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O blogue da Periférica

O FIM

Finda a Periférica, poucas coisas justificam a manutenção do blogue da revista. Adicionalmente, o texto do RAA apresentado logo abaixo é o carro-vassoura ideal para encerrar este capítulo. Por isso, o A Oeste Nada de Novo fecha as portas hoje: permanecerá online, como o resto da revista, mas não será actualizado com novas contribuições.

Alguns de nós criaram já os seus blogues pessoais. De momento, são os seguintes:

Vemo-nos por aí. RP 06/03/2006

CONFISSÕES DE UM CANGALHEIRO

Talvez porque acabei de enterrar mais uma revista (a segunda em oito anos), percebo muito bem os suplícios do cangalheiro. Por dever profissional, o cangalheiro vê-se forçado no exercício da sua profissão a adoptar um ar circunspecto, respeitador, a guardar as risadas para mais tarde. O sr. Padre lembra aos familiares em pranto que somos pó e ao pó havemos de voltar (como prova o exemplar em apreço) e o cangalheiro tossica para disfarçar um súbito bocejo. O morto desce à cova, arrancado a ferros das mãos duma esposa inconsolável e particularmente histérica, e o cangalheiro solta umas lágrimas devidas ao esforço para suster o riso. A terra cai às pazadas sobre o caixão, a choradeira atinge níveis inimagináveis, com o séquito a competir pela mais disforme careta, e o cangalheiro, incapaz de conter as gargalhadas, afasta-se agarrado à garganta e ao peito com um violentíssimo ataque de asma. Adicione-se a isto a gravata preta e temos a punição completa imposta a quem faz do óbito alheio a sua profissão.

A tarimba proveniente de um emprego a meias com a morte transforma o cangalheiro no mais profundo dos relativistas. A dor, sabe ele muito bem, não é definitiva. Nem o luto. E até a morte perde o ar façanhudo perante o seu olhar entediado. Não espantará, portanto, que, depois de passar o dia a simular compungimento, ao cangalheiro apeteça gargalhar. Logo que ele aparece na tasca — que, depois do cemitério, é o sítio onde se movimenta melhor — o seu estilo bem-disposto, zombeteiro, amigo das anedotas, reina. Ninguém faz rir mais do que o cangalheiro. Como o palhaço de nariz vermelho, tem um elemento que favorece o humor — o seu traje profissional, a gravata preta.

Quando não está a sepultar alguém, a gravata preta do cangalheiro — pedaço de pano que ele nunca desamarra do pescoço — dá-lhe um ar desajustado. Assenta-lhe mal. Não é homem de elegância e fato completo. Usa-a com qualquer traje. A gravata preta não é um elemento estético, é um distintivo. Faz parte da sua profissão. Gosta dela. Usa-a com o fato de treino, se alguém morre a meio de um sábado. Com o colete da caça, se o decesso for ao domingo ou à quinta-feira. Se o óbito acontece na praia, é possível que o cadáver seja transportado por um cangalheiro em fato de banho — e gravata preta. A gravata preta do cangalheiro, como a morte, é omnipresente.

O passamento anunciado da Periférica faz-me sentir como o cangalheiro. À minha volta há olhares de comoção, os amigos ou conhecidos chegam-se a mim transtornados, embaraçados, sussurram as frases feitas do sentimentalismo, «lamento muito», «é uma tristeza», «que país é este que deixa morrer assim os seus valores?», «morrem jovens os que os deuses amam», «o panteão, nada menos do que o panteão!». Os mais comedidos ou distantes, aqueles que conheciam o infeliz defunto mas não tiveram o grato prazer de conhecer pessoalmente os progenitores, ficam-se pelo tradicional e sincero «os meus pêsames», ou «os meus sentimentos», para evitar o palavrão em desuso. No centro do velório, eu tossico, esguicho lágrimas de riso estrangulado, sou acometido de violentos ataques de asma — e solto gargalhadas. Não tenho traquejo de cangalheiro antigo. Claro, é indelicado não ser sensível à emoção alheia, sobretudo quando somos também objecto da emoção. Mas compreendam, acima da progenitura está o brio da profissão — e até os cangalheiros têm os seus limites.

Mas se evoquei os cangalheiros nesta crónica não foi em vão. Não me vi transformado num apenas por ter posto uma lápide sobre uma revista. Outras circunstâncias me têm feito reflectir sobre a vida destes homens deslocados, noutras ocasiões vi o mundo pelos olhos de um agente funerário. Mudo o décor, e o mármore dos jazigos dá lugar ao plástico das cadeiras numa sala de espera de um consultório ou hospital. Nestes outros palcos de sofrimento, a entrada de um livro provoca reacções semelhantes à chegada da gravata do cangalheiro ao sepulcrário. Os rostos voltam-se e nota-se o desprezo. Um leitor numa sala de espera é um cangalheiro num velório. Pode estar presente pela mesma razão (o médico), mas não sofre a espera, não está unido na dor com os demais impacientes. É talvez um delegado de propaganda médica, pretende sacar o dinheiro aos que velam (como o cangalheiro).

