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O blogue da Periférica

Página de entrada do blogue (últimas)

O PARADOXO DO GUINNESS

Aos vinte anos fez a primeira tentativa de inscrever o seu nome no Livro de Recordes do Guinness. Falhou.

Nos cinquenta anos seguintes tentaria uma e outra vez, incansavelmente, estabelecer o recorde a que se propusera. Rotundos fracassos, sempre.

Entrou para o Guinness. FG 19/12/2005

VAMOS LÁ MAS É ACABAR COM ISTO

A Periférica vai acabar. Não adianta carpir, porque é decisão madura, colectiva, irreversível. E é também a decisão certa. Permitam-nos o nosso momento de humildade: o patamar que a revista atingiu, a visibilidade, o grau de exigência juntam-se num perfil para o qual já só com muito esforço estamos à altura. Fazer uma boa Periférica exige talento, tempo, dedicação, atenção, treino — uma redacção em forma e altamente disponível. De todos requisitos apenas nos sobra o talento. Mas é, cada vez mais, um talento destreinado, com um quotidiano avesso, a olhar noutras direcções. De resto, desde o início dissemos que não ficaríamos para sempre, que faríamos o que nos apetecesse. E o que nos apetece é acabar com a revista. Sem mágoa, nem nostalgia. Sem lamentos, nem acusações. Ninguém tem culpa do fim da Periférica — apenas nós e a nossa vontade de voltar a mudar de vida. A Periférica é só o nosso segundo projecto.

O número catorze será o último número. Sairá em Janeiro, para não estragar o Natal (o nosso). Não queremos que a última edição seja um presente do bonacheirão Pai Natal. Preferimos vê-la como uma prenda de sábios, de reis. Mesmo que saia um pouco depois do dia deles (a distribuição não seria mais lenta se fosse feita em camelos). Não será um número revivalista, carregado de epitáfios laudatórios (tirando, talvez, o necessário editorial de autocomprazimento). Se for um número invulgar, será por alguma súbita inspiração de génio que nos acometa. Mas estamos disponíveis para propostas de colaboração de última hora — assim como assim, já rejeitámos tanto entulho nestes três anos que nem daremos pela diferença. Vamos lá fazer história. RP 22/11/2005

OS NÚMEROS NEGROS DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL

O Público online de ontem anunciava que, por despacho do Ministério da Educação, «Os conselhos pedagógicos das escolas básicas terão o poder de decidir se os alunos repetentes em vias de voltar a não passar de ano vão ou não ter aproveitamento» [leia-se, passarão «porque sim»]. O objectivo, anunciavam as televisões à noite, é «contrariar os números negros da educação em Portugal».

Não tenho muitas dúvidas de que tal medida facilitista (a n-ésima...) conseguirá branquear um pouco os números negros — já a realidade, essa ficará mais negra. FG 17/11/2005

QUASE 10 LIVROS QUE MUDARAM O MUNDO

Finalmente lá comprei 10 Livros que Mudaram o Mundo (ed. Quasi). Para além de dez dossiers «do professor» (mais de metade das páginas), o livro, para minha surpresa, inclui apenas nove das dez conferências originalmente apresentadas na Biblioteca Municipal de Oeiras.

A conferência em falta, sobre o Manifesto do Partido Comunista, foi proferida por José Pacheco Pereira. Terá o eurodeputado recusado a publicação nesta editora de menos nome... ou dever-se-á a ausência à incapacidade de cumprimento dos prazos por parte do revisor do texto? FG 10/11/2005

PARA ACABAR UM DEBATE QUE JÁ SE ARRASTA

Pela última vez neste tema, tem a palavra Filipe Guerra:

Caro Fernando Gouveia, para terminar, da minha parte, e rapidamente, não posso deixar de esclarecer com clareza, a si e aos leitores, a minha intenção ao comentar o assunto dos tumultos em França, partindo do primeiro post seu cujo título diz tudo: «Protestos contra quê?» Achei que era demasiado simplista a sua apreciação e tentei procurar causas que explicassem estes efeitos e tentei arredar da minha apresentação assuntos colaterais como direita-esquerda e, inclusive, juízos de valor, a não ser o de que não desculpava nem justificava os tumultos. Fi-lo com toda a sinceridade e honestidade, com mais vontade de reflectir sobre o assunto do que contraditá-lo a si. Apontei o gueto e tudo o que o envolve (solidão, desemprego, discriminação, pobreza, beco sem saída) como causa fundamental deste mal-estar social. E, no fundo, apenas aceito ser contestado nestas realidades (friso a palavra realidades). O resto é esgrima mental já muito batida e que deixou de me interessar.

Friso também que não desculpo nem justifico os tumultos de França porque são gratuitos, não têm uma sustentação ideológica e política organizada que possa ser eficaz contra o abuso e a injustiça do poder em França. Ou seja, a esquerda NÃO «dá cobertura ideológica a ESTES tumultos». Melhor, estes tumultos são uma boa coisa para a solidificação do poder de direita em França, já que o Fernando Gouveia trouxe à liça a tal direita-esquerda. Pois bem, tivesse eu dito o que dissesse e seria atacado por «pôr ênfase nas condições sociais». Onde quer que ponha o ênfase? Nas «diferenças de valores, nas diferenças culturais, religiosas, raciais», ou seja, no dogma «a culpa está neles próprios»? Isso parece-me bastante religioso e... racial quando se trata de putos franceses, apesar da origem étnica, com valores franceses (inclusive o valor do uso e da mercancia de droga), que se cagam no islamismo dos pais (ou avós), com cultura francesa, inclusive a cultura do consumo, com o pop-rock ocidental nos ouvidos o dia todo e que, se lêem alguma coisa, nunca é um autor ou uma revista magrebinos ou africanos. E seria atacado também, sem qualquer necessidade de contra-argumentação, por ser de esquerda e defender valores de esquerda pelo Fernando Gouveia que se diz de direita, ou a caminho da direita (aprecio a frontalidade). Já agora, também me confesso: sou de esquerda e o meu tipo é o Manuel Alegre, ou outro qualquer, mas nunca, nunca, nunca o professor Cavaco. E foi assim que falámos cada qual para seu lado, na boa tradição de um match esquerda-direita. Ou seja, não houve debate, isto é, tentativa de se compreender o que se passa em França.

