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Pedro PalmaO outsider da tinta-da-chinaQuestionário de Fernando GouveiaConfessamos: a decisão de abordar (por e-mail) o cartoonista e caricaturista Pedro Palma com um questionário não foi guiada pela certeza de o questionado se enquadrar na temática alargada — a "perifericidade" — que dá título à revista: movia-nos tão-só a admiração por um trabalho com que nos tínhamos cruzado por diversas vezes, em diferentes situações (jornais e revistas, antologias, internet, exposições). Assim, relegámos para mais tarde o cuidado de torcer a coisa para se encaixar nas nossas páginas... ...o Pedro Palma poupou-nos esse trabalho: mais verboso aqui ou ali, mais lacónico além, as suas respostas não revelam apenas um jornalista (sim, isso mesmo) polifacetado — revelam um homem marginal à sua própria classe profissional. Em termos de postura, que não da qualidade do trabalho produzido — e aquela, nos tempos que correm, só contribui para a qualidade deste último (dizemos nós). Mas, mais do que tudo, talvez, as suas respostas apresentam-nos alguém que não se coíbe de pensar independentemente, como o demonstra o cartoon sobre Timor que reproduzimos mais à frente. Apesar de ter vivido e trabalhado algum tempo na França, o seu traço aproxima-se mais do estilo da caricatura anglo-saxónica (tem algo que faz lembrar Ranan Lurie e David Levine). Não foi permeável ao estilo francês? — Quando eu era bem novinho lia, com bastante atenção, as Selecções do Reader's Digest, que o meu pai coleccionava, e que era uma revista bem diferente da actual. Lia sobretudo os números com matérias sobre a Segunda Grande Guerra. A revista era altamente propagandista dos valores da grande nação americana. Comecei a interessar-me pelos Estados Unidos e foi nessa "pequenina" revista que vi pela primeira vez caricaturas de David Levine. Então comecei a copiar os seus desenhos como forma de exercício. Tinha para aí uns 10 anos. Ranan Lurie começou a interessar-me quando já trabalhava em cartoon de forma semi-profissional no semanário Tempo. Ele acedeu a um pedido meu feito por escrito e mandou-me uma brochura sua. Achei incrível a forma como produzia... chegava a fazer quatro cartoons por dia, muito embora uns fossem colagens de outros. Cheguei a ser seu representante em Portugal no final dos anos oitenta. Não conheço, pessoalmente, David Levine nem tampouco Ranan Lurie. Mais, não conheço os Estados Unidos. Pelos menos nunca lá estive (para grande "vergonha" minha). Acho que no dia que eu pisar o chão de Manhattan não vou querer de lá sair nunca mais. É uma viagem inevitável que tenho vindo a adiar ao longo dos anos. Quando andava no liceu, em Beja, mandava vir de Paris, através de uma pequena livraria, a revista Charlie-Hebdo. A França sempre me interessou muito mais ao nível da BD. Depois, em 1984, quando lá trabalhei, confirmei que em termos de cartoon editorial os franceses ainda estavam na idade da pedra em relação ao americanos. Mesmo em relação à BD, e apesar de serem sobejamente conhecidas as tradições belga e francesa, será comparável a BD franco-belga com os comix norte-americanos? Onde foi beber inspiração o italiano Hugo Pratt? Prefiro os Estados Unidos à França em tudo. Na literatura, na pintura, escultura, arquitectura, como povo (multirracial) não xenófobo, apesar de altamente nacionalista. No entanto devo deixar bem claro que gosto imenso de Paris (cidade que conheço muito bem) e tenho lá muitos amigos. Costumo dizer que só há dois lugares no mundo onde gostaria, realmente, de viver: aqui em Cascais ou Nova Iorque. [...] Pode ser-se caricaturista e não se ser engagé? Pode ser-se caricaturista e ser-se engagé? O engagement significa perda de independência? — Eu sou free lancer em tudo na vida. Independência e liberdade são valores que eu não negoceio! Qual o pior defeito que um cartoon ou um cartoonista pode ter? — Como os defeitos e qualidades dos cartoons, como qualquer outra coisa na vida, dependem dos valores, cultura, princípios e pontos de vista, tanto de quem os faz como de quem os "lê", acho que apontar defeitos a um cartoon ou a um cartoonista seria uma atitude patética. Fui (muito) criticado sobre o cartoon de Timor mas bastante elogiado também o que confirma que "ninguém é dono da verdade". Sabermos respeitar pontos de vista é a maior qualidade que podemos ter (em meu entender). Obviamente que os pontos de vista podem (e devem) ser discutidos, mas isso é outra conversa. Hitler era um mau rapaz...? Staline não era...? Os judeus, que foram vítimas dos nazis, esqueceram-se do que fizeram no Egipto há 2.000 anos... e o que fizeram e fazem aos árabes? Não se pode ser preto e branco ao mesmo tempo. No máximo, cinzento! [...] |
Fotografia: Pedro Palma nasceu em Serpa em 1959. Para além de cartoonista é jornalista e designer de comunicação. É membro da Cartoonists & Writers Syndicate (N. Y.), sendo os seus trabalhos publicados em mais de 250 jornais de revistas de 40 países de todo o mundo. Para além da participação em exposições temporárias e festivais (St. Esteve, França; Rio de Janeiro, Brasil; Zagreb, Croácia...) e da inclusão em antologias internacionais ("The Finest International Cartoons of our Time", "Human Rights — as seen by the world's leading cartoonists" e "Black Lines Rider Again"), os seus cartoons e caricaturas encontram-se expostos em museus da especialidade (Gabrovo, Bulgária; Basileia, Suíça). Em 1993 publicou na Gradiva a antologia "Caricartoons". Online, Pedro Palma encontra-se em sapp.telepac.pt/pedropalma. |
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Em Setembro de 1999 gerou-se em Portugal (e no estrangeiro também, se bem que em menor grau) uma corrente de solidariedade para com Timor Leste. Houve mesmo uma publicação conjunta de caricaturistas e cartoonistas sobre o assunto. O Pedro Palma, apesar de antecedentes na denúncia de violações de Direitos Humanos, não participou. Por alguma razão especial? — Por uma razão muito especial. Eu não sou, nunca fui, nem nunca serei uma "Maria vai com as outras". Em matéria de direitos humanos eu conheci situações em Angola em 1994, onde fui detido acusado de espionagem, que me revelaram que não é com acções como a de Timor que se faz alguma coisa... não é com lencinhos brancos nem com cadeias humanas que se acaba com o sofrimento de milhões e milhões de pessoas por esse mundo fora. Esse tipo de acções causam-me asco e vergonha. (Envio em anexo um cartoon e um texto que indignou a população portuguesa, ou pelo menos a que lê o Jornal de Notícias, e que foi publicado nessa altura. Leiam o artigo, vejam o desenho e tirem as ilações que quiserem.) [...] Alguma vez sentiu, a posteriori, que foi cruel numa caricatura? (Sentiu-se mal? Adorou a sensação?) — Tento ser justo, não empolgando situações. Se a caricatura ou o cartoon forem exagerados deixam de corresponder à veracidade dos factos. Nunca senti nenhuma das sensações. Alguma vez "segurou a mão" por impedimento moral (ou outro)? — Obviamente. Termos a capacidade de dominar uma técnica (o desenho) não nos dá o direito de nos masturbarmos em público! Questionário completo na edição em papel... |
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