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Filipa Melo

Entrevista de Maria Filomena e Fernando Gouveia

Filipa Melo, jornalista freelancer e ex-editora do Mil Folhas (suplemento cultural do Público, distinguido recentemente com dezoito prémios da Society for News Design, relativos às edições de 2001), protagonizou em Outubro passado uma das mais interessantes estreias literárias dos últimos anos. O seu Este É o Meu Corpo (Temas & Debates), verdadeiro hino à transcendência da carne e do corpo, surpreendeu pela temática e vem confirmar que há em Portugal lugar para novos e bons autores, que o caminho não tem de ser obrigatoriamente encosta abaixo.

Encontramo-nos com Filipa Melo no alto do Bom Jesus de Braga, por alturas da sua visita à Feira do Livro daquela cidade. A entrevista, que constrangimentos vários ditavam que fosse breve, acabou, agradavelmente, por prolongar-se mais do que o previsto: as palavras soltaram-se, os temas diversificaram-se. Falou-se do livro, dos livros e não só. A maioria do que foi dito não está nestas páginas — razão pela qual ainda é melhor fazer entrevista do que lê-las. Mas leiam.

Como é que lhe surgiu a ideia deste romance?

Eu já tinha feito algumas entrevistas sobre a morte, nomeadamente num número especial da revista Ler dedicado ao tema. Fiz na altura uma entrevista com o Francisco Moita Flores, e tive uma conversa com um anátomo-patologista e com o Dr. Duarte Nuno Vieira, que é hoje em dia o Presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal. Era uma primeira abordagem às questões da morte e ao trabalho da Medicina Legal e da Anatomia Patológica, mas já há bastante tempo que me interessava pelo assunto, já tinha feito bastantes leituras sobre o tema — não há muita coisa escrita, há algumas coisas de Sociologia, há algumas reflexões na Suíça, Bélgica e França sobre as questões da morte, os cuidados paliativos e uma nova forma de encarar as doenças terminais.

Portanto, antes da ideia de escrever um livro de ficção houve a ideia de fazer uma espécie de guia dos vivos para a morte, que era uma investigação jornalística que tentava falar da morte nas suas várias vertentes — sociológica, antropológica, urbana, rural — e que seria uma recolha minha, mas à qual faltava uma personagem, ou seja, eu precisava, para unificar isso tudo, da personagem de um homem que se estivesse a aproximar da morte.

Então o artigo não era exclusivamente jornalístico...

Era entre o jornalístico e o ficcional. E então falei com o José Cardoso Pires — isto já foi há vários anos —, que se dispôs a funcionar como esse homem que ia equacionar os dados todos que eu recolhesse e reflectir sobre eles no final da sua vida. Entretanto o Cardoso Pires teve um primeiro AVC, depois vários AVCs, infelizmente, e escreve ele próprio o seu livro sobre a sua aproximação à morte (De Profundis, Valsa Lenta). E acabou por falecer.

Quando me convidaram para escrever este livro havia, portanto, estas coisas todas, que depois se foram transformar num livro de ficção.

No livro agradece o convite do João Alvim [administrador da Fundação Círculo de Leitores, proprietária da editora Temas & Debates]. Ele já tinha ideia das coisas que lhe iam na cabeça?

Não. Ele só tinha lido os meus textos na imprensa, e isso é algo que me honra imenso. Eu fui jornalista da Visão durante sete ou oito anos, mas simultaneamente sempre escrevi para outros sítios, entre eles para a Ler [revista pertencente à Fundação Círculo de Leitores], passei por uma série de jornais, fiz uma série de reportagens com registos diferentes. Foi a partir delas que o João Alvim achou que havia qualquer coisa na minha prosa jornalística que indiciava que eu pudesse escrever ficção, o que é um elogio óptimo. Mas esperneei muito antes de aceitar, porque eu achava que no jornalismo já tinha algumas provas dadas, mas na ficção não tinha nenhumas.

Bem, mas isso é a velha história: ninguém tem experiência até começar a tê-la...

Mas o que se passou comigo foi uma coisa absolutamente excepcional, atenção. Não tenho conhecimento de em Portugal haver outro caso em que uma editora pague avanço de direitos para patrocinar alguém numa estreia literária. E isso eu assumi como um encargo muito grande, havia uma responsabilidade muito grande em relação ao que ia sair — é por isso que eu digo que esperneei muito até aceitar. A boa recepção que teve este livro é óptima para mim, sinto-me muito bem com isso, mas é também muito boa como forma de recompensar o investimento que foi feito pela editora.

De que forma acha que os seus antecedentes jornalísticos influenciaram a sua escrita ficcional?

Eu acho que o jornalismo dá um enorme treino de contacto com as palavras. O jornalismo, quando é feito com atenção à forma, o que beneficia a transmissão da mensagem, pode resultar numa base para a ficção. Agora, o jornalismo é verdade e a ficção é mentira, o que faz com que não seja obrigatório que um bom jornalista seja um bom escritor. (Hoje em dia grande parte dos jornalistas acha que a partir do momento em que escrevem nos jornais é possível escreverem ficção...)