Um abraço

Filipe Guerra

E, também pela última vez (porque também eu estou farto), a minha resposta:

  1. Sim, a minha abordagem inicial foi simplista (deixou demasiadas coisas não ditas); por isso, ainda bem que lançou o debate (ao contrário de si, acho que este existiu, mesmo que tenhamos ficado basicamente na mesma — é um dos resultados possíveis de qualquer debate).
  2. Quanto a tudo isto parecer-lhe «bastante religioso e... racial», escrevi alhures o rebatimento disso. Versão curta: não é racial, é cultural (e aí sim, inclui-se também a religião). Racialmente estamos mais próximos dos magrebinos ou dos árabes do que dos chineses, mas não há problemas de maior com estes, apesar das diferenças (também culturais), da barreira da língua, apesar das famílias grandes, apesar da endogamia da comunidade. Os chineses, chegados muito mais recentemente, são um exemplo do sucesso (e é essa a única fonte, ainda assim pouco significativa, de atritos — veja-se o deplorável A. J. Jardim). Porquê? Porque trabalham que se fartam (teríamos algo a aprender com eles).
  3. Finalmente, não me considero de direita, nem que claramente para lá caminhe (but maybe I'm in denial...). Sou, cada vez mais, independente. Penso por mim próprio, em todas as situações, pelo que apoio o BE ou o PS numas coisas, o PSD noutras, e em muitos casos penso diferentemente de todos eles. Querem colar-me a etiqueta de gajo de direita? Em frente, não me causa rush cutâneo. Acima de tudo, recuso-me a aceitar «outro qualquer» em detrimento deste ou daquele (de direita ou de esquerda). É que repudio o reflexo condicionado de me contentar com qualquer um.

FG 10/11/2005

REABILITAÇÃO DE DOIS EQUÍVOCOS

Há pouco mais de um ano, ouvi comentar na Antena 1 certos deslizes linguísticos de pessoas ligadas à esfera do desporto. Lembro dois desses equívocos e, longe de os envolver de ironia, julgo ser adequado reabilitá-los, em nome do ampliação do idioma de Camões. Num deles, a expressão foro íntimo é substituída por forno íntimo. No outro, em lugar de espada de dois gumes evoca-se uma estranha faca de dois legumes.

Ora foro íntimo designa a consciência. Por sua vez, o termo forno, além do seu sentido literal, remete-nos para o athanor dos alquimistas. É aí que, mediante a acção do fogo secreto, se realiza a operação de separação do enxofre e do mercúrio contidos na matéria-prima. O objectivo último é transmutar o chumbo da personalidade no ouro puro do espírito. Embora enigmático, talvez o forno em questão aqueça a consciência e ilumine os seus obscuros arrabaldes. Deste modo, forno íntimo constitui, sem dúvida, uma expressão idiomática muito mais abrangente, sugestiva e apropriada do que a sua desenxabida matriz.

Quanto à espada de dois gumes, ensina-nos o dicionário que tal coisa se refere àquilo que tem vantagens e inconvenientes. Sendo assim, deverá manter-se em uso, a par da sugerida faca de dois legumes, que parece, ao invés, querer traduzir apenas aquilo que tem vantagens. De facto, dois legumes equivalem, no presente contexto, a uma pluralidade indefinida de hortaliça.

Por conseguinte, a pátria só terá a ganhar se (conservando ou não o original) forno íntimo passar a significar o caloroso âmbito da consciência e a faca de dois legumes puder gravar na pele da língua a sua cortante vitalidade. JFB 09/11/2005

POST-SCRIPTUM AO MEU POST ANTERIOR

Sobre a questão da miscigenação, ficou por dizer o mais evidente: que no tocante aos muçulmanos o principal entrave vem da parte deles: muçulmanas casadas com não muçulmanos, impensável; muçulmanos casados com não muçulmanas, permitido se forem dos «Povos do Livro» (cristãs ou judias). Na prática, o casamento com cristãs é bivalente (visto de certa forma como uma ascensão social, mas tacitamente reprovado pelos mais rigorosistas — apesar de os filhos deverem ser sempre educados no Islão) e o casamento com judias é quase impossível desde a criação do Estado de Israel.

Por isso, quando é o "discriminado" que levanta os principais obstáculos à salutar mistura de raças e culturas, quando se dá ao luxo de impor condições discriminatórias, o meu respeito pela sua "situação" é, uma vez mais, muito pouco. (O mesmo vale para o povo cigano, igualmente discriminado, igualmente discriminador.) FG 09/11/2005

AINDA PARIS (MAS NÃO SÓ)

Uma vez mais, tem a palavra Filipe Guerra:

Fernando Gouveia, o seu «tratado» sociológico arrasou-me. Percebi como se terá sentido Tolstoi quando, no Guerra e Paz, tenta descrever as causas da guerra com Napoleão e conclui que, como as causas são aos milhares, falar de uma causa ou duas pode ser verdadeiro mas também é falso porque omite as outras, e falar de todas as causas é impossível. Mereceria uma resposta detalhada da minha parte se me fosse possível dá-la em tempo útil de blogue, mas não posso, porque teria de pesquisar ponto por ponto os assuntos que aborda, consultar livros, ver estatísticas. No geral, faço uma crítica: dispersão. Véu islâmico, esquerda-direita, etc. Sei que neste mundo tudo se liga, mas a nossa troca de impressões inicial baseava-se nos motins dos gangs juvenis em França, e eu tentei situar a sua causa mais profunda na guetização à americana em que caiu a França, repudiando a sua ideia de que a «culpa» era apenas das pessoas e da sua falta de vontade em se integrarem. Há milhares de exemplos de magrebinos que, logo que lhes entreabriram a porta da integração, integraram-se. Com portas fechadas é que não. Defendo que ninguém é vítima porque quer. Defendo também que o gueto francês (com Paris no centro) é político, institucional. Agora, detendo-me apenas um pouco no seu ponto 5., e porque me parece que não concorda com o meu ponto de vista, vou tentar defini-lo melhor.