Os portugueses não gostam de esperar e carpem bem alto esse infortúnio. No caso improvável de ser apenas mais um enfermo aquele que aguarda serenamente de livro na mão, virando página atrás de página, agudiza-se a irritabilidade. Não só porque o quadro lhes faz notar que o tormento pode ser amenizado com proveito. Mas sobretudo porque, ao não participar no berreiro, o enfermo-leitor revela pertencer a uma outra casta, a dos que sabem enfrentar com dignidade ou resignação as horas mortas — e isso é um snobismo inaceitável. Antes um cangalheiro hipócrita, dobrado de compunção. Eu, como já se viu, ainda não terminei a minha aprendizagem. Parte dos meus problemas de integração na nacional câmara-ardente vêm do facto de ainda não ter aprendido a guardar as risadas para mais tarde — embora comece por adoptar um ar circunspecto, respeitador.

Mas não ignoremos que, lá fora, noutros espaços públicos, um livro na mão tem o mesmo efeito da gravata tosca no pescoço: provoca risos francos. Uniforme de cangalheiro em dia de folga e livro fora da prateleira são adereços desajustados como calças largas de palhaço fugido da tenda. RAA 06/03/2006 (Publicado originalmente na edição de Março da revista Os Meus Livros)

ASSISTÊNCIA MÉDICA INTERNACIONAL

O fim da Periférica ao 14.º número ditou o nosso incumprimento de algumas assinaturas anuais. Colocados perante três possibilidades (receberem de volta o dinheiro da diferença, receberem em alternativa outros números da revista, ou prescindirem do dinheiro a favor da Fundação Assistência Médica Internacional (AMI), é com satisfação que verificamos que a esmagadora maioria dos assinantes que já responderam optou pelo donativo à AMI. Em nome da redacção da Periférica e da Assistência Médica Internacional (que já recebeu o donativo), o nosso obrigado. RP 06/03/2006

P.S. Significativo é certamente o facto de um assinante estrangeiro ter sugerido que o seu dinheiro fosse entregue, em alternativa à AMI, a uma associação nacional de prevenção de fogos florestais. Significativo e triste — que seja o desordenamento florestal a nossa imagem de marca lá fora.

FOI BOM, MAS SOUBE A POUCO

Capa de 'O Eduquês em discurso directo'

O 'Eduquês' em Discurso Directo, de Nuno Crato, edição Gradiva.

Poucos são os livros em que, como neste, a leitura é constantemente interrompida para exclamarmos de forma sentida (desesperada, mesmo), alto e bom som, mesmo que estejamos sozinhos: «Claro!»

Como defeito, só a brevidade. Quando se começa a ganhar balanço, acaba o capítulo. E é assim até ao fim do livro. FG 03/03/2006

COISAS QUE VALEU A PENA LER HOJE

«Monstruosa inocência», de Esther Mucznik:

Que golpe de magia nos leva sistematicamente a transformar os carrascos em vítimas, a transfigurar os agressores em agredidos, a desculpar o indesculpável? [...] Esse golpe de magia tem um nome que corrói o nosso mundo: vitimização.

Vivemos num mundo de vítimas, em que todos são vítimas — menos os que têm o poder. [...]

«O direito à blasfémia», de Vasco Pulido Valente:

[...] o cardeal Policarpo avisou (preveniu? ameaçou?) aqueles de nós que sofrem da inominável fraqueza de ser ateus. Segundo ele, a nossa "dificuldade (reparem na palavra) em acreditar em Deus não toca na insofismável realidade de Deus" e, por isso, é nosso dever "respeitar a fé" [...]. O sr. cardeal, que manifestamente não pratica a tolerância que reclama ao próximo, não admite (e suponho que gostaria de eliminar) o "direito à blasfémia".

Ambos no Público, ambos a ler integralmente. FG 03/03/2006

THE VIRGIN MADE ME DO IT...

Uma comissão parlamentar italiana conclui a favor da tese de que a URSS, através dos serviços secretos búlgaros, mandou assassinar o Papa João Paulo II em 1981. Se ainda forem vivos, os ex-responsáveis soviéticos e búlgaros podem sempre declarar-se um mero instrumento de Nossa Senhora de Fátima, que ao fim de 64 anos andava algo necessitada de um milagrito que cumprisse o Terceiro Segredo.

