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A Oeste nada de novo

Os desprezados

O diagnóstico do mal português está feito. A várias mãos, em várias colunas de imprensa, diferindo em nuances — mas consensual na essência. É cruel, para ser verdadeiro.

[Recorte: Vasco Pulido Valente]

Com as crónicas de Vasco Pulido Valente no DN à cabeça, há um leque razoável de analistas a pensar com inteligência a nação. Ideologias à parte, todos concordam num retrato pouco abonatório dos caminhos trilhados. No entanto, não se nota que o país tire alguma vantagem das análises feitas.

A nação e uma classe política que a representa fidelissimamente não querem saber dos analistas para nada. Abominam mesmo a "arrogância" dos senhores. Proponham eles as "cem medidas para salvar o país" que se fará exactamente o contrário. Desçam eles ao entendimento do "povo", partilhem da sua sardinha na brasa, auscultem-lhe os anseios, e merecerão atenção. As televisões e os políticos sabem-no bem.

Resulta, por isso, fácil perceber que a reforma de Portugal — se tal milagre vier a acontecer — não será para o povo. Será apesar do povo. RAA

Por cá, na terrinha I (para que não se diga ser a Periférica uma revista completamente apátrida)

Em Vila Pouca de Aguiar decorreu durante dez dias de Fevereiro um ciclo de cinema suíço. A coisa teve o apoio da Câmara local, mas nem por isso mereceu que o executivo, recentemente eleito, se dignasse emprestar a sua presença ao evento. Isto pouco depois de o mesmo executivo se haver empenhado com ardor num "encontro de cantadores de janeiras"... Não, não fica só a suspeita sobre a "sensibilidade" cultural dos senhores. Da soma dos dois eventos fica indiciado um manifesto de intenções culturais. Mas não foi só a vereação (e a oposição, já agora) que primou pela ausência. Salvo as excepções do costume (tão poucas que as podia nomear sem exceder os limites de espaço do comentário), e uma ou outra visita de fora, toda a vila ignorou o evento. E não foi por falta de publicitação ou pelo preço dos bilhetes — o ciclo era à borla, claro.

A mocidade também assobiou para o lado. A mocidade, coitada, costuma dizer que aqui não se passa nada. "Aqui" são as suas pueris cabecinhas, e o manifesto é a sua resistência à novidade, ao menos óbvio.

É certo que alguns dos filmes e dos documentários nem eram grande coisa (vários foram excelentes), mas será que esta gente já nem curiosidade tem?

(Não me venham dizer que é assim em todo o país. A não ser que também acreditem que a estupidez se propaga por contágio de proximidade...) RAA

[Imagem de um dos filmes suíços]

O "Santa Maria" no Alqueva...
... ou Falta cumprir-se Portugal

O cenário:
Lisboa, capital de um Império em desagregação, 1961...
... ou algures no Alentejo, região periférica das ruínas de um Império, 2002.

A situação:
Uma manifestação "espontânea" em frente à Assembleia Nacional...
... ou um cartaz "espontâneo" à beira de uma qualquer estrada.

A mensagem:
"Temos o "Santa Maria" entre nós. Obrigado, Portugueses."...
... ou "Obrigado, Guterres. Cumpriste Alqueva."

A conclusão:
Tanto tempo que passou e tão pouco que mudámos...
... ou tanto tempo que passou e tão pouco que mudámos. FG

[Imagem do site www.assinar.net]

Manifestamente de mais

2002 promete ser o ano dos manifestos (só não há quem reforme o do PC — que não lhes deixam).

Há, pois, manifestos para todos os gostos (alguns diriam que há um para cada caderno do Público...): ele é o da Economia, ele é o da Associação Nacional de Farmácias, ele é o da Educação (online em http://www.assinar.net). Neste momento interessa-nos apenas este último (que toca a rebate contra o estado comatoso daquela). Foi lançado em Fevereiro, com os seus promotores a preverem a adesão de 5.000 subscritores: em coisa de um mês reuniu mais de 15.000.

Um sinal de esperança para a Educação em Portugal? Temo que, infelizmente, não. Fossem eles dez e talvez se avançasse em alguma coisa; mas quando 15.000 estão de acordo sobre algo que é preciso fazer, todos se consideram parte dos 14.990 que esperam pela iniciativa dos outros dez. FG

Sinceridade

Comovedora a sinceridade de um slogan na campanha eleitoral, trovejado num altifalante: "As maiorias só gerem a corrupção"...

Está já ultrapassada a fase em que as maiorias (ou quem quer que fosse) geravam corrupção. A corrupção, que há já muito foi criada, actualmente só é gerida. E, claro, quem a gere são as maiorias, em exclusividade de funções. Haverá outro povo capaz de confessar aos berros num altifalante a sua ocupação maioritária? RAA

Por cá, na terrinha II

Está na moda fazer obras de renovação urbana sem respeitar o património vegetal existente. Renovam-se praças e avenidas e abatem-se, antes de tudo, as árvores. Nem sequer é por um qualquer imperativo evidente e incontornável de ordenamento do espaço: é apenas por renovação estética. Sim, porque a corrente em voga são os lajeados de granito expostos à canícula do Verão. O espírito "reformista" não se compadece com a possibilidade de adaptar as veleidades transformadoras à flora existente. A palavra de ordem é arrasar o "mato" dos jardins.