É claro que não há nenhuma lei (muito menos maquiavélica) que permita a criação de guetos em França, um país onde a justiça tem um carácter muito social e democrático e é muito prezada e cumprida, pelo menos formalmente; mas falo de justiça formal (do legislador), já que a realidade social é outra e, paradoxalmente, é outra através de disposições... legais. Por isso digo que o nascimento e posterior desenvolvimento dos guetos foi indirecto e feito a contrapelo da bondade do legislador. E digo que foi político e institucional porque as leis e as opções políticas do governo e das municipalidades (de esquerda e de direita), sem apontarem directamente para a criação de guetos, ajudaram a criá-los, porque em organização social nada é natural nem espontâneo. Direi também que, inicialmente, nunca há grande diferença entre uma cité de trabalhadores europeus e uma cité de trabalhadores magrebinos (as escolas são iguais, os prédios são idênticos (maus), as distâncias a percorrer no comboio suburbano são as mesmas, etc., pelo que o FG terá de se informar melhor sobre este pormenor para não o utilizar como falso argumento de debate). O que acontece é que essas cités se degradam, e pode-se encontrar toda uma biblioteca sobre urbanismo em França onde este assunto é abordado. Voltando às opções políticas e legislativas que, em França, preferiram o gueto à integração física e habitacional: seria útil acompanhar as sucessivas legislações sobre realojamento dos imigrantes em deficientes ou precárias condições de habitação e sobre alojamento dos imigrados que chegam, e ver como, progressivamente, elas apontam para uma distribuição em bolsas quase estanques deste ou daquele grupo de pessoas (quase sempre imigrantes). Qualquer velho emigrante português, por exemplo, saberá dizer como era Vitry há quinze anos e como é agora. Antes de dar um exemplo, saliento que em França não há o conceito legal de «discriminação positiva», mas há o de distribuição preferencial de casas (para alugar) às famílias mais numerosas e com menos rendimentos. E quem tem famílias mais numerosas e com menos rendimentos? Os magrebinos e outros africanos. Dou então um exemplo: determinada mairie tem verbas e vontade política para alojar 1000 famílias carenciadas. Constrói, para isso, três ou quatro cités e respectivas infra-estruturas (entre as quais escolas). Quase sempre, a mairie, com apoio do poder central (porque também se mete nisto, com regras, dinheiro e não só: não o impedindo ou instigando-o), destinava uma das cités para meter as suas 250 famílias magrebinas. É claro que uma família portuguesa, ou francesa, ou espanhola, por lei, poderia pedir para ir para lá, mas quem queria isso? E qualquer família magrebina poderia sair de lá, mas quem podia? Noutras cités, onde as populações eram mistas, a chegada progressiva, por exemplo, de uma maioria de magrebinos, accionava desde logo o desejo de os minoritários se mudarem para junto dos «seus», i é, para outra cité, até porque mudar correspondia a uma ascensão social. É esta a realidade. Quanto a futurologia, e citando Fernando Gouveia: se tivesse havido dispersão, haveria logo acusações de que «o governo tentava com tal política discriminatória evitar que a comunidade imigrante ganhasse consciência de si própria» e que «até nos seus bairros eles seriam minoria», que «não teriam relevância demográfica», etc. Como não houve dispersão, quem sabe o que se diria? E, afinal, o que favorece a integração: a dispersão e miscigenação, ou o gueto, triste consciência de si próprio, símbolo puro do isolamento étnico?

Outro factor: o desemprego crescente em França e a sua incidência mais forte nas populações de magrebinos e outros africanos, os pais dos putos que se lançam nestes desmandos e crimes. São famílias numerosas mas, como o mito do Estado-providência francês já ruiu, dada a thatcherização da política de subsídios (cortes brutais), essas famílias, além de desempregadas, vivem cada vez pior, o subsídio de desemprego e os abonos de família já não são o que eram e são concedidos por períodos mais curtos. Quanto aos putos, estudam cada vez pior, não têm perspectivas, só ódio. São inseguros e a insegurança e o medo torna-os violentos, cegamente violentos, a ponto de não pensarem nos carros dos pais e tios que incendeiam nem dos infantários que acolhem os seus irmãos mais pequenos e eles queimam e vandalizam. Não os desculpo nem justifico, tento aplicar-lhes duas ou três causas dos milhares delas que contribuem para a discriminação e exclusão entre seres humanos, remetendo para Tolstoi e dizendo que são causas verdadeiras mas também falsas porque não totalizantes.

Se calhar tornei-me chato, mas tinha de explicar o que penso sobre o assunto. Não quero ganhar nenhum debate com isto.

Um abraço,

Filipe Guerra.

Caro Filipe Guerra, se o arrasou ler o meu desabafo (pois disso se tratou), imagine como fiquei eu depois de escrevê-lo... Por isso vou tentar ser breve, embora saiba que vou certamente estender-me por muito mais do que desejaria.

Quanto à crítica de que me dispersei (véu islâmico, posições da Esquerda, etc.), a resposta deu-a você mesmo: não há fenómenos isolados. A minha referência às posições da Esquerda deveu-se ao facto de este quadrante político (em que já me enquadrei) cair frequentemente no erro de dar "cobertura" ideológica a crimes como os tumultos destes dias. O próprio Filipe Guerra diz que não desculpa nem justifica, mas o facto de pôr toda a ênfase nas condições sociais em que vivem (como se eles não fossem parte responsável nisso...) funciona, de facto, como uma desculpa e uma justificação. Eu reconheço que existe um problema, e que factores externos aos sujeitos em causa contribuem para agravar o problema, mas não tenho dúvida de que o principal culpado da sua situação são eles próprios — porque acredito que recai sobre o discriminado o principal ónus da tentativa de alterar a situação, pois é ele o maior interessado.

Dispersão por dispersão, reincido: um dos principais erros da Esquerda, e o que me leva progressivamente a afastar-me dela, é enredar-se na sua própria esparrela de se tomar por protectora dos fracos e desvalidos — a todo o custo. Num conflito, escolhe sempre o lado do fraco e não o lado do que tem razão (ou que tem mais razão), pois nega totalmente a possibilidade de o forte ter mais razão: o imigrante ou o cidadão nacional pertencente às minorias desfavorecidas tem sempre, na opinião da Esquerda, mais razão do que o Estado, a maioria folgada ou a minoria privilegiada. É incapaz de reconhecer um defeito ou um erro de procedimento num "desfavorecido", ou, se o faz, fá-lo à boca pequena, enterrando-o imediata e apressadamente numa avalanche de erros da outra parte, para disfarçar o mini-sacrilégio.

Diz que ninguém quer ser vítima. Concordo. Mas muita gente quer deixar de ser vítima sem se predispor a alterar o que quer que seja na sua forma de proceder, que comprovadamente leva à discriminação. Também ninguém quer apanhar a SIDA, mas se persistir em comportamentos reconhecidos como potenciadores do contágio, a vontade é apenas nominal («wishful thinking»), não é uma vontade de facto.

