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Página de entrada do blogue (últimas) O PARADOXO DO GUINNESSAos vinte anos fez a primeira tentativa de inscrever o seu nome no Livro de Recordes do Guinness. Falhou. Nos cinquenta anos seguintes tentaria uma e outra vez, incansavelmente, estabelecer o recorde a que se propusera. Rotundos fracassos, sempre. Entrou para o Guinness. FG 19/12/2005 VAMOS LÁ MAS É ACABAR COM ISTOA Periférica vai acabar. Não adianta carpir, porque é decisão madura, colectiva, irreversível. E é também a decisão certa. Permitam-nos o nosso momento de humildade: o patamar que a revista atingiu, a visibilidade, o grau de exigência juntam-se num perfil para o qual já só com muito esforço estamos à altura. Fazer uma boa Periférica exige talento, tempo, dedicação, atenção, treino — uma redacção em forma e altamente disponível. De todos requisitos apenas nos sobra o talento. Mas é, cada vez mais, um talento destreinado, com um quotidiano avesso, a olhar noutras direcções. De resto, desde o início dissemos que não ficaríamos para sempre, que faríamos o que nos apetecesse. E o que nos apetece é acabar com a revista. Sem mágoa, nem nostalgia. Sem lamentos, nem acusações. Ninguém tem culpa do fim da Periférica — apenas nós e a nossa vontade de voltar a mudar de vida. A Periférica é só o nosso segundo projecto. O número catorze será o último número. Sairá em Janeiro, para não estragar o Natal (o nosso). Não queremos que a última edição seja um presente do bonacheirão Pai Natal. Preferimos vê-la como uma prenda de sábios, de reis. Mesmo que saia um pouco depois do dia deles (a distribuição não seria mais lenta se fosse feita em camelos). Não será um número revivalista, carregado de epitáfios laudatórios (tirando, talvez, o necessário editorial de autocomprazimento). Se for um número invulgar, será por alguma súbita inspiração de génio que nos acometa. Mas estamos disponíveis para propostas de colaboração de última hora — assim como assim, já rejeitámos tanto entulho nestes três anos que nem daremos pela diferença. Vamos lá fazer história. RP 22/11/2005 OS NÚMEROS NEGROS DA EDUCAÇÃO EM PORTUGALO Público online de ontem anunciava que, por despacho do Ministério da Educação, «Os conselhos pedagógicos das escolas básicas terão o poder de decidir se os alunos repetentes em vias de voltar a não passar de ano vão ou não ter aproveitamento» [leia-se, passarão «porque sim»]. O objectivo, anunciavam as televisões à noite, é «contrariar os números negros da educação em Portugal». Não tenho muitas dúvidas de que tal medida facilitista (a n-ésima...) conseguirá branquear um pouco os números negros — já a realidade, essa ficará mais negra. FG 17/11/2005 QUASE 10 LIVROS QUE MUDARAM O MUNDOFinalmente lá comprei 10 Livros que Mudaram o Mundo (ed. Quasi). Para além de dez dossiers «do professor» (mais de metade das páginas), o livro, para minha surpresa, inclui apenas nove das dez conferências originalmente apresentadas na Biblioteca Municipal de Oeiras. A conferência em falta, sobre o Manifesto do Partido Comunista, foi proferida por José Pacheco Pereira. Terá o eurodeputado recusado a publicação nesta editora de menos nome... ou dever-se-á a ausência à incapacidade de cumprimento dos prazos por parte do revisor do texto? FG 10/11/2005 PARA ACABAR UM DEBATE QUE JÁ SE ARRASTAPela última vez neste tema, tem a palavra Filipe Guerra:
E, também pela última vez (porque também eu estou farto), a minha resposta:
FG 10/11/2005 REABILITAÇÃO DE DOIS EQUÍVOCOSHá pouco mais de um ano, ouvi comentar na Antena 1 certos deslizes linguísticos de pessoas ligadas à esfera do desporto. Lembro dois desses equívocos e, longe de os envolver de ironia, julgo ser adequado reabilitá-los, em nome do ampliação do idioma de Camões. Num deles, a expressão foro íntimo é substituída por forno íntimo. No outro, em lugar de espada de dois gumes evoca-se uma estranha faca de dois legumes. Ora foro íntimo designa a consciência. Por sua vez, o termo forno, além do seu sentido literal, remete-nos para o athanor dos alquimistas. É aí que, mediante a acção do fogo secreto, se realiza a operação de separação do enxofre e do