Desconhece-se a reacção de Maomé ao uso de um dos seus servos para a prossecução dos planos da Virgem. Mas talvez o facto de a dita ser de Fátima funcione como atenuante e estimule o diálogo ecuménico e a colaboração inter-religiosa. FG 03/03/2006

UM CARTOONISTA PARA OS TEMPOS QUE CORREM

Cartoon de Michael Shaw / The New Yorker

Na legenda: «Por favor, disfrute* deste cartoon cultural, étnica, religiosa e politicamente correcto de uma forma responsável. Obrigado.»

© Michael Shaw / The New Yorker

FG 03/03/2006

* Não arranjo melhor tradução...

NÃO ACONTECEU, MAS PODIA TER ACONTECIDO

De um ayatollah recebi o seguinte e-mail:

O seu post «Coisas menores» termina precisamente com a pergunta: «Ou será uma coisa menor?» Certamente por deficiente domínio da língua portuguesa, fiquei na dúvida: «coisa menor» refere-se ao cartoon, à tesoura ou à mulher? Seja qual for a acepção, a resposta é "Sim".

FG 27/02/2006

COISAS MENORES

O cartoon do post anterior recordou-me de uma página do livro Mis primeras 80.000 palabras (ed. Media Vaca). Para este sui generis dicionário ilustrado destinado à infância foi pedido a quase 300 ilustradores de diferentes países que ilustrassem uma palavra da sua língua materna e que fornecessem a sua definição.

Eis a contribuição de Saad Hajo, ilustradora iraniana:

Ilustração de Saad Hajo

Será talvez significativo que a palavra ilustrada (Pištgîrîkirdin) queira dizer, em curdo, «Dar apoio moral ou psicológico. Oferecer ajuda. Infundir valor.»? Ou será uma coisa menor? FG 27/02/2006

ACHO QUE NOS CONHECEMOS DE ALGUM LADO...

Confesso que só hoje me dei ao trabalho de ir ver os cartoons da discórdia. Conforme escreveu o João Pereira Coutinho há uns tempos, são quase todos de uma pobreza confrangedora: ideia fraca, execução técnica fraca, ou ambos os pecados. Quase que só se safa este:

um dos cartoons dinamarqueses

Mas, aqui, só mesmo a vontade de lançar achas para a fogueira vê no barbudo o profeta Maomé. O cartoon não identifica a personagem — e, havendo um interdito sobre a sua representação, os muçulmanos não podem, simplesmente, reconhecê-lo. FG 23/02/2006

OS LIMITES DO INTERDITO

Esta noite, durante uma insónia prolongada, sobreveio-me a dúvida: o interdito islâmico sobre a representação de Maomé depende da "fidedignidade" da representação — ou basta a intenção?

Por exemplo, pergunto-me se isto

Õ
–|–
/\

associado à informação de que se trata de uma representação de Maomé a receber a inspiração divina (versão PC-minimalista) suscitará ou não a ira da rua muçulmana. Ou ainda se isto

 ,   /\ 

(Maomé, ao longe, a caminho da montanha) ditará a exigência de um pedido de desculpas por parte do governo português. FG 23/02/2006

MAL POSSO ESPERAR PARA TER E LER

Capa de 'O Eduquês em discurso directo'

O 'Eduquês' em Discurso Directo, de Nuno Crato, edição Gradiva. FG 22/02/2006

O SONHO

Deitou-se e sonhou com um tempo perfeito.

Não havia mais judeus usurpadores. Não havia mais cruzados cristãos opressores. Não havia mais pagãos idólatras. Não havia mais ateus, nem hereges, nem blasfemos, nem ímpios de vária ordem. Tudo era Islão e o Islão era tudo. Tudo o mais se acabara.

Acordou aterrorizado: acabavam-se as desculpas, também. FG 18/02/2006

ESCLARECIMENTO

Para que conste, nada tenho que ver com o Fernando Gouveia da Bibá Pitta. De resto, Bibá Pitta mais parece um slogan de alguma associação de avicultores em tempo de gripe das aves. FG 18/02/2006

PÉROLAS

E ainda dizem que não se aprende nada com os programas sobre socialites! Para refutar tão vil opinião, eis uma lição de vida, mercê de Paula Bobone: «Gastar dinheiro sem sentido estético é Degradante, com 'H' grande.» Ora, nem mais. FG 18/02/2006

UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIO

O Presidente da Federação Portuguesa de Futebol desdisse o Seleccionador Nacional: para Scolari, um jogador que vá ao Europeu de Sub-21 não será convocado para o Mundial, mas Gilberto Madail diz que não é bem assim; tal restrição é «apenas uma questão de princípio do Seleccionador Nacional» — ou seja (continua Madail), «em princípio tais jogadores não irão ao Mundial».