Não percebo o que quer dizer quando, mais à frente, recomenda que me vá «informar melhor sobre este pormenor [da habitação social] para não o utilizar como falso argumento de debate». É que é o próprio Filipe Guerra quem diz que «inicialmente, nunca há grande diferença entre uma cité de trabalhadores europeus e uma cité de trabalhadores magrebinos (as escolas são iguais, os prédios são idênticos (maus), as distâncias a percorrer no comboio suburbano são as mesmas, etc.» Ora, se «O que acontece é que essas cités se degradam» (e, deduzo das suas palavras, a dos imigrantes de origem europeia não tanto), apetece perguntar por que será. Porquê esses bairros e não os outros? Haverá arruadas de meliantes de etnia europeia em campanhas de vandalismo pelas cités dos magrebinos? (Até ponho a possibilidade de haver um ou outro caso de incursões xenófobas, mas não creio que seja por aí...) Não tenhamos o pudor de apontar o dedo a quem de direito: os próprios residentes (alguns, pelo menos) não respeitam aquilo que lhes foi dado e tratam de tornar pior o que já não era famoso.

Pergunta depois: «o que favorece a integração: a dispersão e miscigenação, ou o gueto, triste consciência de si próprio, símbolo puro do isolamento étnico?» Já admiti que seria melhor a dispersão, por evitar o ensimesmamento. Quanto à miscigenação, isso também não vai de políticas (pelo menos não num país onde me apeteça viver). E aqui, digo-lhe, é menor entrave a diferença racial do que as diferenças de valores e as diferenças culturais, principalmente as de ordem religiosa. Dou-lhe o meu caso: pensasse eu casar-me de todo, e não punha liminarmente de parte um casamento com alguém de qualquer grupo étnico (embora tenha, ao nível puramente estético, as minhas preferências) — mas, sendo eu ateu, seria impensável para mim (estivesse eu no meu perfeito juízo, que isto do amor tem muito que se lhe diga) casar-me com uma mulher profundamente religiosa, em especial se essa religião defender visões da mulher, do ser humano em geral e do mundo que conflituam com as minhas. Chamem-lhe pouca abertura de espírito — eu chamo-lhe profilaxia, pois os conflitos acabariam por surgir, e nesta coisa dos conflitos é melhor evitá-los do que remediá-los (no fundo, é do que vimos falando). E se quer que lhe diga, se há coisa que me surpreenda é que haja, por poucas que sejam, francesas não muçulmanas que casem com homens muçulmanos. Porque essas mulheres não se condenam apenas a si ao fardo do Islão (até para um ateu há religiões mais perniciosas do que outras...); condenam igualmente os seus filhos e netos — e, bem mais doloroso de ver, as suas filhas e netas —, pois por definição os descendentes de um muçulmano são muçulmanos, e mudar de religião (em cuja escolha não foram parte ouvida) é apostasia.

Abreviando, porque já vai (uma vez mais) longo: Famílias numerosas, subsídios de desemprego e abonos de família curtos? Acordem para a realidade, concluam (como outros antes deles) que há que mudar mentalidades. Subsídios concedidos por períodos cada vez mais curtos? Óptimo: uma ideia aparentemente boa criou vícios; há que evitar o acomodamento. Os putos não estudam? Não nos esqueçamos da quota de culpa própria (maioritária, digo eu); os exemplos de gente sem condições que singrou provam que é possível, mas que só lá foram com esforço.

E agora, definitivamente, repito-me. FG 08/11/2005

P.S. Para me focar minimamente num tema, tentarei escrever brevemente sobre outros exemplos de "causas" e "bandeiras" da Esquerda (ou que reflectem princípios originalmente de esquerda) que, pela forma acrítica com que são defendidas, contribuíram e contribuem para o meu crescente afastamento desse quadrante político.

SOB O SIGNO DA REVOLTA (A MINHA)

Caro Filipe Guerra, aqui tem a resposta que a realidade me faz escrever:

1.

Por distracção, ficou por responder uma pergunta que me dirigiu no e-mail anterior, concretamente, como posso eu dizer que haja quem não queira ser integrado. Pois bem, há-os. Não porque digam «Não queremos ser franceses como os demais» (em estatuto e direitos — já em deveres...), mas porque não estão dispostos ao esforço e às cedências que a integração significa. Veja-se o caso do véu; dê-lhe uma geração e teremos quem reclame a aplicação da sharia em França (tudo em nome da identidade cultural da comunidade, claro). Ora, integrar-se numa sociedade é aceitar um corpus mínimo de valores comuns — e ver o djalaba como um tratamento indigno da mulher faz parte desses mínimos franceses e ocidentais. Ninguém lhes exige que mudem de religião e comam presunto regado a tinto — mas "em Roma sê (um pouco) romano" ainda é um bom conselho e uma boa regra de cortesia a adoptar (para além de uma medida inteligente): queira eu algum dia entrar numa mesquita e cumprirei as normas que me impuserem — ou recusar-me-ei a cumpri-las e abster-me-ei de entrar; e se entro em igrejas para observar a arquitectura, é porque não me obrigam a ajoelhar frente aos altares; passem a obrigar-me e deixarei de entrar.

Aproveito também para rectificar ou relativizar algo que escrevi há dois posts atrás, concretamente, que os portugueses queriam ser integrados, enquanto (deixei implícito) isso não aconteceria com os magrebinos. A salvaguarda que ficou por fazer (apontam-me, e bem, aqui ao lado) é que não só houve também portugueses que pouco fizeram para se integrarem, que se remeteram às margens da sociedade francesa, como houve certamente muitos magrebinos que tentaram e conseguiram uma integração de sucesso (falo deles no ponto 2); e, dos que não tentaram ou não conseguiram, só uma minoria passou de marginal no sentido de "à margem, excluído" a marginal no sentido de delinquente. O que parece evidente é que as percentagens de uns e de outros dão clara vantagem aos portugueses. E se um dos factores a ter em conta será o racismo da sociedade receptora (que sem dúvida penaliza mais os magrebinos e os negros do que os portugueses e outros europeus), creio ser mais determinante o facto de os nossos valores se aproximarem mais, à partida, dos franceses do que os valores das sociedades muçulmanas e africanas. Por isso é mais fácil a assunção dos novos valores, ou é menos grave a recusa em adaptar-se: fere mais a coesão social a defesa do djalaba e a mutilação genital feminina do que a apologia da superioridade do bacalhau com todos.

2.

Quanto ao meu exemplo (que não é meu, mas de um documentário) do judeu e do muçulmano de berço comum e destinos diferentes, que se note que não pretendia negar a existência de casos de sucesso entre a comunidade islâmica. Ainda que, convenhamos, o par inverso (judeu imobilista/muçulmano de sucesso) é estatisticamente mais raro, havendo razões de ordem cultural (do campo dos valores) que o justificam — e se o baixo padrão socioeconómico dos muçulmanos potencia a sua discriminação, não deixa de ser significativo que, pelo contrário, seja o frequente sucesso da comunidade judaica a raiz mais funda do anti-semitismo moderno...

