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Pulp Fiction |
Falas do faloConto de Maria FilomenaA nota de abertura da sessão apontou a importância do tamanho. Não como é publicitado nos sex shops, nem como vem nas entrelinhas dos estudos comparativos publicados em revistas, nem tão-pouco na pobreza do anedotário decadente. O tamanho importa menos para os possuidores do objecto em análise do que para as/os usufruidores do mesmo.. Assim, com base nos fogosos debates trocados, concluiu-se que o tamanho importa porque há quem delire com os mais pequenos, quem rijamente defenda os médios e quem mencione os grandes com sofreguidão e brilho nos olhos. E a questão não é de pormenor. De pormenor foram as descrições das preferências, como a importância decisiva do ângulo, do perímetro e da curvatura, ao que se acrescentou a variação prepucial. O formato também foi digno de nota, porém, os registos ficaram-se pelo cilíndrico, o cónico e o cogumelo. Sublinhou-se a indispensável, a substancial firmeza. Estipulou-se que com os devidos rodeios se pedisse licença aos menos dotados nesta matéria, mas que era absolutamente necessário declarar que vigor é fundamental. É o pilar, a causa primeira, a condição sine qua non, potência do acto. Relativamente à cor, não se falou do que se aprecia, mas do que se desprecia. Entusiastas dos meridionais apontaram como primeiro impedimento de trato íntimo com um louro os tons de uma glande rósea. Por sua vez, as incondicionais dos tipos nórdicos marcaram a sua posição ao enjeitar o castanho escuro-arroxeado dos morenos por lhes causar repúdios inexplicáveis. Diga-se, contudo, que foram mais as vozes a considerar a questão bastante secundária. Chegada a vez do sabor, pacificaram-se as razões que giravam em torno de subtilezas. Se apenas divergentes nas suaves nuances, convergiam em catalogá-lo pelo efeito. E assim se incluiu no rol das substâncias que, pelo elevado grau de gozo que propiciam, são susceptíveis de levar quem as prova à dependência. Houve insuspeitos testemunhos de necessidades de doses mais que diárias. Ficou decidido que constassem o espanto e o respeito causados pela misteriosa combinação entre o sabor e a mudança do estado desanimado para o animus maximus. Aqui, a discussão aqueceu por estarem em causa gostos muito pessoais, e a certa altura, derramavam-se interjeições e exaltavam-se gestos muito expressivos. Nomearam-se também as misérias e houve uma petição para que constassem lado a lado das glórias, embora garantidamente a salvo das habituais galhardias destas. Concluiu-se, então, que as incapacidades preocupantes não se chamavam apenas impotência ou ejaculação precoce, pelo que, havia que adicionar à lista negra nomes e adjectivações que expusessem a variedade do descontentamento das presentes. A ignorância das partes parceiras vinha à cabeça das queixas. Desastrados, distraídos, imperícia táctil, de parcos recursos imaginativos, imperfeitos na pontaria, convencidos, dados a desalentos imprevisíveis — foram os defeitos de maior envergadura.
Era já dada por encerrada a discussão, quando uma participante pediu uma intervenção oral. Queria apenas manifestar-se a favor da sessão anterior que a levara a olhar o mundo sob novas perspectivas, actividade a que se dedicava ciosamente. Então, contou como se demorava, olhando com olhos devassos o objecto de interesse, que preferia numeroso. E isto várias vezes por dia. Era uma nova posição sobre a apatia do metro, a rotina no gabinete de trabalho, a melancolia das esplanadas ao entardecer. Como só podia basear-se nas aparências e avisada que era em relação às falácias que podem encobrir, entregava-se a adivinhar palpitações e à minuciosa inventariação dos imaginados perfis individuais. Incapaz de se controlar, deixou que a volúpia descritiva contagiasse a assistência. Era um começo. As sessões viriam a revelar-se de sumo interesse para a afinação dos instrumentos
do deleite, afinal apenas mais um modo de atiçar antigos prazeres. Da fala e do falo.
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Ilustração: «Era um começo. As sessões viriam a revelar-se de sumo proveito para a afinação dos instrumentos do deleite, afinal apenas mais um modo de atiçar antigos prazeres. Da fala e do falo.» |