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Editorial

Orgulhosamente nós

 

Queremos ser famosos, queremos ganhar dinheiro. Nos próximos vinte anos queremos arrecadar pelo menos três prémios Nobel. Sinceramente. Entretanto, queremos redesenhar a estrutura urbana de Portugal, fazer de Vilarelho um centro. Para já, periferia é uma constatação, não uma desculpa. Uma aldeia periférica duma região periférica num país periférico. So what? A globalização tem vantagens.

Queremos ser lidos. Não somos nenhuma nova escola estética, não vimos fazer nenhuma revolução literária ou artística. Não somos a salvação de Portugal. No limite, pode-se questionar o que fazemos nós aqui. Mas não é essa a pergunta que todo o ser humano (bem, nem todos...) faz a si próprio alguma vez na vida?

Claro que para reforçar a pertinência do título procuraremos olhar de lado para as coisas. Chamar-lhes-emos periféricas por nos parecer que constituem uma espécie de debruado das grande multidões. Mesmo que por vezes nos enganem. Estamos cá para isso. Também.

A redacção da revista é em Trás-os-Montes e isso vai reflectir-se nas edições. Não tanto como os conterrâneos quereriam, certamente. É que nós e os conterrâneos (a maioria deles) discordamos em pontos importantes. Eles pensam que a salvação de Trás-os-Montes está na defesa da região. Nós pensamos que este Trás-os-Montes não tem salvação. Deve calçar as botas e partir à descoberta do mundo. Ainda assim, em momentos de fraqueza, haveremos de descobrir razões para lhe dar o gosto de sonhar. Mas sem abusos.

OK. Já sabemos a grande pergunta que assalta as luminárias que condescenderam em espreitar esta coisa: que viabilidade económica pode ter um projecto destes? Bem, comecem por tirar o sorrisinho paternalista da carinha laroca (ou do horrendo facies), que a resposta é simples: toda a viabilidade. Quem nos apoia é o Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho — não a Media Capital.

De qualquer modo, não prometemos ficar para sempre (isso era o que vocês queriam). Antes de aqui chegar já havíamos terminado uma outra revista só porque nos apeteceu. Verdade. Andámos quatro anos a vender aos transmontanos a ilusão de que era possível estar-se cá como se se estivesse em Nova York. (Está bem, não exageremos. Lisboa, pronto.) Muitos acreditaram, e estarão por aí, ao virar de uma esquina da Periférica. Os outros, pobres, desamparámo-los. A vida é madrasta. Do Eito Fora (chamava-se assim a finada revista) ficou o fantasma, assombrando um ou outro incauto na Internet (www.trasosmontes.com/eitofora).

Somos a Periférica, mas somos magnânimos com o centro. Não vamos fechar as portas aos famosos, coitados. Então, só porque alguém teve o azar de cair no goto duma ou outra multidão, ficaria impedido de escrever (ou desenhar, ou pintar a manta) nesta revista?!

Não. E já aí andam. Umas páginas à frente, convidado especial (ia dizer espacial) na rubrica "O Oitavo Passageiro", Rui Zink. Lá para o fim, encostado à secção mais descaradamente literária, colaborador permanente, o best seller (na Holanda) J. Rentes de Carvalho. Pelo meio Luigi Rocco, cartoonista brasileiro. E há alguns profissionais da coisa impressa, que embarcaram com nobreza nestas páginas esquisitas.

A geografia da Periférica é ilimitada. A redacção, já o dissemos, é em Trás-os-Montes, mas não haverá especiais favores aos transmontanos (quem pensam eles que são?) Quer dizer, há uns poucos deles, de vistas largas, que por nos darem tanto apoio (publicitário, por exemplo) e acreditarem tanto nesta viagem, terão de nós tudo o que quiserem. Tudo mesmo. Até a vida. Mas a regra é não existirem regras.

Nos próximos números, abriremos as portas a novas colaborações (neste, demos nós o mote) e não queremos saber onde embarcarão — queremos julgá-las, espumando, segundo os nossos superiores critérios. E, se sim, publicá-las-emos. Se não, fogueira. Cruéis como a vida.

A esta altura da prosápia, pergunta meio Portugal quem está por detrás desta revista... Respondemos: estamos nós. Orgulhosamente nós. Moscada.

[1ª versão da capa]

Capa (Take 1):
PAULO ARAÚJO

«Já sabemos a grande pergunta que assalta as luminárias que condescenderam em espreitar esta coisa: que viabilidade económica pode ter um projecto destes? Bem, comecem por tirar o sorrisinho paternalista da carinha laroca (ou do horrendo facies), que a resposta é simples: toda a viabilidade. Quem nos apoia é o Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho — não a Media Capital.»