Com um tal entendimento de o que é uma «questão de princípio», Gilberto Madail afigura-se como forte candidato a futuro Ministro dos Negócios Estrangeiros. FG 16/02/2006

SENTIDO DE HUMOR

Entre outras coisas, o que falta, manifestamente, ao mundo muçulmano é sentido de humor, em especial quando este é reflexivo, autocrítico. Mas isso, já sabemos, é só mais um sintoma do atraso cultural do Islão. Humor e autocrítica são sinais de sofisticação — algo incompatível com quem chama a tudo o que lhe seja anterior ou alheio «Tempo (e Terra) da Ignorância».

Pintura de Mark Ryden
The Angel of Meat

Pintura de Mark Ryden
Saint Barbie
(ou Barbie-Cova-da-Iria...)

Pintura de Mark Ryden
Dead Characters

Pintura de Mark Ryden

Pintura de Mark Ryden
The Birth of Venus

A quantos séculos de distância está o Islão de um humor como este de Mark Ryden? Pelo calendário deles, estamos em 1426 (Idade Média, portanto) — ainda teremos de esperar. FG 16/02/2006

APOIEMOS A DINAMARCA E AS LIBERDADES OCIDENTAIS... AGORA EM PORTUGUÊS

Ora aqui estão elas:

Apoia a Dinamarca. Defende a Liberdade. Apoia a Dinamarca. Não à burka sobre a Liberdade de Expressão. Apoia a Dinamarca. Nem véu, nem mordaça.

Liberdade de expressão, racionalismo, democracia, individualismo, direitos humanos. Este é o legado do Ocidente. Não desistiremos dele. Não à burka para o Ocidente. Apoia a Dinamarca.

'isegoria' = 'Liberdade de expressão' em grego. Tem tradução para dinamarquês. Até agora. Não à burka para o Ocidente. Apoia a Dinamarca.

Tolerância Zero para a Intolerância. Não pedimos desculpa por sermos livres. Não à burka para o Ocidente. Apoia a Dinamarca.

E para não me ficar só pelas palavras, este ano as minhas sobrinhas recebem Legos no aniversário. FG 16/02/2006

ISTO DO INTERDITO...

Já se sabia que isto do interdito sobre a representação gráfica de Maomé era não mais do que uma desculpa por parte dos muçulmanos para justificarem o seu ódio (fruto, entre outras coisas, da frustração de se saberem falhados). E qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe que, a ser autêntico, o interdito só se aplicaria aos que professam a dita fé (ou ainda, concedamos isso, a todos os que — crentes ou não — habitam os países em que o interdito é lei).

Mas a prova final (não apenas dedutiva ou intuitiva) de que o interdito só é levado a sério quando pode ser usado como arma de arremesso é o seguinte cartoon, criado pelo iraniano Amin Montazeri, no âmbito do concurso internacional de culpabilização dos judeus (olha a novidade!) lançado pelo site irancartoon.com:

Cartoon de Amin Montazeri (Irão)

Truncada ou não, a representação de Maomé está lá. Não se aplica o interdito a Amin Montazeri — ou a sagrada propagação do ódio perdoa outros pecadilhos? FG 16/02/2006

TESTE: DESCUBRA O TERRORISTA ISLÂMICO QUE HÁ EM SI

Cartoon de Valentin Druzhinin

O que o choca/ofende mais: o cinto-bomba ou o batom? FG 16/02/2006

E JÁ AGORA...

Buy Danish - Let Freedom Prevail

Só para terem uma ideia: Lego, Bang & Olufsen, Bodum, Ecco, Dancake, etc. (Podia incluir marcas de cerveja — mas detesto que se beba com espírito de missão...) FG 14/02/2006

PORQUE A INTOLERÂNCIA É INTOLERÁVEL...

Subscrevo o seguinte manifesto/abaixo-assinado:

Como uma liberdade

MANIFESTO


Um conjunto de cartoons satíricos sobre Maomé originalmente publicados num jornal dinamarquês e republicados pela generalidade da imprensa ocidental fizeram eclodir uma impressionante onda de violência em alguns países islâmicos. Um ódio que assemelha a algo de irracional, inflamado nas multidões de rua, transformando-se assim na representação de uma vaga de barbárie.

Numa democracia, as opiniões só existem na medida em que existe igualmente liberdade para as exprimir, divergir e criticar. Em cada momento histórico, há um determinado universo de valores que só é dominante porque os sujeitos sociais os partilham de uma forma comum e plural. Em regimes autoritários, esse consenso é forçado por via de uma estrutura repressiva que se impõe aos cidadãos. Na generalidade dos países islâmicos, uma religião é aliada desse aparelho coercivo.

