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O carteiro toca sempre duas vezes

baile na aldeia

Texto de Manuel Guimarães e Luísa Costa

quando atravessou a sala na minha direcção, a minha cabeça gelou e ficou húmida. embalagem de damas, tinha alguém gritado alto, o que significava serem as damas a convidar os cavalheiros para esta dança específica. e ela lá vinha, e o frio da cabeça passou para o estômago, e depois por ali abaixo.

noite de verão. no ar um perfume vago de silvas.

na noite, o perfume. nas silvas, o ar. no mar, o vaguedo vagueante. no ar do teu verão queimam as ondas que nem silvas. na noite do teu aroma vagueia um perfume de silvas ouradas.

no teu colo brilha uma borboleta de oiro. a renda fina da orla da tua saia roça os teus joelhos. olho-te ao longe inquieto. indeciso.

é tempo de sonhar, tempo de decidir.

noite de verão. no ar um perfume vago de silvas.

nos arraiais havia o costume de andar para trás e para diante, rua abaixo rua acima, a olhar para as raparigas que também andavam em grupos. a malta cruzava-se dezenas de vezes, diziam-se coisas, ia-se atrás delas para os carrinhos, à noite continuava o mesmo, para trás e para diante. caminhava-se devagar, com a música aos berros nas pinhas, apelido dos altifalantes pendurados nos postes.

vêm de todos os lados — gordos, magros, bonitos, feios, apressados, vagarosos, distraídos, loiros, morenos, brancos, pretos. param, olham, entram, saem, continuam numa dança desajeitada, sacos na mão, empurrando carrinhos de bebé, puxando os filhos pelo braço ou correndo atrás deles aos gritos vem cá Bruno Miguel, anda para aqui Vanessa Sofia, ouviste estás quietinho ou acaba-se a dança, vamos já para casa. percorrem quilómetros de corredores, os pés inchados, o cabelo pegado à testa, olha que giro, de olhos esbugalhados para as montras num desejo desenfreado. para cá e para lá, ondas de gente movimentando-se, alguns encontrões, passos mal ensaiados, acontece. a música aos altos berros enche as altíssimas cúpulas, atordoa, a malta curte, a malta compra, a malta estoira-se, mas é domingo para esquecer.

a romaria transferiu-se para o interior, pudera, assim, mesmo que chova, o povo lá anda a babar-se, a endividar-se, alheio ao facto de existir no terceiro mundo, onde a classe política ganha o que quer mil vezes mais que o ordenado mínimo, e a executiva igual, o que é preciso é entretê-los com telenovelas, fazê-los acreditar que o mundo gira todo assim.

à hora em que sói comer-se sobem ao andar de cima, uma mancha de corpos cobre as escadas de subir, outra mancha compacta cobre as escadas de descer, apesar de tudo há regras, por aqui sobe-se, por ali desce-se, um mais distraído confunde o descer com o subir, agora é que são elas, lá está uma pobre figura empatando a dança, ninguém se mexe, tudo parado, a pobre figura contorce-se, tenta esgueirar-se, o suor escorre-lhe pela cara aflita, sofre umas pisadelas, ai meu deus que me esmagam, esmagam nada. chega cá abaixo são e salvo, perdeu uma manga do casaco, podia ser pior, foi-se a manga, mas ficou o braço.

é desse braço que o sistema se alimenta, por isso só lhe leva a manga. é esse braço que trabalha com o volante, a máquina, é esse braço que leva o voto para a urna, cheque em branco à alcateia que o vai sugar até ao caroço. é esse braço que compra o bilhete para o futebol, que paga a vela de fátima. é esse braço que já não vai ao fado, não o ouve. vive-o.

é o baile no bosque, entre pinheiros e meretrizes, de assador portátil na berma, já em cima da faixa de rodagem, que assim é que é, eles que abrandem, andem devagar, e olhem bem para mim no meio da fumarada do carvão, são sardinhas, e a única coisa por que vale a pena viver. é isto, uma tarde no meio da rua, com a família, a multidão, e o assador.

cá estamos na praça da comida, agora todos em filinha indiana, agora todos de tabuleiro de plástico em punho, agora todos para o lugar, agora tudo a abrir a boca e a fechar — é o baile mandado.

naquele dia nem comeu. a prima do Zé Carlos ia ao baile. andava há três anos a sentar-se todo enfiado na camioneta, à espera que ela entrasse, umas paragens à frente. e ela entrava, mas não lhe ligava nenhuma. o baile estava animado, mas ela não dançava com ninguém, nem ninguém tinha lata para a convidar. que mistérios guardava aquele rosto magnífico que, sendo da mesma idade, parecia mais adulto?

[...]

Texto completo na edição em papel...

[Ilustração de Paulo Araújo]

Ilustração:
PAULO ARAÚJO

«é o baile no bosque, entre pinheiros e meretrizes, de assador portátil na berma, já em cima da faixa de rodagem, que assim é que é, eles que abrandem, andem devagar, e olhem bem para mim no meio da fumarada do carvão, são sardinhas, e a única coisa por que vale a pena viver.»