mercúrio contidos na matéria-prima. O objectivo último é transmutar o chumbo da personalidade no ouro puro do espírito. Embora enigmático, talvez o forno em questão aqueça a consciência e ilumine os seus obscuros arrabaldes. Deste modo, forno íntimo constitui, sem dúvida, uma expressão idiomática muito mais abrangente, sugestiva e apropriada do que a sua desenxabida matriz. Quanto à espada de dois gumes, ensina-nos o dicionário que tal coisa se refere àquilo que tem vantagens e inconvenientes. Sendo assim, deverá manter-se em uso, a par da sugerida faca de dois legumes, que parece, ao invés, querer traduzir apenas aquilo que tem vantagens. De facto, dois legumes equivalem, no presente contexto, a uma pluralidade indefinida de hortaliça. Por conseguinte, a pátria só terá a ganhar se (conservando ou não o original) forno íntimo passar a significar o caloroso âmbito da consciência e a faca de dois legumes puder gravar na pele da língua a sua cortante vitalidade. JFB 09/11/2005 POST-SCRIPTUM AO MEU POST ANTERIORSobre a questão da miscigenação, ficou por dizer o mais evidente: que no tocante aos muçulmanos o principal entrave vem da parte deles: muçulmanas casadas com não muçulmanos, impensável; muçulmanos casados com não muçulmanas, permitido se forem dos «Povos do Livro» (cristãs ou judias). Na prática, o casamento com cristãs é bivalente (visto de certa forma como uma ascensão social, mas tacitamente reprovado pelos mais rigorosistas — apesar de os filhos deverem ser sempre educados no Islão) e o casamento com judias é quase impossível desde a criação do Estado de Israel. Por isso, quando é o "discriminado" que levanta os principais obstáculos à salutar mistura de raças e culturas, quando se dá ao luxo de impor condições discriminatórias, o meu respeito pela sua "situação" é, uma vez mais, muito pouco. (O mesmo vale para o povo cigano, igualmente discriminado, igualmente discriminador.) FG 09/11/2005 AINDA PARIS (MAS NÃO SÓ)Uma vez mais, tem a palavra Filipe Guerra:
Caro Filipe Guerra, se o arrasou ler o meu desabafo (pois disso se tratou), imagine como fiquei eu depois de escrevê-lo... Por isso vou tentar ser breve, embora saiba que vou certamente estender-me por muito mais do que desejaria. Quanto à crítica de que me dispersei (véu islâmico, posições da Esquerda, etc.), a resposta deu-a você mesmo: não há fenómenos isolados. A minha referência às posições da Esquerda deveu-se ao facto de este quadrante político (em que já me enquadrei) cair frequentemente no erro de dar "cobertura" ideológica a crimes como os tumultos destes dias. O próprio Filipe Guerra diz que não desculpa nem justifica, mas o facto de pôr toda a ênfase nas condições sociais em que vivem (como se eles não fossem parte responsável nisso...) funciona, de facto, como uma desculpa e uma justificação. Eu reconheço que existe um problema, e que factores externos aos sujeitos em causa contribuem para agravar o problema, mas não tenho dúvida de que o principal culpado da sua situação são eles próprios — porque acredito que recai sobre o discriminado o principal ónus da tentativa de alterar a situação, pois é ele o maior interessado. Dispersão por dispersão, reincido: um dos principais erros da Esquerda, e o que me leva progressivamente a afastar-me dela, é enredar-se na sua própria esparrela de se tomar por protectora dos fracos e desvalidos — a todo o custo. Num conflito, escolhe sempre o lado do fraco e não o lado do que tem razão (ou que tem mais razão), pois nega totalmente a possibilidade de o forte ter mais razão: o imigrante ou o cidadão nacional pertencente às minorias desfavorecidas tem sempre, na opinião da Esquerda, mais razão do que o Estado, a maioria folgada ou a minoria privilegiada. É incapaz de reconhecer um defeito ou um erro de procedimento num "desfavorecido", ou, se o faz, fá-lo à boca pequena, enterrando-o imediata e apressadamente numa avalanche de erros da outra parte, para disfarçar o mini-sacrilégio. Diz que ninguém quer ser vítima. Concordo. Mas muita gente quer deixar de ser vítima sem se predispor a alterar o que quer que seja na sua forma de proceder, que comprovadamente leva à discriminação. Também