Mas os casos de "sucesso muçulmano" são significativos — não só porque provam que é possível alcançar o sucesso (já eu, na Arábia Saudita, não só nunca seria um cidadão de sucesso, como nem cidadão ou residente permanente poderia ser...), mas igualmente por aquilo que nos dizem dos factores determinantes do sucesso. E o que nos dizem? Que tais magrebinos nasceram em bairros mistos, com franceses e estrangeiros de todas as cores e feitios em perfeita harmonia (quando não em comunhão, em amena cavaqueira!), com um padrão de vida acima do acessível ao comum do imigrante magrebino? Esmagadoramente, não. Os magrebinos de sucesso tiveram, com raras excepções, o mesmo princípio de vida que a turba de falhados que queima carros e edifícios nos arredores de Paris. O sucesso não lhes veio do "meio favorecido" — resultou da combinação de (1) talento natural acima da média e (2) vontade de vencer e capacidade de esforço e de trabalho muitíssimo acima da média. Porque isso é algo de que todos os desfavorecidos têm de se convencer: que o caminho para cima ser-lhes-á bem mais duro, que ser-lhes-ão exigidas bem mais provas de competência, honestidade, inteligência e dedicação do que a quem parte do meio da escala social ou a quem já se encontra no topo da pirâmide. E nesses desfavorecidos não se incluem apenas as minorias étnicas e religiosas, mas também quaisquer pessoas dos estratos sociais mais baixos, ou provenientes de zonas mais pobres, ou que não tiraram o curso na universidade X... e as mulheres, que sendo a maioria recebem o tratamento discriminatório que habitualmente associamos ao estatuto de minoria.

3.

Abro aqui um parêntese para defender uma escola pública, universal, gratuita — e elitista. A escola deve ser acessível a todos, mas os seus conteúdos não. Se uma escola perpetuadora das elites estabelecidas, restritiva à entrada*, é antidemocrática e socialmente irresponsável, já uma escola formadora de elites — onde todos possam entrar, mas com critérios de progressão e permanência baseados na exigência e no mérito — é do mais democrático, progressista e socialmente desejável. Se seguirmos a via do facilitismo, da mediocrização dos programas, de falta de exigência — supostamente para não "excluirmos" ninguém — acabaremos no grau zero do conhecimento, pois só aí não haverá quem fique aquém dos objectivos (nulos). A estupidificação dos programas oficiais beneficia, em termos de competição, os que não têm na educação a sua bóia de salvação social. Uma escola exigente, que exponha os alunos a aspectos elevados da cultura, que lhes abra perspectivas, será para muitos (os mais desfavorecidos) a única oportunidade de irem mais além. Por isso é tão perturbante e desanimador ver rebanhos inteiros (não escolho o termo por acaso) de jovens de meios desfavorecidos desperdiçarem a oportunidade de educação que o Estado lhes dá — por parca que esta seja. Os filhos de Bill Gates podem dar-se ao luxo de desprezarem uma educação, de recusarem o esforço pessoal (coisa que, sintomaticamente, é pouco provável que ocorra) — alguém no fundo da pirâmide social não o pode, e se o fizer perde o direito a indignar-se com a situação "a que o votaram".

Porque as pessoas que nascem desfavorecidas dividem-se em duas categorias: as Porques e as Apesares. As Porques arranjam sempre uma (des)culpa para a sua situação e o seu imobilismo — e a culpa, pois claro, está quase invariavelmente alhures. Já as Apesares passam da constatação da sua circunstância à acção, certas de que só um esforço extra permitirá remediar o handicap com que partem — e, apesar dos pesares e dos penares, conseguem subir na vida. Permitir-me-ei a semi-inconfidência de manifestar o meu orgulho por contar no meu círculo mais chegado de amigos com um bom exemplo de um Apesar: alguém que, isolado como poucos, sem electricidade em casa até aos 18 anos, cedo percebeu que a educação era o seu único passaporte para fora daquilo tudo — e, apesar do sobrestimado meio, mas não sem o tal esforço extra, venceu; alguém que à facilidade de se contentar em ser um Porque preferiu a (auto)exigência de se fazer um Apesar.

Abrir mão de uma educação exigente é confiscar o passaporte aos desfavorecidos.

* Vem-me à lembrança o caso do meu pai, que na década de 1950/60 não pôde realizar o exame do Liceu como autoproposto, por não ter um "fiador" que se "responsabilizasse" por ele (contra que "perigo"?).

4.

Voltando ao seu e-mail. Fala da falência do chamado «modelo francês», anteriormente tão elogiado por países que «têm o mesmo problema com a imigração» que a França, como sejam a Inglaterra e a Alemanha. Pois com certeza que o modelo falhou — falhou, antes de mais, porque é um modelo que, na prática, exige pouco dos seus beneficiários («Vai-se buscar o subsídio de desemprego e é tudo», dizia no Público de sábado um imigrante congolês) e, depois, porque a imigração é, como diz, um problema, e grave.

O fenómeno da imigração na França, um exemplo de Estado social europeu, acarreta dolorosas lições para alguém com background político de esquerda, como é o meu caso. Mostra que tal modelo só funciona se a comunidade no seu todo partilhar um mesmo conjunto de valores, e se esses valores incluírem os deveres de esforço pessoal e de retribuição para a sociedade, que os ajudará nos períodos de carência, que uns e outros desejam breves. Permitir que beneficie do modelo quem não partilha desta visão, quem do modelo gosta da secção dos direitos, mas não da dos deveres, levará (levou) inevitavelmente ao surgimento de indolentes (e, a prazo, de descontentes without a clue) — e à falência do modelo. Ora, se entre os autóctones há certamente muitos indolentes e entre os imigrantes há sem dúvida incontáveis casos de pessoas dispostas a todos os esforços para singrar na sociedade de acolhimento, a verdade é que o modelo europeu estimula bem mais a indolência do que, por exemplo, o modelo americano, mais realisticamente cruel. E a indolência é sempre menos tolerada em quem vem de fora — é uma realidade insofismável («Para parasitas, bastam-nos os que já cá temos», dizem não sem razão alguns). Se a isso somarmos imigrantes que se encontram menos dispostos a abrir mão de certos valores das suas sociedades de origem (valores que viu-se no que deram) e pouco afoitos a aceitar como seus os valores fundamentais da sociedade de acolhimento — como é o caso dos magrebinos em França —, o divórcio entre o que o modelo pressupõe de quem dele beneficia e o que os beneficiários realmente estão dispostos a retribuir ao modelo transforma-se a breve trecho num abismo instransponível onde o modelo cairá e se afundará.

