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Quo Vadis?

como são, o que pensam e o que move algumas editoras de menor dimensão. periféricas, talvez.

Folheia-me com Frenesi

Questionário de Fernando Gouveia, Rui A. Araújo e Carlos Chaves

A ideia inicial deste questionário era espiolhar colectivamente a idiossincrasia de várias editoras aparentemente enquadráveis numa categoria similar. Compulsados os dados disponíveis das que seleccionámos para primeira leva, vacilámos na opinião. Talvez houvesse interesse em alargar o espaço individual. Só que o problema estava precisamente aí, na falta de espaço. (E também não se podia abusar da paciência dos leitores.) As respostas ao questionário dissiparam definitivamente as hesitações — haveria que tratar uma editora por edição da revista.

A sorte grande saiu à Frenesi. Teve honras de abertura da rubrica. Nas primeiras mesas do Café Nicola, trajando um sobretudo cinzento e montando guarda a um grosso volume de capas muito amarelas, estaria Paulo da Costa Domingos, editor da Frenesi. O volume era Marcas de Baton — Uma história secreta do século XX, de Greil Marcus, e o encontro destinava-se a conhecer melhor a editora para que a segunda parte do questionário tivesse as perguntas certas. Tentámo-las.

Quando foi fundada a editora? Que significado ou ideia subjaz ao logotipo da editora. E, já gora, como surge o nome?

A Frenesi teve rompimento inaugural em 1979, na altura ainda sob a forma de acção autónoma dentro de outra casa editora (& etc). 1991 marca a nossa ruptura com aquilo que começámos a descobrir ser má vizinhança. Pode encontrar-se o nome da nossa editora mergulhando numa leitura do início do século XX, a abertura da sexta das «Sete Canções de Declínio», de Mário de Sá-Carneiro: «Um frenesi hialino arrepiou / Pra sempre a minha carne e a minha vida, / Fui um barco de vela que parou / Em súbita baía adormecida... // Baía embandeirada de miragem, / Dormente de ópio, de cristal e anil, / Na ideia de um país de gaze e Abril, / Em duvidosa e tremulante imagem...» Por seu lado, o logotipo é em silhueta uma cabra alada da cultura persa dos séculos VI-IV a.C., a mesma cultura que nos legou esse apólogo do vinho, que foi Omar Khayyam... Se a inspiração em Sá-Carneiro, por si só, já remetia para o enviesamento da cultura de direita modernista, o uso desviado desse símbolo persa, agora feito gárgula luciferina subordinada à espiral do Tempo, anuncia o refrigério de um Catálogo de edições inconveniente e inconvencional.

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No catálogo têm nomes como Camilo Castelo Branco, Raul Brandão e outros aparentemente mais mainstream, entrecruzados com autores com outro tipo de catalogação. Quais os critérios que presidem à escolha das obras a publicar?

O programa editorial da Frenesi é uma emanação directa do desenvolvimento individual e das contingências vivenciais do seu editor (Paulo da Costa Domingos). Neste sentido, são iniludíveis os nexos a estabelecer com a obra pessoal do mesmo. Também neste sentido, nunca publicaríamos qualquer obra cujo teor nós próprios não partilhássemos. E só «aparentemente» (muito bem dito, na vossa inquirição) alguns autores passam por mainstream: porque mainstream foi a cultura seminarista, o galo de Barcelos, o marianismo, as touradas, a guerra colonial, a loiça das Caldas da Rainha, o fado, o hino nacional, a raça, a Mocidade Portuguesa, a Pide e a Legião, e, recentemente, o retorno a Fátima e ao futebol, as telenovelas... Homens como Camilo Castelo Branco, preso pelo menos duas vezes, ou Raul Brandão, um dos fundadores da Seara Nova, nunca participaram nessa procissão da "enxurrada principal".

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Na última página de Pantagruel, Rei dos Dípsodos colocaram um convite raro, «Participe da difusão das ideias», seguido de uma autorização ainda mais rara, «Este livro pode ser livremente fotocopiado». Insanidade momentânea, ou a (in)sanidade tem-se coerentemente mantido ao longo dos anos?

Por isso mesmo que disse na resposta anterior, entre as rupturas com que minámos o acesso ao nosso discurso e aos nossos saberes, encontra-se a livre-utilização, para efeitos de fotocopiagem, das obras por nós editadas. As ideias — assim como a generalidade da criação cultural — não devia andar à trela da propriedade intelectual privada. Lá dizia Brecht: «Tudo pertence a quem o melhore.»

Qual a principal dificuldade enfrentada por uma pequena editora?

Conquistar a simpatia dos intermediários que servem de ponte entre os autores e os seus destinatários, esta é a grande dificuldade do momento. O que vem sucedendo actualmente é do foro da censura intelectual, a coberto de esfarrapadas desculpas mercantis: há livreiros que nem aceitam ter nas suas lojas os livros de alguns editores, e dentro do catálogo dos editores aceitos, atrevem-se a filtrar, rejeitando a seu belo-prazer. Basta o editor acenar com algum título de teatro ou poesia; basta mesmo ser-se somente um "pequeno" editor... Temos provas de exemplos recentes, se necessário... Claro que se trata de um género de censura incomparável com as antigas rusgas da Pide às editoras em busca de obras não consentidas (obras não-mainstream, portanto)! Ou mesmo incomparável com o assalto da Polícia Judiciária à casa & etc, por mim presenciado a 7 de Julho de 1980, em pleno reino da AD, à procura de um livro que supostamente melindraria o bispo de Beja!

Como definiria o panorama editorial (actual e que se perspectiva) em Portugal? (Para editoras e livreiros em geral, e para as pequenas editoras em especial.)

É pantanoso o panorama, e é de concorrência selvagem. E está à beira de, de uma vez por todas, ter cortado com a cultura da humanidade, pondo as relações entre os seres vivos no plano da troca de serviços pagos. Hoje em dia um livreiro já nem necessita vender livros, basta-lhe ter rendas de aluguer dos escaparates e das montras a editores fixos...

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E a Frenesi, é uma editora "periférica"? Quer crescer? É possível crescer sem se desvirtuar? Ou consideram-se uma editora peterpânica?

Quanto a nós, na Frenesi, gostamos do sabor amargo do centro; e por isso sempre recusámos liminarmente qualquer empurrão para dentro da fossa masoquista dessa coisa que muitos gostam de designar por "margem". Basta ter um punhado de saberes para de pronto concluir que não existe margem nas economias de mercado. Não seja isto indício de vontade de crescimento! Por alguma triste razão se diz que «quanto maior a nau, maior é a tormenta». A maximização de um efeito despendendo o mínimo de recursos e de exposição exige certa ciência. O nosso crescimento está sob cálculo e sob vigilância, até porque as prioridades de aplicação de energias são livro a livro, autor a autor; o que se reflecte, por exemplo, na execução gráfica de cada título por nós editado, onde as capas não são o empacotamento com fins promocionais do interior, mas a extensão visual do universo literário dos respectivos autores. Seríamos incapazes de "pôr no mercado" uma capa florida que se assemelhasse a um toalhete de bidé somente para atrair um público de hipermercearia.

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[Capas de livros da Frenesi]

Questionário completo na edição em papel...

[Logotipo da Frenesi]

«É pantanoso o panorama, e é de concorrência selvagem. E está à beira de, de uma vez por todas, ter cortado com a cultura da humanidade, pondo as relações entre os seres vivos no plano da troca de serviços pagos. Hoje em dia um livreiro já nem necessita vender livros, basta-lhe ter rendas de aluguer dos escaparates e das montras a editores fixos...»