ninguém quer apanhar a SIDA, mas se persistir em comportamentos reconhecidos como potenciadores do contágio, a vontade é apenas nominal («wishful thinking»), não é uma vontade de facto. Não percebo o que quer dizer quando, mais à frente, recomenda que me vá «informar melhor sobre este pormenor [da habitação social] para não o utilizar como falso argumento de debate». É que é o próprio Filipe Guerra quem diz que «inicialmente, nunca há grande diferença entre uma cité de trabalhadores europeus e uma cité de trabalhadores magrebinos (as escolas são iguais, os prédios são idênticos (maus), as distâncias a percorrer no comboio suburbano são as mesmas, etc.» Ora, se «O que acontece é que essas cités se degradam» (e, deduzo das suas palavras, a dos imigrantes de origem europeia não tanto), apetece perguntar por que será. Porquê esses bairros e não os outros? Haverá arruadas de meliantes de etnia europeia em campanhas de vandalismo pelas cités dos magrebinos? (Até ponho a possibilidade de haver um ou outro caso de incursões xenófobas, mas não creio que seja por aí...) Não tenhamos o pudor de apontar o dedo a quem de direito: os próprios residentes (alguns, pelo menos) não respeitam aquilo que lhes foi dado e tratam de tornar pior o que já não era famoso. Pergunta depois: «o que favorece a integração: a dispersão e miscigenação, ou o gueto, triste consciência de si próprio, símbolo puro do isolamento étnico?» Já admiti que seria melhor a dispersão, por evitar o ensimesmamento. Quanto à miscigenação, isso também não vai de políticas (pelo menos não num país onde me apeteça viver). E aqui, digo-lhe, é menor entrave a diferença racial do que as diferenças de valores e as diferenças culturais, principalmente as de ordem religiosa. Dou-lhe o meu caso: pensasse eu casar-me de todo, e não punha liminarmente de parte um casamento com alguém de qualquer grupo étnico (embora tenha, ao nível puramente estético, as minhas preferências) — mas, sendo eu ateu, seria impensável para mim (estivesse eu no meu perfeito juízo, que isto do amor tem muito que se lhe diga) casar-me com uma mulher profundamente religiosa, em especial se essa religião defender visões da mulher, do ser humano em geral e do mundo que conflituam com as minhas. Chamem-lhe pouca abertura de espírito — eu chamo-lhe profilaxia, pois os conflitos acabariam por surgir, e nesta coisa dos conflitos é melhor evitá-los do que remediá-los (no fundo, é do que vimos falando). E se quer que lhe diga, se há coisa que me surpreenda é que haja, por poucas que sejam, francesas não muçulmanas que casem com homens muçulmanos. Porque essas mulheres não se condenam apenas a si ao fardo do Islão (até para um ateu há religiões mais perniciosas do que outras...); condenam igualmente os seus filhos e netos — e, bem mais doloroso de ver, as suas filhas e netas —, pois por definição os descendentes de um muçulmano são muçulmanos, e mudar de religião (em cuja escolha não foram parte ouvida) é apostasia. Abreviando, porque já vai (uma vez mais) longo: Famílias numerosas, subsídios de desemprego e abonos de família curtos? Acordem para a realidade, concluam (como outros antes deles) que há que mudar mentalidades. Subsídios concedidos por períodos cada vez mais curtos? Óptimo: uma ideia aparentemente boa criou vícios; há que evitar o acomodamento. Os putos não estudam? Não nos esqueçamos da quota de culpa própria (maioritária, digo eu); os exemplos de gente sem condições que singrou provam que é possível, mas que só lá foram com esforço. E agora, definitivamente, repito-me. FG 08/11/2005 P.S. Para me focar minimamente num tema, tentarei escrever brevemente sobre outros exemplos de "causas" e "bandeiras" da Esquerda (ou que reflectem princípios originalmente de esquerda) que, pela forma acrítica com que são defendidas, contribuíram e contribuem para o meu crescente afastamento desse quadrante político. SOB O SIGNO DA REVOLTA (A MINHA)Caro Filipe Guerra, aqui tem a resposta que a realidade me faz escrever: 1.Por distracção, ficou por responder uma pergunta que me dirigiu no e-mail anterior, concretamente, como posso eu dizer que haja quem não queira ser integrado. Pois