Isto é, já o disse, uma dura lição para alguém com formação de esquerda: não só ter de admitir que nem todas as pessoas estão naturalmente dispostas a dar o melhor de si em prol do bem próprio e comum, mas igualmente reconhecer nestas ideias muitas das bandeiras do espectro político oposto. Mas, politicamente, não me defino por oposição ao que O Outro defende — e, nisto como noutras coisas, muito aprendi para lá do que me serviram prêt-à-porter nos bancos da "escola". O grande problema da Esquerda é continuar a defender as mesmas coisas, malgré la réalité. Enquistar em conclusões a priori que o curso do tempo já desmentiu é partir para a rendição à "verdade revelada". E se recuso tal coisa num aspecto da vida, não vejo por que me agarrar a semelhante tábua de salvação política — correria bem o risco de, pelo contrário, me afundar com os destroços do barco ideológico.

5.

Continuando, diz o Filipe Guerra a certa altura que «o mal foi terem posto essas pessoas em cités próprias e em não as terem dispersado pelas cités comuns espalhadas por toda a parte». Isso, concordo, foi um mal (e não o mal, pois bem estaríamos se o problema se reportasse a uma única fonte). Tal isolamento, ainda que evite problemas imediatos (os «conflitos» a que alude), cria-os a longo prazo, pois contribui para o ensimesmamento da comunidade alógena, dificultando a tal apropriação dos valores da sociedade de acolhimento a que me venho referindo como de capital importância.

Mas proceder de forma diferente é, como dizem os anglo-saxões, easier said than done. Para além da questão dos conflitos a curto prazo (que todos os políticos querem evitar, pois eles mesmos terão de resolvê-los — e também as eleições decorrem a curto prazo...), pergunto-me qual seria a reacção dos imigrantes, dos defensores dos direitos destes — e de si, Filipe Guerra — se a política adoptada pelo governo francês fosse, declaradamente ou de forma tácita, «dispersem-se os imigrantes pelas cités». Diriam, por certo, que o governo tentava com tal política discriminatória evitar que a comunidade imigrante ganhasse consciência de si própria; diriam que com tal política até nos seus bairros seriam minoria, logo sem condições de exprimirem livremente a sua herança cultural, que desta forma lhes seria vilmente amputada (e logo os multiculturalistas saltariam para cena, qual coro grego); diriam que a dispersão visava garantir que nunca os imigrantes teriam relevância demográfica em qualquer zona, impedindo-os assim de ganhar peso político, quem sabe eleger um maire («cruz-credo, o governo não quer isso, por isso nos dispersa!»); diriam que tal política de dispersão era a manifestação de uma reacção epidérmica de alergia, de desconfiança em relação ao Outro, que a priori, inapelavelmente, é considerado potencialmente perigoso e passível de controlo («que nunca sejam muitos: "dividir para reinar", eis o mote!») — um ou outro mais imaginativo faria um colorido paralelo entre a política dispersão da população imigrante do governo francês e a política de dispersão dos presos etarras seguida pelo governo espanhol (com a agravante, em desfavor do governo francês, de os imigrantes nada terem feito).

Reconhece-se nalgumas das reservas a esta hipotética política de dispersão populacional?

Por outro lado, mais ou menos pela mesma altura, diz o Filipe Guerra que a degradação das cités provocou, entre outros males, «a fuga dos franceses que viviam, em minoria, nessas cités». Ora, o facto de existirem originalmente franceses nessas cités é sinal de que tais empreendimentos habitacionais não foram pensados como espaços de confinamento para este ou aquele grupo étnico-religioso imigrante: destinavam-se às classes desfavorecidas (pelo que não se situavam em zonas nobres — deixemo-nos de histórias da carochinha); se os franceses eram minoritários, tal não se devia a um planeamento maquiavélico, mas à realidade demográfica das classes mais baixas. E se os franceses maioritariamente de lá saíram e os outros não, foi porque uns maioritariamente trataram de fazer pela vida e os outros não (e sim, já admiti — como não?! — que é mais fácil um cidadão de etnia europeia "fazer pela vida" do que um estrangeiro e/ou de outra etnia).

A verdade é que muitos dos deserdados da periferia das grandes cidades não só não fizeram nada (ou fizeram muito pouco) para mudarem de vida, como nada fizeram para sequer terem a vida modesta que têm. «Vai-se buscar o subsídio de desemprego e é tudo», dizia o outro. Até a casa (que, diz-me, nem é miserável) do bairro degradado em que vivem lhes foi dada pela dita sociedade «madrasta». Eles nada contribuíram. Ou melhor, contribuíram com a degradação, que isso sim, é da sua lavra.

6.

Finalmente, e porque isto já vai demasiado longo, a questão da recusa em arrendar casas a negros e árabes em certas zonas «brancas», a recusa de trabalho condigno a magrebinos ou negros altamente qualificados. Não nego esse facto (quando incluí a pergunta sobre isto no meu post anterior já sabia que iria apontar estas ocorrências), mas é importante notar que tal não resulta da aplicação de qualquer política do governo, ao contrário do que se passava na África do Sul do Apartheid ou no Sul dos Estados Unidos até pelo menos à década de 1960. Esta diferença é fundamental — pois o governo pode ser responsabilizado pelas suas políticas, mas não pelo que vai na consciência de cada um (que não é coisa que se mude por decreto — pelo menos não numa sociedade onde eu queira viver). Os preconceitos existem, é verdade. É triste que assim seja, devemos combatê-los, e tudo o mais. Mas eles sempre existirão, em especial (cá estamos nós outra vez) quando o que nos separa (nos diferencia) é mais do que o que nos une.

Mas convém não esquecer como se formam os preconceitos. Em primeiro lugar, poucos "preconceitos" o são, tecnicamente (isto é, pré-conceitos, conceitos a priori). Os ditos preconceitos são regras gerais inferidas a partir de uma amostra particular (logo são efectivamente pós-conceitos, conceitos a posteriori). E o ser humano passa a vida a fazer generalizações — não conseguiria sobreviver sem elas («largo um objecto e ele cai; as chamas queimam, as cobras são perigosas»). O problema, obviamente, é saber se a amostra de onde se inferiu a regra geral é representativa da realidade que se pretende caracterizar, pois disso depende a propriedade da avaliação posterior de um elemento não pertencente à amostra original (mas supostamente tendo algo de comum com ela); se a amostra não for representativa, diz-se que estamos perante uma generalização abusiva ou precipitada (por exemplo, se largar um balão cheio de hélio, ele não cai, sobe). O dito preconceito (que, já se viu, não o é) é então uma generalização abusiva de cariz negativo (com as de cariz positivo ninguém se preocupa). Haverá imigrantes imerecedores dos preconceitos de que são alvo? Certamente que há.

