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CaricaturaDurante longos anos a República Portuguesa não teve presidente. No Palácio de Belém habitaram as arcas de pau preto, as camas Luís XV, os contadores ornados a marfim, os tapetes de Goa — e, escassamente, uma silhueta arruivada, adorno eleito por maioria. Ano após ano, o fugidiço habitante de Belém exibiu um silêncio de insondáveis subtilezas. Não fossem os ténues sinais de vida que emitia com os discursos de solene obrigação a 5 de Outubro, a governanta do Palácio nem dava por ele — e varria-o com o pó da escrivaninha. Mas nem esses discursos (em que o fulvo fantasma mostrava, finalmente!, as sardas e os caracóis, recitando meia dúzia de páginas de texto a fingir profundidade) asseguravam a sua existência efectiva. Terminados os bocejos, era de novo respeitosamente esquecido. Isso irritou Sua Excelência. Tanto, que neste mês de Junho resolveu fazer-se notar, não fosse chegar atrasado à História. E que urgente causa escolheu Sua Ignorada Excelência para se manifestar? Que digno ideal desejou ver cumprir-se Sua Abandonada Excelência? Que móbil elevado o fez questionar, bravamente, as leis da República? ...A premente e lúcida causa da tradição! Sua Sempre Comovida Excelência desejou a legalização das touradas de morte em Barrancos: último e definitivo passo para o progresso de Portugal! RAA
Teatro do absurdoSerões da província: Vila Flor. Uma companhia de teatro do Porto em digressão por Trás-os-Montes: tudo preparado, janta-se antes do espectáculo. Um responsável da Câmara Municipal: que ou a entrada é livre, ou a Câmara recebe uma percentagem do preço dos bilhetes. A companhia estranha: que no fax tinham informado das condições. A Câmara: ah, pois, o fax, isso — que não lera. A companhia cede: vamos lá então acertar a percentagem. Dribla a Câmara: não, não, que tem de ser grátis. A vida real explicada aos políticos e às criancinhas: que são profissionais, que se não lhes pagam o espectáculo nem podem cobrar bilhete, de que vivem? O veredicto camarário: que se não for grátis, não pode haver espectáculo. Não houve. Almeida Garrett revisitado: o teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde ela não existe. FG |
A RessurreiçãoA boa notícia do trimestre foi a ressurreição da Livros. Bem, não exactamente a Livros — biblicamente (claro), a ressurrecta publicação vem transfigurada, ou transnomeada, chamando-se agora Os meus livros. Da encarnação anterior, a revista dirigida por Tereza Coelho mantém muitos dos colaboradores permanentes, incluindo as crónicas de Salman Rushdie, bem como o tipo de recensão a que nos habituou. Quanto a diferenças, Os meus livros ganha à Livros no conteúdo: tem mais para ler e, a julgar pelos dois números já saídos, é mais consistente. Mas perde em beleza (orçamento oblige), ausentes que estão as ilustrações de Alice Geirinhas, Danuta Wojciechowska, João Fazenda, André Letria ou José Manuel Saraiva — só para citar alguns de memória —, restando apenas um polifacetado André Kano. Vão-se os anéis, fiquem os dedos... FG
A Idade MédiaTrás-os-Montes, sete de Julho, dia do encerramento do 1.º Festival de Música Medieval, em Carrazeda de Ansiães. Hoje actua o grupo "La Batalla", de Pedro Caldeira Cabral. Este é o terceiro espectáculo, dos quatro que perfazem o evento, a ocorrer no Castelo da Levandeira, local histórica e geograficamente esplêndido. Estão presentes entre 400 e 500 pessoas. Podia ter sido cá na terrinha... A crua verdade é que não podia. Da mesma Idade Média onde Pedro Caldeira Cabral foi buscar a música, governados e governantes deste concelho aguiarense (como de muitos, demasiados outros), tentam a todo o custo preservar um só bem supremo: a mentalidade... Todavia, sente-se já uma nítida influência do século das luzes — nos dias em que há fogo de artifício. É o "iluminismo" pairando sobre as almas do povo. Quando houver foguetório todos os dias é que vamos ser felizes... VL |
ConfissãoEu sei. Era suposto — e higiénico — que a Periférica ignorasse a paróquia. Mas não resisto. (Os meus comparsas hão-de mostrar-me a inutilidade do gesto, o ridículo da obsessão.) Sou culpado de ter escolhido uma vida pacata em Trás-os-Montes. De amar intensamente certos percursos esforçados sob galhos de pinheiros e de raros carvalhos; certas planuras entre encostas suaves ou abruptas; algumas paragens alcandoradas como cestos de gáveas num mar de rochas (lindo!); o sol desejadamente, necessariamente insuportável; um vento de lâminas épicas, obrigando a lágrimas tardiamente românticas; a chuva sempre oblíqua fustigando animais e pessoas, e eu querendo-me longe delas... E acabo por aqui o Torga. Não estou a mentir quando digo que gosto de Trás-os-Montes. É — admito — a minha obsessão. Não me canso de falar nele — mesmo que passe todo o tempo a falar mal dele. Nos últimos anos ninguém terá falado tanto mal deste pedaço de terra (e disso deixado testemunho escrito) como eu. Confesso, até, que gostava de ficar para a História como o anti-Torga. É que eu e o Miguel Torga (a memória dele) gostamos do mesmo naco de país — mas ele gostava de Trás-os-Montes com pessoas dentro; eu amo a paisagem. Não sei se Trás-os-Montes, no tempo do Torga, terá sido bem frequentado. Desconfio que ele não era muito exigente. Se o fosse e vivesse hoje, aguentaria a imprensa de anedota que aqui temos? Se o fosse e vivesse hoje, toleraria a literatice incapaz e analfabeta que por cá dá à estampa? Se o fosse e vivesse hoje, aplaudiria ou acessoraria — como o fazem os "intelectuais" da província — os poderes ignaros e boçais que por cá reinam? Se o fosse e vivesse hoje, aturaria, sem rir, o III Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro? A UNEARTA (União — pasme-se — dos Escritores e Artistas Transmontanos e Altodurienses)? Eu não. Por isso me retiro para os montes, com a minha tanga, o meu cajado e os meus calos nos pés... E, claro, o meu computador portátil, a minha linha RDIS, o meu telemóvel, as minhas assinaturas de imprensa... Eremita era o Torga. RAA |