Bem, pessoalmente acho que muitos jornalistas nem bons escreventes são; o número de textos com uma qualidade deplorável tem aumentado muito, mesmo a nível do domínio mais básico da língua — não sei se é essa a sua opinião...

Há muito poucos revisores nos jornais. Basta dizer que na maior parte dos jornais por onde passei o contacto entre os gabinetes de revisão e as redacções é quase nulo. Ou seja, é possível neste momento um jornalista trabalhar durante anos numa casa, ter os seus textos revistos pelo gabinete de revisão e continuar a dar sempre o mesmo erro, porque não contacta com os revisores. Há uma parte de oficina de escrita que está muito esquecida nos jornais.

[...]

[Filipa Melo por João Francisco Vilhena]

Fotografia:
JOÃO FRANCISCO VILHENA

«A reflexão que me interessava fazer era a de uma forma de transcendência que é uma transcendência inevitável, e a afirmação que no livro se faz é que o que resta de nós quando morremos é a memória.»




«uma das irmãs [beneditinas] a certa altura perguntou, "Ah, está a escrever. E está a escrever sobre quê, é um romance de amor?" E eu disse, "Não, é um romance de morte."»




«A literatura "light" não choca com a literatura de excelência — mas também não é um degrau para. Coexistem. E quanto mais se lê dessa literatura — e ela é muito mal escrita —, mais se compromete a capacidade das pessoas.»

Falando agora do panorama literário nacional, como é que o vê actualmente?

Há duas coisas absolutamente distintas: há lógicas de mercado completamente novas e que estão a ser testadas — com todos os riscos e todas as desvantagens a curto prazo, mas eu acho que com vantagens a longo prazo — e há aquele plano do mercado relacionado com a invasão por parte de uma literatura "light", de venda mais fácil, que não existia em Portugal, e que tem a ver com novos exercícios de prática democrática da leitura, com o acesso das pessoas a géneros literários que lhe interessam ler, genuinamente. Mas como estamos numa fase de experiência, isso tem enormes desvantagens num mercado muito pequeno como é o mercado português: o boom dessa literatura de venda rápida, de grandes tiragens, retirou espaço a literaturas mais alternativas, desinvestiu-se noutra literatura.

Quando a Margarida Rebelo Pinto tem direito a cartazes na rua, mas não vemos cartazes com a Sophia de Mello Breyner, que está na fase final da sua vida, alguma coisa estranha se está a passar. O que não quer dizer que não seja legítimo a editora da Margarida Rebelo Pinto achar que é bom colar cartazes — a questão não é essa, a questão é que assistimos a uma concorrência desleal (eu acho que de facto é desleal) entre o investimento que é feito no mainstream, nas coisas de massa, e um desinvestimento na literatura de excelência, na literatura de excepção.

Por outro lado, aquilo que aconteceu com o meu livro é o contrário disto que eu estou a dizer. Foi possível uma editora investir num autor novo, enfim, aquilo que já falámos. E acho que há novos autores: o Pedro Rosa Mendes, o José Luís Peixoto, o Pedro Mexia, o José Mário Silva... há uma série de pessoas que está a fazer uma coisa que se pode chamar uma nova literatura, pelo menos no tempo, e que está a produzir. E há de repente uma enorme abertura da literatura portuguesa para o estrangeiro. De facto, o meu livro ir ser traduzido em Espanha e ter os direitos em tempo recorde vendidos para a Espanha e América Latina é quase uma ofensa para uma outra geração de escritores, que obviamente terão uma obra muito mais importante do que este livro, mas que não tiveram uma oportunidade. A Feira do Livro de Frankfurt, o Prémio Nobel permitiram isso, pois até aí Portugal era um país periférico, não tinha nem um pezinho lá fora. Depois a nível nacional não havia incentivo à tradução.

E também não temos sobre o Brasil o ascendente cultural que a Espanha tem sobre o resto da América Latina, bem pelo contrário...

Nem temos nas ex-colónias um desenvolvimento em termos de alfabetismo. O Português é uma língua que toda a gente quer muito viva nos PALOPs, mas veja-se como é que durante a colonização foi feita — não foi feita — a alfabetização daquela gente!

Há outra coisa de que acho que seria bom falar, que é o estado miserável em que estão os leitorados, o desinvestimento que tem sido feito nos leitorados portugueses. Os Leitores portugueses no estrangeiro — com pouquíssimo dinheiro, com pouquíssimo apoio, com o seu estatuto cada vez mais diminuído — fazem verdadeiros milagres a tentar divulgar a língua e a cultura portuguesas. Mas é extremamente difícil, porque nós não cimentámos a língua e a cultura nos estrangeiro.

Mas, de facto, a Feira do Livro [de Frankfurt], a atribuição do Prémio Nobel, o Salão de Paris, agora a Liber de Barcelona dedicada a Portugal — tudo isso foram coisas óptimas para nós. E existe um pouco da parte da comunidade internacional o «how exotic!», procurar o que seja «typical»... [risos] Mas não sabemos até quanto é que isso irá durar.

[...]

Entrevista completa na edição em papel...

[Capa de 'Este É o meu Corpo]