Voltando aos actuais motins (com o agravar da situação a palavra começa a soar branda). Admitamos que eles sejam a face mais visível de um sentimento de injustiça, que quem assim procede "protesta" contra a discriminação de que é alvo. Reagir aos preconceitos com comportamentos que confirmam esses mesmos preconceitos é, no mínimo, pouco inteligente. Faz lembrar, num plano anedótico, a história dos dois irmãos, em que diz o primeiro: «Eu e ele nunca estamos de acordo.» «Isso não é verdade!», retorque o outro. (I rest my case...)

Reagir aos preconceitos com comportamentos criminosos que confirmam e reforçam esses mesmos preconceitos não é só pouco inteligente — é merecedor de pouco, de nenhum respeito.


Em jeito de post-scriptum, é quase com esforço que consigo recordar-me que quem escreve estas palavras é a mesma pessoa que, talvez não há cinco anos, aderia à seguinte campanha da Comissão Portuguesa dos Refugiados:

Campanha 'Diversidade: no fundo, é isso que é ser europeu!'

No plano teórico, continuo a achar que a «quem vier por bem», como diz o povo, deve ser dada uma oportunidade de uma vida melhor; mas, no plano prático, sabendo que até os filhos de «quem vem por bem» podem tornar-se no que por estes dias vamos vendo, as minhas reservas e as minhas cautelas aumentaram exponencialmente. Pergunto-me (e pergunto-lhe, Filipe Guerra) se fui eu que traí os meus ideais, ou se foram ou meus ideais — e a realidade — que me traíram a mim. FG 05–07/11/2005

GUETIZAÇÃO (2)

Filipe Guerra, take 3:

Fernando Gouveia, as suas perguntas são pertinentes, as suas dúvidas são legítimas, mas as suas conclusões assentam em pressupostos que não levam em linha de conta a realidade do que em França se chama a guetização. Não se trata de um fenómeno estanque ou sequer bem delimitado, mas foi acontecendo, principalmente nos últimos 10-15 anos, quando os imigrantes portugueses já estavam mais ou menos integrados. É claro que tem razão quando diz que o dinheiro e o estatuto económico contam: um árabe com muito dinheiro e uma boa profissão deixa de ser árabe, um negro milionário torna-se branco (vejam-se os músicos de sucesso, os futebolistas, os grandes escritores, cientistas e altos funcionários de origem magrebina que há em França) e, aqui, o seu exemplo dos dois irmãos que nasceram iguais e em que um singra e outro não tem todo o cabimento. O que se passa com a guetização é que ela aconteceu por via das políticas sociais do governo e, sobretudo, das mairies, principalmente no que toca à habitação. Essas políticas até foram bem intencionadas e chegaram a ser louvadas por outros países que têm o mesmo problema com a imigração, como a Inglaterra e a Alemanha. É o chamado «modelo francês». Mas, como se tem visto de há dez anos a esta parte, esse modelo falhou. As municipalidades em França, sejam de esquerda ou direita, têm um grande papel social e, acredito que com as melhores intenções (para evitarem «conflitos»), foram colocando as camadas mais pobres de imigrantes e de franceses não europeus (a maioria dos «estrangeiros» em França) em «cités» a eles destinadas, nada piores do que algumas cités para europeus. Acontece que as crispações étnico-religiosas (sim, elas existem), o aumento do desemprego, o insucesso escolar (acho que está tudo ligado), foram degradando física e socialmente essas cités e foram reforçando o terrível círculo vicioso da miséria e da discriminação, além de provocarem a fuga dos franceses que viviam, em minoria, nessas cités. Para mim, o mal foi terem posto essas pessoas em cités próprias e em não as terem dispersado pelas cités comuns espalhadas por toda a parte. Talvez tivesse havido mais integração, embora não eliminasse as outras causas que levam à discriminação. Recordo-me que, nos anos setenta, todas as cités de todas as banlieus parisienses eram habitadas maioritariamente por franceses, com componentes maiores ou menores de portugueses, espanhóis, magrebinos, turcos, antilhanos, jugoslavos, etc., etc. Acho que isso ajudou a resolver muitos problemas de integração e que deu mais oportunidades às qualidades individuais de cada um, fosse francês ou estrangeiro. Quanto a algumas questões que o Fernando levanta, de cariz mais particular e que não se enquadram portanto na minha visão do que é a guetização global em França, mas se prende mais com a dificuldade de socialização do «estrangeiro» criada pelas instituições, pelos patrões e pelo atavismo nacionalista da maioria dos franceses, posso dizer que tenho conhecimento, pelos jornais e por familiares e amigos meus que vivem em França, que há muitíssimos casos (demais) de discriminação bruta em que não está em causa o dinheiro ou o estatuto social do estrangeiro: recusa de alugar casas em certas zonas «brancas», recusa de trabalho condigno a técnicos magrebinos ou negros altamente qualificados, etc. Quanto aos portugueses de segunda e terceira geração, as coisas parecem estar a correr bem no tocante a integração: cada vez há mais casamentos mistos, mais universitários, mais trabalhadores qualificados em postos chaves, etc, etc., só falta o próximo presidente francês chamar-se Carvalhô.

A resposta, que se deseja (e merece ser) pensada, estará aqui logo que possível. FG 04/11/2005

GUETIZAÇÃO

Tem de novo a palavra Filipe Guerra:

Fernando Gouveia, a sua argumentação seria inatacável se não houvesse um erro técnico nas suas premissas. A guetização é um fenómeno relativamente recente, não atingiu, nem atinge, os imigrantes portugueses. Por acaso fui emigrante em França nos anos 60-70 e não havia guetos, ou eram muito incipientes, motivados tão-só pelo preço das casas e, nas banlieus baratas, viviam os portugueses e outros imigrados misturados com franceses trabalhadores que tinham praticamente o mesmo estatuto económico e social. Assim, a integração foi possível, embora difícil. O único gueto era o bidonville que, como sabe, desapareceu ainda na década de 70. Actualmente, Clichy-sous-Bois, por exemplo, é uma cidade normal com amplas zonas de APENAS árabes e africanos incrustadas no tecido da cidade (como a Cova da Moura na Amadora, mas sem barracas). A política de confinar a estas zonas os imigrados e os franceses de etnia não europeia é que vem provocando este conflito latente, agravado pela crise social e económica por que passa a França. Como pode dizer que haja alguém que não quer ser integrado numa sociedade? A não ser que essa sociedade lhe seja madrasta e o isole.