OK, há, num ou noutro caso, a explicação duvidosa e mal sustentada de que as árvores estavam podres e iriam precisar de ser abatidas de qualquer dos modos. Mas a verdade é que, terminadas as obras, ou não há replantação, ou a quantidade de árvores é bastante menor do que no início. E adultas só daqui a longos anos. (Entretanto as insolações ficam por conta dos reformadores?)

Renovações deste cariz, longe de serem prioridades locais, não passam de caprichos arquitectónicos de quem tem um entendimento novo-riquista de desenvolvimento. RAA

Bispo a céu aberto

Já o conhecia de outros carnavais, pelo que não fiquei verdadeiramente admirado quando, na TVI, o Bispo de Viseu "denunciou" a existência de eutanásia em Portugal, relacionando-a com planos dos familiares para arrecadar a herança e despachar o empecilho. Que um alto prelado da Igreja Católica não saiba a diferença entre eutanásia e homicídio já não surpreende — a escada eclesiástica sobe-se com fé e obediência, não tanto com discernimento, potencialmente contraproducente.

E também não é surpresa nenhuma um telejornal desperdiçar tempo de antena com enormidades (ou menoridades) destas. Não é surpresa, mas entristece — dá mau ambiente. Anda um ministro a encerrar lixeiras por esse país fora (na Quercus já se perfila uma campanha de defesa das moscas em perigo de extinção, coitadas...), anda por aí um ministro atarefado, dizia, e para quê? Para que o cidadão comum, inadvertidamente, ligue a televisão e lhe entre pela sala adentro, por via hertziana, a poluição intelectual e moral na forma de um bispo a céu aberto... FG

Uma pouca-vergonha

Políticos insígnes, críticos respeitados e professores eméritos queixam-se dos baixos índices de leitura dos portugueses. Avançam resultados de inquéritos e opiniões que confirmam a desgraça. Mas na verdade nunca se editou tanto como agora. As livrarias com um movimento que já não se via, os carrinhos dos hipermercados misturando leituras com salsichas, as compras online a crescerem. E nem só por causa das obras da madame Pinto. Ou por via dos manuais de boas-maneiras, das memórias de Aníbal, das receitas do chefe Silva. A maioria dos leitores simplesmente não lê o que essas pessoas gostariam que lesse. Atiram-se, imaginem, à leitura daquilo que muito bem lhe apetece! Sem esperar pelo reconhecimento das autoridades, a consagração da crítica, a sublime apoteose da acedemia. Uma pouca-vergonha. RB

Euro versus Euro

Depois de termos abandonado o escudo e acolhido o euro (€) com um europeísmo fulgurante, vêm agora os srs. presidentes dos clubes de futebol pedir-nos que tratemos o Euro (2004) como um questão patriótica. Os senhores, e aqueles que os apoiam, deliram. Então um país que abdica alegremente da sua moeda em prol do fortalecimento de uma união vai agora andar em ânsias patrióticas com a porcaria de uns estádios de futebol?... Vai. Pelos vistos, vai. A estupidez não tem limites.

O mais confrangedor nem é ver esta avantesma boçal e caprichosa (de que o futebol é só uma das facetas) subverter a lógica dos interesses nacionais. O mais confrangedor é que haja no país gente supostamente inteligente a defender aberrações da razão como esta. O que nos obriga, no mínimo, a rever profundamente o conceito de inteligência. Ou a emigrar. RAA

A ilusão de Dezembro

Face a uma ou outra surpresa nas eleições autárquicas de Dezembro, tornou-se voz corrente dizer que o povo português acordou e resolveu dar um aviso ao governo. É falso. Não é à força de muito se desejar que os portugueses mudam. As eleições de Março estão a dar o sinal que os tempos seguintes hão-de confirmar. Portugal não mudou. A megalomania, o despesismo, a parolice, a boçalidade, o oportunismo, a corrupção e o chico-espertismo são características demasiado enraizadas no Portugal recente (digamos, desde o fim dos descobrimentos).

Para lá das ilusões, a educação, a saúde, a justiça, a exigência, o rigor, a competência e esquisitices afins ficarão de novo esquecidas após a tomada de posse do novo governo. CC

Por cá, na terrinha III (desta vez para dizer bem)

Numa região cada vez mais avessa às artes menos "populares", o aparecimento de um novo grupo de teatro é coisa de registar. Glória de Sousa, Fábio Timor, João Paulo Miranda, Levy Leonido, Paulo Vaz de Carvalho e João Estrócio, formaram uma nova companhia, a URZE. Vila Pouca de Aguiar e Sabrosa partilham-na. Espera-se que a nova companhia traga também ideias novas para complementar a estafada estética da Filandorra. A região precisa de muito mais do que de Gil Vicente.

Entretanto na UTAD decorrem workshops com intuito de renovar e retomar as actividades do TUTRA, Teatro Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro. Raramente foram notórias as actividades deste grupo. Com interrupções e um pequeno número de representações, não tem marca indelével. Aparentemente, há um novo fôlego, apesar da crise financeira das universidades. Não vai ser fácil substituir a ideia de que a exclusividade do empenho dos alunos da UTAD vai para a cerveja. Mas vale a pena tentar. CC