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Pulp Fiction |
Avenida da LiberdadeConto de Vítor NogueiraHá muito boa gente que pendura nas orelhas um artificial sorriso. Não tenho nada a opor. É sabido que o sorriso, como o bocejo, contagia. A alegria é um privilégio que se chega a encontrar num simples abraço ou nas primeiras notas duma melodia de piano. Mas aprendi em tempos que, para renascer inteiramente, é obrigatório atravessar em corrida louca, de olhos fechados, a Avenida da Liberdade. Vi um mendigo fazê-lo, um dia, sentando-se depois a meu lado. Confessou-me que o tentava frequentemente. E sentia-se renascido no final da aventura, ao atingir o passeio do lado oposto, envolto em colossal sinfonia de buzinas. É uma verdade irrefutável, essa de as pessoas terem forçosamente de colorir as suas vidas. É pena não ter reencontrado o mendigo, das últimas vezes que fui a Lisboa. Mas creio que simplesmente procurou outra paragem, e portanto que continua vivo e livre, tão livre que nem a liberdade da avenida toda o tenha satisfeito. De resto, é na grande cidade que gosto de me sentir pequeno. Em homenagem ao mendigo, volta e meia subo clandestinamente aos mais altos andares dos edifícios de escritórios de grandes empresas, até que alguém me estranhe suficientemente e questione a minha presença. Nessas alturas, regra geral, finjo-me confuso; e desço, de regresso à rua. O certo é que não tenho a coragem do mendigo da Avenida da Liberdade. De maneira que me limito a aplicar, em seguros arranha-céus de companhias multinacionais, o que aprendi com esse mestre inesperado que por momentos partilhou comigo um banco de jardim. A excelência da perfeita liberdade, a arte do desprendimento universal, é hipótese que continua em aberto
na avenida a que ela própria, a liberdade, emprestou o nome. Infelizmente é luxo que me está vedado,
certinha como sempre foi a minha vida.
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