Se está a ler este parágrafo é porque o seu browser não suporta convenientemente folhas de estilos CSS (Cascading Style Sheets). Sugerimos que actualize o seu browser, pois caso contrário o aspecto deste site será muito diferente do planeado, se bem que continue a ser legível. As versões recomendadas dos browsers são: Internet Explorer 6.0 (5.5 já é bom), Netscape Navigator 6.2 (6.0 já é bom) e Opera 6.01.
Missão Impossível |
Ideia Mínima GarantidaEntrevista de Rui Ângelo Araújo e Carlos ChavesA televisão presta um enorme serviço à literatura. Pena é que nem toda a gente saiba tirar proveito desse serviço. O grau de indigência a que chegaram as programações é um convite evidente aos prazeres da leitura. É como se o governo tivesse apostado na mais subtil das campanhas: comprovado o fracasso das iniciativas do Instituto Nacional do Livro e das Bibliotecas, baixa-se a qualidade das televisões de modo afugentar toda a gente para o quarto com um livro na mão. Mas o cidadão, claro, considera medidas como esta prenúncios de um totalitarismo inaceitável e rebela-se. Recusa fazer o que querem que faça. Compra o livro, sim senhor, até porque não vem daí nenhum mal e sempre é uma razão para ir à FNAC, mas à noite é na televisão que se perde. A irreverência está no sangue português. A "campanha" das televisões a favor da leitura terá, ainda assim, alguns resultados, mas eles hão-de ser tão residuais que provavelmente nem o Instituto Nacional de Estatística poderá indicar exactamente os números. Um fracasso, portanto. Por esse fracasso é que a nação, que podia andar a discutir a curva descendente da inspiração de Saramago, ou quantas vezes mais Lobo Antunes escreverá o mesmo livro, ou se Glória de Vasco Pulido Valente é ou não um romance, anda a debater (anda?) o serviço público de televisão. Mais do que esse debate (que deve divertir imenso os senhores Rangel, Balsemão e Moniz), aqui na Periférica interessou-nos saber como é que ainda há gente que se dá ao trabalho de ter ideias para televisão. Não somos muito aficcionados das maravilhas da TV, mas a espaços temos recaídas e espreitamos aquele fabuloso mundo, as mais das vezes para curar insónias ou por puro masoquismo. Num desses inconfessáveis momentos, fomos confrontados com a reposição de Zapping, um programa da Mínima Ideia, que foi das coisas mais interessantes vistas nos últimos anos. É certo que passava na RTP2, que é quase uma negação da própria televisão, tal como ela é entendida hoje. Mas era um programa de televisão, ainda assim. Uma visita ao site da empresa revelou-nos projectos, ideias, programas, objectivos: «...Tentativa de independência face ao monopólio dos grandes grupos económicos ligados à comunicação social»; «...Urgência de encontrar um território de liberdade num mundo todos os dias mais complexo»; «...Intervir na sociedade.» Ainda às voltas com o conceito de "periferia" que escolhemos para nome da revista que o leitor tem nas mãos, pareceu-nos interessante o manifesto de intenções da Mínima Ideia. Em que medida ele se conjugaria com o actual debate sobre a televisão e o serviço público? Em que medida o Zapping, um interessante exercício de reflexão sobre o "fenómeno televisivo", era representativo da empresa que o produziu? Até que ponto a Mínima Ideia aguentaria ou desejaria ser uma alternativa às "Endemoles" do panorama português? Fizemos as perguntas. Por autodefinição, «a Mínima Ideia é uma empresa de comunicação que faz programas de televisão, telediscos, vídeos institucionais, organização de eventos e colóquios». Foi responsável por diversos programas que passaram nos dois canais da RTP: Portugalmente, Juízo Final, Loja do Cidadão, Zapping, Serviço Público, Fenómeno, Não Exibido. Neste momento negoceia programas com vários canais, públicos e privados, e produz uma peça de teatro que está em itinerância: Pensão de Sangue. Vários programas da Mínima Ideia tiveram grande sucesso na crítica televisiva. Como os responsáveis afirmam, sem razões para imodéstia, os seus projectos contribuíram para que se discutissem novas formas de comunicar em televisão. A razão talvez seja aquela que passa por todo o discurso da empresa, seja na entrevista que apresentamos nestas páginas, seja nos textos que publicam: a palavra "qualidade". É nesse pressuposto que a Mínima Ideia quer assentar todo o seu trabalho, independentemente da área onde ele se desenvolva. Acredita mesmo que é possível fazer entretenimento «popular de qualidade». Fantasias, ou certezas de quem acredita haver alternativas ao actual estado das coisas? A Mínima Ideia não representa nenhum papel numa visão romântica ou ideológica do meio televisivo. É uma empresa que quer realizar trabalho e fará (infelizmente, poder-se-á dizer) o trabalho que lhe encomendarem. Os seus limites talvez sejam suficientemente latos para que até o pimba possa dar a sua perninha. Mas a vontade de fazer coisas de qualidade é, no mínimo, uma curiosidade que a distinguirá. O coordenador geral da Mínima Ideia é Luís Osório. Não estava. Falámos com Tiago Rodrigues, redactor, entre outras coisas. Serviu.