Plasmando-se ao poder político, as simbologias criadas por uma leitura dessa religião geram as próprias condições de reprodução do autoritarismo. Actualmente, a incapacidade de articulação de um discurso moderado no interior do Islão transforma essa realidade num cenário particularmente crítico. Afirmá-lo é constatar algo que só um proselitismo feroz pode confundir com preconceito ou xenofobia, sobretudo quando isso é valorizar todos aqueles que no terreno não cedem ao cativeiro do fundamentalismo islâmico. Em condições sempre dramáticas, tantas vezes assumindo o exílio ou a morte contra fatwas assassinas.

Há, no Ocidente, quem queira conscientemente evitar abordar o essencial. Porque é absolutamente irrelevante se os cartoons são ou não ofensivos, se são ou não ‘despropositados’. Não há aí matéria de discussão. Todos os dias nos deparamos na imprensa com opiniões ofensivas e/ou despropositadas. Por isso é que são opiniões. Por isso é que são publicadas em páginas de jornais. Por isso é que lhes podemos contrapor argumentos sem medo. E é tudo isso que nos enriquece enquanto membros de uma comunidade democrática, com opiniões que são tantas vezes execráveis mas nunca atentatórias da integridade de quem delas discorda.

Em 1689, John Locke escrevia na sua Carta sobre a Tolerância que «a tolerância [...] aplica-se ao exercício da liberdade, que não é licença para fazer tudo o que se deseja, mas o direito de obedecer à obrigação, essencial a cada homem, de realizar a sua natureza». Mais de três séculos depois, ainda se justifica uma violência cega como legítima reacção à ‘blasfémia’. Quem o faz, aceita regredir na capacidade de afirmar o princípio da diferença como o princípio inalienável da realização individual, seja ela minoritária ou não na sociedade em que se insere. Daí a separação formal entre Estado e igrejas nos países democráticos, permitindo uma volatilidade dos laços morais que será tanto maior quanto a sua relação com a diversidade das práticas, das vivências e dos costumes.

Após o 11 de Setembro de 2001, a generalidade das discussões sobre este tema estão viciadas entre o radicalismo bélico e o militantismo relativista. Este documento é por isso um contributo para explorar uma alternativa a essa dicotomia, subscrito por cidadãos e cidadãs com percursos distintos e filiações políticas muito diversas, à esquerda e à direita, com ou sem religião, que têm leituras certamente opostas quanto ao terrorismo e à sua prevenção. Em comum têm porém a recusa na cedência de um conjunto de princípios que, no seu entender, poderão traduzir parte do património civilizacional ocidental. A começar pela liberdade de expressão, que pode e deve ser um valor universal.

Os apelos de governos europeus para a ‘responsabilidade’ no uso dessa liberdade de expressão são a metáfora de um complexo de culpa em relação a algum passado histórico do Ocidente que não pode ser esquecido. Mas que também não pode servir de intermediário a todas as leituras sobre o tempo presente. Qualquer vírgula colocada na liberdade de imprensa será um silêncio a mais. Pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu será pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo. Porque tudo isso nos une na herança de um processo histórico que aparece agora criminalizado pela susceptibilidade de um dogma impositivo, incapaz de olhar o outro. Do mesmo modo que tudo isso nos separa daqueles que, sem concessões, reclamam uma superioridade civilizacional para a sua civilização. Qualquer que ela seja.


Os primeiros signatários,


Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano

Porto e Coimbra, 9/2/06

Para subscrever, siga este link.

E, já agora, aqui vai um banner com que me identifico:

No tolerance for intolerance. No apology for being free. No burka for the West. Support Denmark.

Correndo o risco de soar demodé: Cidadãos do mundo livre, uni-vos! FG 14/02/2006

COR-DE-ROSISMO

Leio no Aspirina B:

[...] Para quem gosta de números, apostaria os meus rentes [sic] em como há centenas de milhões de muçulmanos cuja ambição é viverem em paz, conforto e harmonia com o resto do mundo. Quantas centenas de milhões? Vou arriscar uma quantidade: entre 10 a 12.

São pessoas condicionadas pelos poderes políticos, religiosos e culturais. Pessoas cuja voz não se faz ouvir, que talvez nem a si próprias se oiçam. [...]

Que se diga que há milhões de «muçulmanos cuja ambição é viverem em paz, conforto e harmonia com o resto do mundo», aceita-se. Mas cifrarem-se esses "aspirantes à harmonia" em centenas de milhões, e que essas centenas sejam 10 ou 12 — isto é, virtualmente, todos (algo mais que mil milhões) — é lirismo. Ou demagogia.

E afirmar que infelizmente essas centenas de milhões «são pessoas condicionadas pelos poderes políticos, religiosos e culturais» é, uma vez mais, lírico, infantil ou demagógico. Já dizia Ortega y Gasset: «Eu sou eu e a minha circunstância». De facto, os condicionalismos sociais, políticos, religiosos fazem parte de cada um (da sua maneira de ser, pensar e agir); se sou "naturalmente" tolerante*, mas a educação e a sociedade me leva a assumir atitudes intolerantes, então eu não sou de facto tolerante — pois não posso separar o que faço e o que me levam a fazer e defender daquilo que sou!

