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Periférica:

para Ler Devagar

Texto de apresentação do n.º 2 (Livraria Ler Devagar, Lisboa, 06/09/2002)

Vir a Lisboa apresentar a Periférica não é a actualização da máxima «Se Maomé não vai à Montanha, vem a montanha a Maomé», por mais mouros que aqui haja ou ressonâncias serranas em Trás-os-Montes.

Só vimos aqui para que o país se vá habituando à nossa presença. Não se trata apenas de apregoar as virtudes da revista, mas de encetar novas possibilidades nacionais. A de um país ao contrário, por exemplo: a capital de olho na província. Temos motivos bastante humildes, portanto.


As razões principais que nos levam a fazer a revista e a procurar impô-la ao país vêm referidas no editorial desta edição (que não vou ler, descansem). Mas há outras razões, mais inconfessáveis. Desde logo o glamour de estar aqui a apresentá-la. Depois, a oportunidade de mostrar o nosso incomensurável talento e desfrutar a subsequente glória. Por último, a possibilidade de ganhar uns trocos e beber uns copos. (Claro que também vos proporcionamos o gozo — injustificado!... — de nos acharem pretensiosos e imodestos e por isso não nos lerem. O que vos poupa trabalho.)


Vilarelho — que é o lugar onde habita a Periférica — existe. Mas é acima de tudo um local metafórico. Não se trata de uma nova Utopia, mas de uma simples metáfora que nos permite dar um carácter à revista. É a metáfora que nos possibilita slogans chiques do tipo: «Em Vilarelho como em Nova Iorque»; ou «De Vilarelho para o mundo»; ou ainda «Vilarelho, aldeia global».

Se fizéssemos a revista em Lisboa, esta nossa apologia da globalização seria redundante ou pindérica. Assim é glamorosa.

E tem razão de ser. Do total de pessoas que fizeram o número dois da Periférica, 16% são estrangeiras, 8% são portugueses que vivem no estrangeiro e 36% não vivem em Trás-os-Montes. (Ah, e 4% receberam o Prémio Nobel...). Transmontanos são uma minoria.


A Periférica é, com certeza, uma revista egocêntrica (Egoísta é a outra). Preocupa-a a visibilidade. Quer dar nas vistas. Só assim alcança o seu objectivo sério. Que se sobrepõe, como é evidente, ao folclore narcisista que cultiva. E o objectivo sério é ao mesmo tempo humilde e pretensioso: um contributo na resistência contra a iliteracia e a alegre pobreza de espírito. Só isso.

[capa do n.º 2]

Capa:
PAULO ARAÚJO

«A Periférica é, com certeza, uma revista egocêntrica (Egoísta é a outra). Preocupa-a a visibilidade. Quer dar nas vistas. Só assim alcança o seu objectivo sério. Que se sobrepõe, como é evidente, ao folclore narcisista que cultiva.»