O que é que está antes de tudo? Uma perspectiva económica, por existir um nicho de mercado eventualmente pouco explorado, ou uma perspectiva estética, "ideológica"? É como entrar na história da galinha e do ovo... O que está antes de tudo é um convite quase pessoal ao Luís Osório, que arrasta pessoas que o acompanham e que discutem as coisas com ele, uma equipa que vai formando. Antes de tudo está uma vontade de ocupar uma meia hora na RTP com uma ideia de televisão e com uma pessoa que poderia ter essa ideia. Pois, mas a postura estética, mais ou menos alternativa ou marginal, que origens ou intenções tem? O alternativo (ou o marginal) é, obviamente, uma situação muito agradável para nós. Até porque nos permite, em termos de crítica, em termos de comunicação, arriscar mais. É estarmos a trabalhar para um nicho, que porventura aceita mais facilmente o alegadamente inovador, o alegadamente experimental. Ao trabalharmos para aí, é-nos permitida uma liberdade muito grande. E isso dá-nos muito prazer. É sempre bom quando podemos arriscar muito. Mas o marginal não é uma escolha. Se vamos fazer uma programa para a RTP2 temos de saber quem é o público da RTP2, e vamos trabalhar para esse público. Da mesma forma que trabalharemos para um público de prime time da TVI quando nos for pedido um programa para o prime time da TVI. [...] Acha que deve manter-se a situação actual de dois canais, um mais dirigido aos públicos minoritários e outro dirigido às massas, ou acha que a programação deve entrelaçar-se num só canal? Neste momento estão-se a pedir as duas coisas à televisão: o serviço público e as audiências. Julgo que a RTP2 é sempre um garante, um bastião do serviço público enquanto esse mesmo serviço público não estiver definido para a RTP1. Que expectativas é que vocês têm em relação ao serviço público de televisão? Preocupa-os muito o futuro da televisão pública, ou nem por isso? Preocupa. Eu julgo que preocupa os portugueses em geral. Porque estamos a falar na mais impressionante das possibilidades de intervir na sociedade e sobretudo de melhorar a sociedade. A pergunta inicial deveria ser esta: deve existir televisão pública em Portugal? Claramente. Em relação a isso não tenho dúvidas. Deve existir serviço público, porque a televisão, mais do que qualquer outra empresa pública, ou mais do que qualquer outro serviço público, pode ter uma função essencial na promoção do debate, de debates sociais profundos, abrangentes... Então no serviço público deve ter mais peso o lado lúdico, de entretenimento do espectador, ou o lado "formativo", crítico, o lado de promoção do debate? Esta é uma resposta sinuosa... Eu acho que devem existir em igualdade de circunstâncias, mesmo que não em igualdade de peso e de ocupação de espaço. Obviamente que eu gostaria mais de ver a promoção do debate, mas julgo que o lúdico é essencial. Primeiro para criar a ligação das pessoas a essa televisão, para criar uma relação. E o entretenimento consegue isso mais do que qualquer outro formato. Mesmo na RTP2 o entretenimento cria uma ligação mais forte com o público do que a informação. [...] A Mínima Ideia prefere trabalhar para a RTP2, para a RTP1 ou para os canais privados? A RTP2 é, mesmo correndo os riscos que os empresários e os produtores não devem correr, o espaço de liberdade privilegiado para uma produtora e uma equipa como a nossa. Se temos mais prazer em trabalhar com a RTP2 é porque temos, com certeza, mais liberdade. Agora há também um grande desafio (e julgo que era uma coisa que nos daria muito prazer) de conseguir não descer naquilo que é nossa fasquia de qualidade e conseguir fazer mainstream, chegar a muita gente. Chegar a muita gente é um objectivo claro das pessoas que trabalham aqui. Queremos usar o espaço que milhões de pessoas consomem, queremos que esses milhões de pessoas consumam as nossas ideias. O objectivo é não descer, ser sempre o mais exigentes possível. Ceder no acessório para não ceder no essencial, não descer, para depois, provavelmente, descer o mínimo. [...] Entrevista completa na edição em papel... |
«O objectivo é não descer [na qualidade], ser sempre o mais exigentes possível. Ceder no acessório para não ceder no essencial, não descer, para depois, provavelmente, descer o mínimo.» |