Quintais
Poemas de Rui Pires Cabral
Tema
Foram os quintais de dois invernos,
um desenho na janela para explicar
qualquer coisa sobre nós, qualquer coisa
terrivelmente alheia às palavras.
Pequenos alicerces do próprio tempo,
quem diria que os podíamos
apagar? Iam do princípio ao fim
dos meses, era onde se agarravam
os ramos brancos da casa.
Castelo
Haverá um lugar para gastar a tarde
sem maior prejuízo? Esta estranha convivência
com a música. Aqui, onde a muralha se perdeu
para os séculos e as coisas mergulham
nos seus precipícios: as figueiras espalhadas
nas hortas em baixo, os pavões, a cabeça de um velho
como se a trouxesse embrulhada num desenho.
Eu encontro uma ordem qualquer neste contraste,
tu não? É curioso como ainda vem tanta coisa
arrastada nesta voz, nestas guitarras. É a desordem
aquilo que queres apagar em mim, aquilo que confundes
com juventude? Encosta a tua perna ao meu joelho
no comboio. Vai quase vazio nesta luz inerte
e branca. Nunca percebi bem aquilo que te faz rir
e tens de concordar que é uma pena.
Descrentes
Quando o dia não traz outro sentimento
e parece rebentar nos teus dedos
como uma lâmpada. Sobre a coberta de viés,
onde as figuras num quadro congeminam talvez
uma pequena maldade. Dos dois
eu era o mais complicado: poderei resistir ao peso
que me agarra ao chão desde o princípio?
E estará o meu futuro "no Canadá"? Não,
propõe-me qualquer coisa séria como a descrença.
Os animais compõem uma estranha conspiração
de desânimo, as árvores procuram um conforto incerto
mais longe de nós. Antigamente tudo me parecia
inumerável: afinal (e é disso que tu me lembras)
sempre fomos mortais, ah estarmos aqui deitados, o mel
do acaso, os teus olhos quase verdes em algumas partes.
Cabeça
Tudo tende para a tua pele, velocidade
e hábito. Deitados na mancha, no branco
da tarde, eu não posso estabelecer uma fronteira.
É o amor que se levanta contra o rasgão das janelas,
no lugar onde o puseste de propósito.
São estes dias — onde havemos de ir?
Estamos vestidos para o inverno, as plantas da casa
têm tudo o que precisam. Eu não posso imaginar
outra maneira. A minha cabeça ergue-se sempre
entre nós, dividida por dentro como um fruto.
Dia da Restauração
Agora não há razão que me acorrente
à terra. Bebo a manhã por um copo sujo,
acreditando talvez que ninguém envelhece
em vão, que todas as batalhas me hão-de servir
no futuro. Mas dentro de mim eu sei que quero
desperdiçar-me, gastar-me nos gumes, nos arcos
que me fundam. Não me pareço com nada,
não me reconheço em lugar nenhum da casa.
Isto significa novas empreitadas para o pensamento,
novos esconderijos, o país de um trânsfuga.
Como poderei mexer-te, sequer alcançar-te?
Por enquanto os livros ainda estão silenciosos
e o dia vai desbotando como uma barraca.
Comboios
Uma lâmpada onde o rumor se partia,
entre as cortinas, subindo das ruas
que te precederam. Eu segurava o desejo
contra todas as correntes, quer dizer,
as minhas mãos tinham sido desenhadas
para outras partes do mundo.
Tanto espaço enredado no charco das sombras,
na teia onde eu fazia e desfazia a minha cama.
E nas paredes ao princípio da noite, quantos comboios
passavam ainda entre nós.
Café-Restaurante
As árvores à porta e a erva nos quadrados
do passeio. É o mundo onde temos os nossos
encontros, a própria disposição das cadeiras
faz impressão. Alguns peixes de olhos encharcados
na vitrine de um refrigerador, os azulejos estampados
com flores à altura da boca. E não é nada disto
o que os teus modos me prometem: nós fomos
engendrados muito longe, noutro tempo. Pousas
as moedas no vidro e nada exprime melhor
a tristeza deste sítio a dois passos da estação,
aqui onde toda a gente parece conhecer
o empregado. Pergunto-me de onde nasce então
este sentimento: da concha preciosa dos teus
ombros? Seguirá destas janelas
para um mundo invisível por detrás das ruas?
Quintais
A minha cabeça é uma máquina
natural, só as janelas mudaram
de lugar e de paisagem. Outros panos,
outras árvores agarradas
à palma firme da terra.
Houve pioneiros para tudo,
a minha própria solidão foi hasteada
noutros livros. E eu só te tenho a ti
nestes quintais sombrios.
Rubrica completa na edição em papel...
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