Está certamente mais por dentro da realidade francesa do que eu, pelo que pergunto:

  1. Um árabe que tenha dinheiro para adquirir habitação própria (ou alugar uma) noutra região que não no "gueto" a que supostamente o confinaram é impedido de o fazer? Porque só assim há gueto. Não habitar no Faubourg Saint Honoré porque não conseguimos pagar a renda ou a hipoteca não é guetização — eu também prefiro Beverly Hills ou o Upper East Side de Nova Iorque a Vila Real, mas vou-me ficando por cá...
  2. A "política de confinamento" a que se refere é motivada por razões étnicas/religiosas, ou simplesmente pelo mercado dos terrenos para a construção de habitação social? (Existem habitações sociais espalhadas pelas zonas "nobres" ou simplesmente "normais" — sem sinal de confinamento, portanto — que se destinem exclusivamente a cidadãos franceses carenciados e de etnia europeia? Ou, pelo contrário, todos os de poder económico mais baixo se encontram "confinados" às zonas mais baratas — com a ressalva, que não nego, de serem os carenciados esmagadoramente imigrantes e franceses de etnia não europeia?)

As respostas às perguntas anteriores são fundamentais para se poder dizer com propriedade que existe um "política de confinamento e guetização". E não, como acontece em toda a parte, que simplesmente quem consegue arranja melhor.

Ora, se alguns esmagadoramente não conseguem arranjar melhor, convém interrogarmo-nos se as culpas serão exclusivamente exógenas (a tal sociedade «madrasta»), ou se não haverá também uma larga dose de culpa própria. Esta é uma pergunta que uns não fazem por recusa da autocrítica, outros por autocensura.

Isto remete-me para um documentário que vi há alguns anos, sobre dois magrebinos que, ainda adolescentes, foram da Argélia recém-independente para França. Como muitos outros, foram colocados num "gueto" periférico da região de Paris, onde cresceram juntos e até foram colegas de escola. Trinta anos depois, o primeiro (chamemos-lhe 'A') mudou-se para uma área nobre do centro de Paris, é médico ou advogado (não me recordo bem) e o filho segue o mesmo caminho; o segundo ('B') vive no mesmo bairro, cada vez mais "guetizado", e as perspectivas do filho não são melhores. Ambos têm aspecto magrebino, não europeu; ambos foram inicialmente remetidos para o mesmo bairro de imigrados; ambos tiveram acesso ao mesmo sistema de ensino público — um progrediu, o outro deixou-se ficar (o que é uma forma de regressão). Deverei omitir a informação de que 'A' é judeu e 'B' muçulmano? Deverei autocensurar-me para não soar racista? (Tarde demais.)

A sociedade pode ser madrasta — mas há quem nada faça para aproveitar as oportunidades (poucas, que sejam) que esta (maternalmente?) até lhes vai apresentando. É mais fácil queixar-se sentado do que levantar-se e tentar andar. FG 04/11/2005

DAS RAZÕES DOS MOTINS EM FRANÇA

De Filipe Guerra:

A observação de FG, aparentemente justa, peca pela simplificação. Dois adolescentes electrocutados (por medo e «culpa» própria) foram apenas o despoletar de uma situação social muito grave que até o governo francês admite. Desde há muitos anos que a França (e eu conheço a França, não só pelos jornais ou pelas sentenças francófonas ou antifrancófonas dos grandes pensadores sociais portugueses) procede a uma guetização de certos extractos da sua população ou de populações imigradas. Admito que esta guetização é «democrática» porque é apoiada pelo grosso da população dos franceses de primeira. Ora,os franceses de segunda é que não são de pau e o seu sentimento de discriminação, à força de tanto referver em fogo lento, acaba por entrar em ebulição de vez em quando, com todo o cortejo de vandalismos idiotas e injustiças cometidos pelos jovens voyous que queimam os carros dos próprios pais e de trabalhadores ou desempregados da própria zona onde habitam e protestam. Foi o caso. Acrescente-se que a revolta cega destas pessoas provém não só da sua confinação em guetos mas também da crescente liberalização económica da sociedade francesa (que mesmo assim continua a ser das mais protegidas socialmente do mundo), liberalização essa que traz por arrastamento mais desemprego, mais precaridade, mais insegurança, mais medo e mais crime. Vistas as coisas assim, a pergunta «protestos contra quê?» até tem uma resposta lógica.

Caro Filipe Guerra, nunca disse que não havia um motivo por detrás dos motins — mas uma coisa diferente é haver uma razão (ou tê-la quem assim procede). Quanto a ser esta uma «situação social muito grave», tal salta aos olhos de todos — o que não invalida que seja inaceitável e injustificável o "protesto" (não pense que por um minuto outra coisa passa pela cabeça do governo francês).

Com sua licença, guetizados foram também (e, em parte, são ainda) os imigrantes portugueses e de muitas outras nacionalidades. É quase uma sina da imigração, pelo menos até à segunda geração. Mas não consta que tenham partido para o motim em jeito de guerrilha suburbana. A grande diferença, caro Filipe Guerra — e a razão do abismo entre o respeito que tenho por uns e por outros — é que os portugueses eram imigrantes guetizados que queriam ser integrados, queriam sair do gueto, queriam funcionar plenamente na sociedade que os acolheu — queriam fazer algo por si próprios; custou (está a custar), já lá vão três ou quatro gerações, mas é um caminho que está a ser percorrido. E estes? FG 04/11/2005

PROTESTOS CONTRA O QUÊ?!

Os subúrbios de Paris andam a ferro e fogo desde quinta-feira passada: carros incendiados, montras partidas... Segundo os jornalistas, os motins (alguns dizem «os protestos») levados a cabo por grupos de adolescentes em fúria foram motivados pela morte de dois deles.

Agora o cenário: as duas mortes ocorreram na sequência de uma fuga à polícia, que perseguia suspeitos de uma tentativa de assalto. E nem sequer estamos perante um caso de excesso de zelo policial, uso excessivo de força ou recurso evitável a arma de fogo: os adolescentes morreram electrocutados, porque se esconderam num posto de transformação.

Apetece perguntar: protestos contra o quê? A sua própria estupidez? Não há respeito possível... FG 02/11/2005

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