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Por quem os sinos dobram

Revista K

Texto de Rui Ângelo Araújo

Os sinos dobram pelo país em geral e por Trás-os-Montes em particular. Do país encarregamo-nos noutras secções. Nesta rubrica, hoje, fala-se de Trás-os-Montes — mas chora-se a revista K.

Tudo começou numa visita ao sótão. À procura de umas sapatilhas de jogging (perdidas há séculos, como a minha silhueta o prova), dei comigo a folhear um exemplar de Setembro de 91 da extinta revista K. Depois de um perfil de Cavaco Silva, traçado por Maria Filomena Mónica (um bom complemento para aqueles que tiveram o amor desmedido e a infinita paciência de lhe ler a recente autobiografia), fixei-me no "consultório" de Vasco Pulido Valente. Naquelas páginas de boa memória, Pulido Valente respondia a «namorados com sexo de gnomo», a «dúvidas entre o só e o mal acompanhado», a «cartas inenarráveis», a «brincalhões que provocam bocejos» e a «transmontanos indignados». Tremi de emoção. «Transmontanos indignados»? Que transmontanos abordariam com indignação aquela revista? Que coisa traria os transmontanos indignados naquele Setembro de 91? A resposta a estas dúvidas estava no texto de um tal João Vaz, vila-realense de 17 (dezassete!) anos. Anunciava o rapaz (agora não o será tanto) que a K tinha «alguma aceitação entre pessoas mais progressistas» em Vila Real e que «o número de leitores entre jovens» tinha aumentado. «Mas», lamentava, «em geral há uma recessão na procura». E o que havia despoletado essa «recessão»?

A revista K foi o melhor projecto de imprensa (?) que tive oportunidade de conhecer desde que retirei a exclusividade de atenção à banda desenhada e à ficção científica. Fundada e dirigida por Miguel Esteves Cardoso, por ela passaram muitos jornalistas e escritores (e não só) que hoje se espalham pela imprensa e livrarias nacionais. Os já referidos Vasco Pulido Valente e Maria Filomena Mónica, Rui Zink, Pedro Rolo Duarte (actual editor do DNA), o transmontano Hermínio Monteiro (falecido editor da Assírio & Alvim), Nuno Rogeiro, Constança Cunha e Sá, Eduardo Cintra Torres, Agustina Bessa-Luís, Rui Vieira Nery e Leonardo Vaz de Carvalho.

A revista durou apenas três anos, mas marcou de forma indelével o panorama nacional e influenciou muita da imprensa que lhe sucedeu. Irreverente, bem disposta, inteligente, culta, louca, ousada, inovadora, iconoclasta... Podia encher o texto de merecidos adjectivos, mas devo voltar à «indignação» dos transmontanos.

Em resposta a uma carta anterior, de um outro vila-realense, Vasco Pulido Valente tinha, parece, protestado «contra o papel de "vítimas" predestinadas que os habitantes de Vila Real ou de Mougadouro [sic] tendem automaticamente a tomar». A "vitimização", pelo que entendi, devia-se ao facto de na K se falar muito no Kremlim, no Pap'açorda e na Loja das Meias e, presumo, pouco na Ritmin, no Espadeiro e nas lojas da Rua Direita. João Vaz, que concordava com o seu conterrâneo, convidava o «Senhor» (que no caso era Vasco Pulido Valente) a fazer um «"raid" cultural a Trás-os-Montes», porque, pelos vistos, por cá também havia «pessoas inteligentes», «músicos», «pintores», «escritores» e «pseudo-intelectuais [sic]». No cume da indignação, exigia que a revista deixasse de «dar tempo de antena a um bando de presunçosos» e procurasse pessoas «que valham a pena». Não consta que a revista o tenha feito. Ou, se o fez, não encontrou a fauna de que falava João Vaz. Azar. A K acabou um ano e pouco depois, talvez pela «recessão na procura» em Vila Real.

Mas, antes disso, tinha ficado no ar um convite de Vasco Pulido Valente: «Não vale a pena queixar-se de que Trás-os-Montes não aparece no mapa da K com a desejável frequência. O que vale a pena é pôr Trás-os-Montes no mapa da K (ou de outra revista qualquer). E isso não nos podem pedir a nós. Evidentemente.»

(Onze anos depois daquelas cartas, quantas páginas ocuparia Trás-os-Montes se a K ainda existisse?)

Agora que iniciamos a Periférica, assusta-nos a ideia da «recessão». O que nos acontecerá se também nós não encontrarmos as maravilhas de que falavam os «indignados» transmontanos?

Neste número da Periférica, os sinos dobram pela revista K, que se finou há nove anos, para mal de todos nós. Tememos que ainda não seja desta que soe a finados pelas «"vítimas" predestinadas» de Vila Real ou Mogadouro...

[Algumas capas da revista K]

«Agora que iniciamos a Periférica, assusta-nos a ideia da "recessão". O que nos acontecerá se também nós não encontrarmos as maravilhas de que falavam os "indignados" transmontanos?»