Finalmente, quando li que «talvez nem a si próprias se oiçam», fiquei com dúvidas se leria a Xis ou a badana de um livro da Pergaminho... Mas parece que não. FG 10/02/2006

* Ai Rousseau, os estragos que ainda fazes!...

ARTILHARIA

Rui Ângelo Araújo (RAA) passa a atender também aqui: Os Canhões de Navarone. RP 09/02/2006

O ÓBVIO E O OMITIDO

E agora, um comunicado do gabinete do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros:

Escudo português

Ministério dos Negócios Estrangeiros

República Portuguesa

Assim, sim! Porquê deixar as coisas pela metade? FG 09/02/2006

O DESCANSO DO GUERREIRO

Mil e setecentos quilómetros depois, a distribuição está concluída (a menos de alguns envios por correio). Agora, perna ao alto... RP 09/02/2006

«E A AUTO-ESTRADA, CARALHO?»

De Carlos Costa, director da companhia de teatro Visões Úeis, recebemos a seguinte reacção ao fim da revista:

Meus caros quase ex-periféricos,

Não é que, há semanas atrás, quando soube da espantosa notícia de uma auto-estrada novinha em folha Porto–Vila Pouca de Aguiar, não resisti à piada fácil: Agora é que os periféricos se tramaram, vão ter de mudar de nome, o betão roubou-lhes a condição periférica, agora estão no centro do mundo e etc. e tal. Depois ri-me sozinho durante vários minutos, eu sou assim rio-me sozinho das minhas gracinhas para não ter de as partilhar com ninguém.

E agora chega-me a última Periférica pelo correio! A última! Mas estão a brincar com o país ou que merda é esta? Então agora que há uma auto-estrada para serviço exclusivo da revistinha é que Vossas Exas. resolvem ir embora! Agora que os contribuintes torraram milhões de Euros numa auto-estrada para uma região onde já não mora ninguém — a não ser os-chatos-da-tal-revista — é que os meninos decidem abrir falência e fugir para um paraíso fiscal das caraíbas!

E a auto-estrada — porque a revista pouco importa — como fica? Sim, como fica sem o constante movimento dos TIRs que vos levavam a pasta de papel, dos transportes especiais com grandes máquinas de impressão, os autocarros com admiradores, as comitivas de ministros e secretários de estado, as viagens a 200Km hora para ver o F. C. Porto na Liga dos Campeões — dizendo claro que se vinha para uma inauguração na Miguel Bombarda... Acham que algum concessionário vai querer pegar nesta auto-estrada sem a Periférica? Digam lá, acham mesmo?

Miseráveis! Irresponsáveis! Egoístas! Tenham vergonha! Foda-se!

A revista não abriu falência — simplesmente fechou as portas, porque assim o decidimos (temos um certo pendor para o sistema do déspota esclarecido). E, para desgraça nacional, o destino da pasta de papel era uma gráfica de León... RP 06/02/2006

O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO

No Público de terça-feira rezava assim:

Já não se vê papelada espalhada por todo o lado, nem jornais, revistas e recortes de imprensa amontoados pelo chão. Não se vêem garrafas de whisky, cinzeiros cheios de cigarros, nem sequer uma gata pachorrenta... A sala onde os últimos números da revista cultural Periférica foram congeminados é branca, nela tudo parece limpo e organizado e já nem sequer se situa em Vilarelho de Jales (Vila Pouca de Aguiar), no Trás-os-Montes profundo, mas na cada vez mais urbana cidade de Vila Real.

O ambiente quase impoluto em que agora é feita a revista cultural que surpreendeu por nascer no lugar mais recôndito do país e ser de distribuição nacional — "Em Vilarelho como em Nova Iorque" foi o slogan que viveu amarrado à publicação que curiosamente é apoiada por uma associação cultural local — parece dar razão aos comentários que por estes dias se ouvem junto de alguns apreciadores da publicação para explicar o fim do projecto: os responsáveis da Periférica "aburguesaram-se" e "acomodaram-se".

Começo pelo menos importante: a sala onde foram congeminados os primeiros números da revista nunca se situou em Vilarelho, mas no centro de Vila Pouca de Aguiar — onde, de resto, a jornalista do Público nos entrevistou em Agosto de 2002. Convém não confundir o berço com a forja, ou o menino ainda sai chamuscado. E é escusado exagerar nas evocações de um "anjo caído", de uma Maria Papoila que sobe à cidade, de uma suposta perda da inocência primeva (rústica, «very typical») just to make a point — quando se sabe que tal constitui uma inverdade.


