O pior de Portugal

Um dia fui convidado a participar num encontro nacional de «imprensa académica» e confrontei-me com uma realidade que, até aí, desconhecia: o número de revistas, jornais e fanzines editados por Universidades em todo o país. Eram publicações produzidas por amadores, mas que se esforçavam por ter qualidade, interesse, sentido. Impressionou-me a dedicação — especialmente quando vinha de estudantes de áreas distantes do jornalismo, como a medicina ou a engenharia — e uma incessante vontade de fazer bem, de aprende, de criar aquelas edições como se de filhos se tratassem. Algumas dessas publicações — como os «Fazedores de Letras» — subsistem e mantêm patamares de qualidade superior. Esse encontro pacificou-me com as gerações que aí vêm.

Paralelamente, os anos foram-me confrontando com um outro «nicho» de mercado de revistas chamadas «marginais», que se vendem só em alguns lugares, que se alimentam das idiossincrasias de quem as produz, e que resistem sabe-se lá como. E aí, lá se foi a serenidade...

São produtos feitos como se fossem profissionais, mas onde o amadorismo constitui a regra. E é de um desses casos que vos falo. Uma coisa chamada «Periférica», que sai de vez em quando e vem lá de Vila Pouca de Aguiar.

Se a ela me dedico, não é por me incomodar a sua existência, mas por encontrar nesse conjunto de páginas um pouco do pior que Portugal pode ter — e infelizmente tem, dentro de si, enraizado, impedindo o passo em frente: a inveja, a arrogância, o despeito, a ignorância. Uma mistura explosiva que mata qualquer sonho de um país melhor. É triste encontrar tudo isso numa pretensa revista.

A «Periférica», nas suas 70 páginas, «tem a mania». Que é moderna no estilo, na imagem, no grafismo, no conteúdo. Mas não é. É antiga como o Portugal mais antigo e salazarento que podemos encontrar: tem um design pobre, amador, básico, fotografias de parca qualidade, nenhuma estrutura editorial, nenhuma linha que a oriente. Tem um director que escreve um generoso número de prosas enraivecidas, e meia-dúzia de colaboradores que «mostram» as suas redacções, um pouco à maneira dos «Jogos Florais».

Até aqui tudo bem, a asneira é livre e qualquer um pode criar uma revista. Pior estamos quando, edição a edição, a «Periférica» ocupa parte do seu espaço arrasando, gozando, achincalhando, toda a imprensa portuguesa: do «Público» ao «Expresso», do «DNA» ao «Jornal de Letras», ninguém escapa ao olho singular dos rapazes lá da Vila. Eles atiram-se sem dó nem piedade a toda a gente — o que até teria graça se, como sucedeu no passado com revistas como a «Capa», o humor e a inteligência estivessem acima da inveja e da arrogância, e a crítica fosse acutilante e inteligente (arrisco mesmo a comparação: uma espécie de Herman José na imprensa, no que Herman tem de observação intuitiva e despojada, livre e descomplexada). Neste caso, não é disso que se trata. O que a «Periférica» revela, edição a edição, é que os seus colaboradores sonham com o dia em que possam ver um texto seu publicado num jornal «a sério». Nas páginas daquela coisa destila-se inveja, despeito, complexos de inferioridade. E, pela mesma razão e na mesma medida, uma arrogância que a leva a comparar-se à «Granta» — para quem não sabe, uma das bíblias inglesas da escrita e da literatura. Em bicos de pés, a «Periférica» acha que é a «nossa» «Granta» — ignorando que a «Granta» cultiva a qualidade e a descoberta, e não ocupa o seu tempo invejando quem a tem, ou quem a procura.

Há só mais um problema nesta história marginal que, em rigor, talvez nem merecesse uma crónica de jornal: é que a «Periférica» pode ser, e provavelmente será, um dos sinais de uma geração a que Vicente Jorge Silva chamou «rasca» e que ninguém, à época, levou a sério, mas que entretanto cresceu e está aí, a «despontar». Uma geração de ignorantes que se julga, sabe deus porquê, acima de qualquer suspeita; uma geração de arrivistas que cultiva a inveja até ao dia em que consegue chegar ao lugar que julga merecer por natureza; uma geração que perde demasiado tempo a olhar para os outros sem perder um minuto a olhar no espelho a figura ridícula que faz. Uma geração que se leva a sério, esquecendo que também ela vai passar, como todas as gerações passam.

Sinceramente: receio que esta geração sai lá do Vilarelho e da sua masturbação regular. No dia em que isso suceder, o jornalismo português, que já não anda muito bem, está condenado a ser eternamente provinciano, pobre e tolo. Pior é impossível.

Pedro Rolo Duarte, DNA (Diário de Notícias), 14 Jun 2003