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Pulp Fiction |
A arca do NoéConto de Rui Ângelo AraújoO homem está sentado num cadeirão de madeira a olhar as gotas que vão caindo nos baldes, alguidares e bacias (as coisas do costume) que dispôs, com o rigor milimétrico que a imponderabilidade das infiltrações permite, na cave semiobscura que lhe serve de gabinete, de biblioteca e já saberemos de que mais. O som ritmado das pingas e a regularidade cíclica dos círculos excêntricos que elas provocam após a queda nos recipientes estão em sintonia com a cadência quase monótona da peça que se ouve nas colunas da aparelhagem, que o ladeiam como acólitos na missa. Parece-me ver-lhe um sorriso irónico nos lábios secos, com cieiro, mas pode bem ser a minha vontade de o fazer sarcástico a antepor-se à definição da personagem. Enquanto isso não sucede (a definição da personagem), deleito-me a olhar, ora as gotas caindo nos baldes, ora o sorriso irónico do homem sentado num cadeirão de madeira, acolitado por duas colunas de som. Deleito-me a imaginar que a historia podia ser só esta: a de um homem que observa o gotejar dum tecto de pedras envelhecidas sobre meia dúzia de recipientes em latão ou plástico, dispostos milimetricamente num chão de lajes de granito, ouvindo uma qualquer orquestra tocar Tchaikovsky, ou outro que esteja mais de acordo com a cadência monótona. Mas a história, se for capaz de a inventar, continua pela paradoxal existência de um aparelho de ar condicionado, com comando remoto, sobranceiro a uma estufa a lenha feita da metade inferior de uma botija de gás, e pela paradoxal existência de uma mastodôntica impressora a laser de impressão múltipla, lado a lado com uma esquisita máquina impressora a pedal, daquelas que as antigas tipografias usavam para imprimir cartões de visita, «António de Sousa Melo, gerente bancário», «Condessa de Sá e Cunha, recebedora profissional». Nas traseiras do cadeirão de madeira, encostada à parede de granito da cave mal iluminada, enchendo toda a parede, fica uma sequência de prateleiras metálicas modelo Kit Market recheadas de livros. Ensaio, ficção, prosa, poesia, prosa poética, todas as combinações de criação literária conhecidas estão ali representadas, e quase ia dizer que todos os autores ali figuram, se não me lembrasse que tinha decidido ser o homem sentado no cadeirão pessoa criteriosa. O mesmo é dizer que alguns autores ficaram de fora da escolha. Se virarmos o olhar, vemos que na parede oposta outras prateleiras existem, mas estas não têm livros nelas, pelo menos na forma que os livros costumam ter. Ali repousam originais em CD e disquete. Os recipientes que aparam a água vão-se enchendo, e não tarda o homem vai ter que os despejar na latrina se quiser evitar transbordações. Mas para já ainda se mantém a olhar as gotas caindo. Na sua quietude parece habitar uma personagem de Manoel de Oliveira, com tudo o que de exasperação aqueles seres contêm. E este escrito, se não quiser ser confundido com um script do citado autor, terá que avançar para a ideia seguinte, a do dilúvio. Está chovendo torrencialmente lá fora. Aqui, na cave, ouvem-se as bátegas no postigo junto ao tecto, ou rente ao passeio, se o leitor for um daqueles que vão correndo na rua amedrontados com o aluvião. O dilúvio estava anunciado na rádio e na TV (já não há profetas de carne e osso), e o homem logo correu à cave, como Noé à arca, disposto a seleccionar aos pares os espécimes que gostaria de salvar: prosa e poesia, romantismo e realismo, surrealismo e neo-realismo, impressionismo, existencialismo, dadaísmo, niilismo, Almada e Dantas, Antunes e Saramago, grrr. A cave é local de todas as incompatibilidades, mas foi fácil administrá-las em tempos de bonança. Bastava organizar as prateleiras por épocas, estilos, nomes. Agora que o juízo final