Já a ideia de que os responsáveis pela Periférica se «aburguesaram» parte de uma premissa errada: a de que não éramos à partida burgueses. Ora, da Nobreza não éramos certamente, por manifesta falta de pergaminhos e títulos nobiliárquicos. Do Clero, cruz-credo!, vade retro mais os votos de castidade, obediência e pobreza (dissemo-lo: queremos ganhar dinheiro)! E quanto ao Povo, há oito anos que vimos deixando bem claro a pouca conta em que o temos. (Mais um sinal de pertença à Burguesia: provindo daquele estrato, mas divorciado dos seus interesses e ambições por evolução socioeconómica ou cultural, o burguês deplora o Povo, infame recordatório da lama abjecta de onde em boa hora se ergueu.)

Quanto ao acomodamento, também é para evitá-lo que a Periférica acaba.


Para finalizar, o fundamental. É mais importante a ficção que se publica ou se recusa — ou a papelada espalhada pelo chão? É mais relevante a poesia que se produz ou se traduz (e a que se queima) — ou o whisky que se bebe ou deixa de beber? Definem-nos as opções plásticas dos portefólios de cada edição — ou o cheiro das beatas esquecidas no cinzeiro da véspera? Compra-se e lê-se a revista — ou o código postal da Redacção?

Generalizando: São importantes Os Lusíadas e a lírica camoniana — ou o "olho à Camões" do seu autor? Interessam a Ode Marítima e a heteronimia de Pessoa — ou a localização no Chiado da sua estátua, para engodo dos turistas? Discute-se a obra de Lobo Antunes — ou se ele usa ou não bata branca quando dá consultas? Preocupa-nos saber se o mais recente livro de Saramago é digno de um nobelizado — ou se o "Camões" (um dos seus cães) se chama assim por ser zarolho, ou quanto custou o último par de sapatos de Pilar? É relevante o universo feminino de Agustina — ou os chás que toma às cinco, ou não?

Resumindo: Interessa a obra — ou a pose do intelectual (ou aquilo que percepcionamos como atributos "de intelectual")? Interessa a cabeça — ou a boina que ela enverga?

Em Portugal, a Imprensa (mas não só, infelizmente) — por enviesamento de leitura, por pressa de rotulação, por gosto pelo cliché, por inércia ou indisposição para a reflexão, ou por simples falta de capacidade —, a Imprensa e alguns leitures, dizia, tendem a focar-se na boina, no acessório em detrimento do essencial. A leitores desses a Periférica não fará falta. Mas já antes disso não faziam eles falta à Periférica. FG 02/02/2006

PERIFÉRICA n.º 14

A derradeira edição da Periférica já está disponível online; a edição impressa começa a ser distribuída esta semana.

Como prometemos, este não é um número revivalista. Nem um número especial. É só o último. Basicamente igual a todos os anteriores. Mas, por ser o último, permitimo-nos pôr de lado o jornalismo de entrevista e reportagem e deixar que a edição se espraiasse um pouco mais pelas imagens, pela pintura, pela fotografia, pela banda desenhada, pelo design, por aquilo que vem interessando crescentemente os editores cá da tasca.

A prosa literária, cremos, está bem representada, com textos do padrinho J. Rentes de Carvalho, de Maria do Rosário Pedreira e de Gonçalo M. Tavares. Reforça esta ala um utilíssimo manual para quem pretenda escrever o seu próprio romance Lobo Antunes.

Da produção da casa, além de um conto de J. Ferreira Borges, publicamos apenas os indispensáveis comentários de A Oeste Nada de Novo — tomados de assalto pelo inacompanhável Fernando Gouveia — e os Canhões de R. A. Araújo, a bem do orgulho pátrio.

Na contracapa, como bónus para os nossos leitores — que vilmente desamparamos —, a Periférica transmuta-se na prestigiada The Vilarelher...

Fica muito por publicar, claro, mas agora esperamos que os outros cumpram a sua obrigação. RP 31/01/2006

JÁ ESTÁ NA TIPOGRAFIA

Se os estafetas não falharam, o derradeiro número da Periférica terá atravessado a fronteira esta tarde rumo a León. Não querendo nuestros vizinhos conservá-la em exclusivo, como a relíquia histórica que é, lá para o último dia do mês a edição começará a ser distribuída. Confiemos, pois, na generosidade castelhana. RP 16/01/2006

REACÇÃO AO POST «A AL-QAEDA, O "AL-QAEDISMO" E O ESTRANHO "CLUBE" DOS QUE SE LHE OPÕEM»

De José António Teles Pereira — juiz desembargador, antigo Director-Geral do SIS e autor de um artigo publicado na revista Atlântico — recebemos o seguinte comentário a um post anterior:

Queria, antes de mais, agradecer o comentário e a imerecida benevolência de que dá provas relativamente ao meu texto.

