o grande inimigo das mentes bem pensantes do meu país. Há sempre um espírito libertário que, às ocultas, se deleita na contemplação desses ideais. Às claras ninguém o faz, por recear a fogueira.

Piordano Uno, conhecido divulgador das teses infinitistas, foi um dos primeiros a sofrer a pena capital num auto-de-fé. Alguns dias após a sua morte, vi-o bater à porta da mulher, de rosto despedaçado. Era obviamente o seu espírito. Ela assobiava na cozinha. Uno podia entrar (um espírito não sofre com barreiras corpóreas), mas preferiu bater à porta, ignorando que não seria ouvido. Ficou desolado com o assobiar da mulher. Ela devia pôr luto e evitar os assobios. Uno sempre julgou que ela o amava. Seja como for, o certo é que ele escreveu apenas um livro, mas de tal modo marcante que os especialistas em censura acharam por bem queimar também o autor, não lhe passasse pela cabeça o propósito de voltar a escrever algo de semelhante, e cuidando assim expurgar do mundo os males do infinito.

No dia do auto-de-fé, prepararam duas enormes fogueiras: uma para os condenados, entre os quais Uno; outra, para os seus livros. A multidão acumulava-se como formigas alegres. Era o tempo das vindimas. Naquele entardecer, anunciador da noite — mãe dos limites, ou do ilimitado, tudo dependendo de quem olha —, já Uno sofrera as primeiras pinceladas das chamas altas, quando viu o que, de tão anormal, o fez esquecer, por momentos, as dores que o martirizavam. No seu livro, as letras resistiam às chamas e subiam através de uma coluna de fumo, formando uma nuvem gigante. Essa nuvem deambulou pelo país, conheceu a ordem e a estupidez, o poder e a sua sombra. Cansada, afastou-se, arrastando as letras até àquele cume.»

Sei que a nuvem existe para contar histórias. Ela não pode evitar que as palavras jorrem de si e vão de encontro ao mundo. Nenhuma autoridade terrena lhe exaure este poder de encantamento. O meu sossego de arco-íris acaba de alterar-se, um sussurro me alertou, pressinto as gotas a descerem. Acordo mal as ouço. Vou fulgir de novo com as minhas cores infinitas. É o limiar de mais um acto de amor.

[Ilustração de Paulo Araújo]

Ilustração:
PAULO ARAÚJO

«Piordano Uno, conhecido divulgador das teses infinitistas, foi um dos primeiros a sofrer a pena capital num auto-de-fé.»