se aproxima e outra selecção se impõe, mais minuciosa, deixou-se cair o homem no cadeirão de madeira a observar as pingas pingando, ping, ping, ping. Para ali está a pensar na morte da bezerra, ou antes, que é a mesma coisa, a pensar na selecção. A pensar que mais vale ser Darwin que Deus. A pensar que conflitos morais teriam assaltado Noé. A pensar que o dilúvio que teme não é o da chuva torrencial que cai lá fora e se infiltra cá dentro pelo chão da arcada, que é o seu tecto, enchendo baldes, bacias e alguidares. A pensar. Por isso o seu sorriso irónico. O Tchaikovsky interrompe-se e o homem fica sério. A chuva continua, mas ele não a ouve. O olhar desvia-se dos baldes para a porta que lhe fica à esquerda e dá para a escadaria que conduz ao piso térreo. Adivinha a porta a abrir-se de rompante, três homens de aspecto vulgar a entrarem, um deles a dizer com voz impessoal: — Estamos aqui em nome do Povo e da Democracia. Mas não se concretizou a adivinhação, e por isso nada diz o homem. O seu semblante nada trai. Os braços repousam nos braços do cadeirão, as costas no espaldar, as pernas mantêm-se cruzadas, um pé no ar, a meia preta à vista, os olhos na porta ainda fechada. Lá fora, a chuva redobra de intensidade. Ou não redobra, ele é que deu de novo pela sua existência. Noé (eu te baptizo) pensa, ou eu por ele, que é tempo de fazer alguma coisa, pegar nalguns livros à sorte, metê-los num saco. A impressora não a pode levar, mas alguns CD e disquetes sim. Pensa de que servirão os CD e as disquetes se ninguém imprimir o que eles contêm, se nenhum computador os ler (os computadores também lêem, talvez só eles). Noé tem barba branca e cabelos da mesma cor precoce. Não tem mais de quarenta anos. Magro, alto, vestido de negro, a cor da indumentária dos poetas e dos viúvos (são a mesma coisa os poetas e os viúvos, só que os viúvos sabem que perderam o cônjuge, os poetas não sabem o que perderam). Os olhos são de um negro ainda mais breu, tristes mas acutilantes. Fecha-os. Abre um saco. O saco é de viagem. A literatura que mete lá dentro é variada. A selecção é do acaso, não da natureza, não do homem. Ainda não vi nenhum livro de viagens, mas agora que entram no saco são-no todos (não o seriam já?). Os livros vão caindo no saco, um a um. Há dois que se empurram, «eu primeiro!». Caem juntos Saramago e Antunes e o homem fica com um saco de gatos nas mãos, fsssst. Fica de saco cheio. Dirige-se Noé à prateleira dos CD (afinal ainda não estava o saco cheio, faltam as bolsas laterais). Aqui tem menos horror à escolha, é a vez dos originais e estes já os classificara: «dispensável», «desinteressante», «a publicar», «a ver vamos», «bom». Estas são as etiquetas do editor. Noé. Sinto algum remorso em abandonar a cave (o Manoel de Oliveira não o faria tão cedo), mas já o homem sobe as escadas de granito, já caminha sob as arcadas abrigado da chuva, já choca com alguém que vem em sentido inverso, perdão, já ficou a olhá-lo sem motivo, já descem a escada três homens de aspecto vulgar, o resto já sabemos. Não está ninguém que lhes ouça o discurso e por isso poupam-no. As personagens não dialogam com o autor, acho. Pelo sim pelo não, vou andando também eu, não posso deixar Noé eternamente a olhar as costas do transeunte, que em algum momento há-de dobrar uma esquina ou perder-se na escuridão da noite. Talvez volte mais tarde à cave. Ou talvez não, ainda não sei o rumo da história. [...] Conto completo na edição em papel... |
«Noé tem barba branca e cabelos da mesma cor precoce. Não tem mais de quarenta anos. Magro, alto, vestido de negro, a cor da indumentária dos poetas e dos viúvos (são a mesma coisa os poetas e os viúvos, só que os viúvos sabem que perderam o cônjuge, os poetas não sabem o que perderam). Os olhos são de um negro ainda mais breu, tristes mas acutilantes.» |