Deve ser a única pessoa que se interessou por ele. Foi, pelo menos, a única pessoa que pensou por escrito sobre ele.

Quanto à substância:

  • creio que não existe desacordo entre nós quanto às diferenças entre as sociedades ocidentais e a saudita [quanto à marroquina calma... pois é preciso não esquecer (sugiro-lhe que o estude atentamente) o processo de transição democrática que está a levar a cabo, processo que, não a tornando ainda um regime completamente democrático, já torna inadequada a qualificação como autocrática ou muito próxima]. Não obstante, existe, por muito que nos incomode, algo que nos "irmana" com a Arábia Saudita: sermos metidos pela Al-Qaeda [AQ] no mesmo saco. Também eu tenho dificuldade (e pudor) em verbalizar este "traço de união", mas não obstante ele existe, sendo significativo (para nós) que na agenda (realista; não na utópica) da AQ o objectivo concretizável seja o derrube do regime autocrático saudita. Não tenha dúvidas que no dia em que a AQ atingisse esse objectivo nenhum de nós, democratas da melhor cepa, teria nada para festejar;
  • a "minha" tradução do sentido da expressão "A Base" é tão aceitável quanto a sua. A expressão era usada nos escritos de Abdallah Azzam com um sentido próximo do seu (lançar as bases ou as fundações de uma organização; "base sólida" — "al-qâ'ida al-sulba"). A primeira vez que Bin Ladin a emprega — na "Declaração de Jihad..."de 23/08/1996 ("[...] nós encontrámos uma base segura[...]"; "qâ'ida âmina") — o sentido já é o de base territorial. Acontece, porém, que num documento chamado "Recomendações sobre táctica" (cito de memória pois não o tenho aqui no Tribunal; creio que está publicado em extractos num livro de Gilles Kepel, "Al-Qaeda dans le texte"), que constitui a definição para dentro da própria organização, fala-se em "conectar" e congregar os mujaedines que haviam passado pelo Afeganistão, elaborando uma base "qâ'ida" com os seus nomes. Significa isto que temos, talvez, os dois razão. Não confunda, porém, uma extrapolação analítica (o que eu fiz) com uma tradução.

Espero a sua réplica para poder treplicar...

Saudações afectuosas

J A Teles Pereira

A réplica será curta e creio não reclamar tréplica (mas esteja à vontade):

  • no que toca a Marrocos, admito que há um processo de mudança em curso, pelo que será injusto metê-lo no mesmo saco de uma Arábia Saudita; ainda assim, se fosse jogador, diria: «pago para ver»;
  • quanto à maneira como a Al-Qaeda nos vê a todos, aceito a designação de "saco", mas insisto na recusa do termo "clube": cada um faz o saco que quiser, mete lá o que bem lhe aprouver — já um clube existe na medida em que os seus membros comungam de um sentido de pertença, não é algo decidido de fora; por isso não há clube possível entre nós e a Arábia Saudita actual — partilhamos uma circunstancial parede exterior, mas convém não esquecer as paredes interiores ao "condomínio" (e, como se sabe, a maioria de nós não pode escolher os vizinhos que lhe saem em sorte... ou em azar — o que só nos deve fazer dar mais valor às paredes interiores);
  • relativamente ao significado de "al-qaeda", admito que desconhecia os documentos que refere, pelo que só estava ciente do sentido original da palavra; é natural que até os terroristas tirem partido das possibilidades polissémicas da palavra — em especial porque nisto da exacerbação político-religiosa o domínio do simbólico é fundamental.

FG 06/01/2006

SITE DA PERIFÉRICA ATACADO POR HACKERS TURCOS (3)

O grupo de hackers turcos responsável pelo ataque denomina-se VaTaNHaCK.CoM. A coisa não pareceu ser muito profissional e foi rapidamente resolvida. Agradecemos ao leitor André Barbosa o alerta para a situação.

Os interessados poderão consultar a cópia da página de entrada que os atacantes introduziram. RP 04/01/2006

SITE DA PERIFÉRICA ATACADO POR HACKERS TURCOS (2)

Pouco depois da meia-noite a normalidade foi reposta. Por quanto tempo, não sabemos. Se já entraram uma vez... RP 04/01/2006

SITE DA PERIFÉRICA ATACADO POR HACKERS TURCOS

O site da Periférica foi atacado por hackers turcos. Até agora os atacantes só "tomaram posse" da página de entrada. O blogue (que quase não funciona) continua a funcionar. Ironias. As restantes páginas também parecem não ter sido afectadas. Tentaremos resolver este problema o mais depressa possível. RP 03/01/2006

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