bem, há-os. Não porque digam «Não queremos ser franceses como os demais» (em estatuto e direitos — já em deveres...), mas porque não estão dispostos ao esforço e às cedências que a integração significa. Veja-se o caso do véu; dê-lhe uma geração e teremos quem reclame a aplicação da sharia em França (tudo em nome da identidade cultural da comunidade, claro). Ora, integrar-se numa sociedade é aceitar um corpus mínimo de valores comuns — e ver o djalaba como um tratamento indigno da mulher faz parte desses mínimos franceses e ocidentais. Ninguém lhes exige que mudem de religião e comam presunto regado a tinto — mas "em Roma sê (um pouco) romano" ainda é um bom conselho e uma boa regra de cortesia a adoptar (para além de uma medida inteligente): queira eu algum dia entrar numa mesquita e cumprirei as normas que me impuserem — ou recusar-me-ei a cumpri-las e abster-me-ei de entrar; e se entro em igrejas para observar a arquitectura, é porque não me obrigam a ajoelhar frente aos altares; passem a obrigar-me e deixarei de entrar. Aproveito também para rectificar ou relativizar algo que escrevi há dois posts atrás, concretamente, que os portugueses queriam ser integrados, enquanto (deixei implícito) isso não aconteceria com os magrebinos. A salvaguarda que ficou por fazer (apontam-me, e bem, aqui ao lado) é que não só houve também portugueses que pouco fizeram para se integrarem, que se remeteram às margens da sociedade francesa, como houve certamente muitos magrebinos que tentaram e conseguiram uma integração de sucesso (falo deles no ponto 2); e, dos que não tentaram ou não conseguiram, só uma minoria passou de marginal no sentido de "à margem, excluído" a marginal no sentido de delinquente. O que parece evidente é que as percentagens de uns e de outros dão clara vantagem aos portugueses. E se um dos factores a ter em conta será o racismo da sociedade receptora (que sem dúvida penaliza mais os magrebinos e os negros do que os portugueses e outros europeus), creio ser mais determinante o facto de os nossos valores se aproximarem mais, à partida, dos franceses do que os valores das sociedades muçulmanas e africanas. Por isso é mais fácil a assunção dos novos valores, ou é menos grave a recusa em adaptar-se: fere mais a coesão social a defesa do djalaba e a mutilação genital feminina do que a apologia da superioridade do bacalhau com todos. 2.Quanto ao meu exemplo (que não é meu, mas de um documentário) do judeu e do muçulmano de berço comum e destinos diferentes, que se note que não pretendia negar a existência de casos de sucesso entre a comunidade islâmica. Ainda que, convenhamos, o par inverso (judeu imobilista/muçulmano de sucesso) é estatisticamente mais raro, havendo razões de ordem cultural (do campo dos valores) que o justificam — e se o baixo padrão socioeconómico dos muçulmanos potencia a sua discriminação, não deixa de ser significativo que, pelo contrário, seja o frequente sucesso da comunidade judaica a raiz mais funda do anti-semitismo moderno... Mas os casos de "sucesso muçulmano" são significativos — não só porque provam que é possível alcançar o sucesso (já eu, na Arábia Saudita, não só nunca seria um cidadão de sucesso, como nem cidadão ou residente permanente poderia ser...), mas igualmente por aquilo que nos dizem dos factores determinantes do sucesso. E o que nos dizem? Que tais magrebinos nasceram em bairros mistos, com franceses e estrangeiros de todas as cores e feitios em perfeita harmonia (quando não em comunhão, em amena cavaqueira!), com um padrão de vida acima do acessível ao comum do imigrante magrebino? Esmagadoramente, não. Os magrebinos de sucesso tiveram, com raras excepções, o mesmo princípio de vida que a turba de falhados que queima carros e edifícios nos arredores de Paris. O sucesso não lhes veio do "meio favorecido" — resultou da combinação de (1) talento natural acima da média e (2) vontade de vencer e capacidade de esforço e de trabalho muitíssimo acima da média. Porque isso é algo de que todos os desfavorecidos têm de se convencer: que o caminho para cima ser-lhes-á bem mais duro, que ser-lhes-ão exigidas bem mais provas de competência, honestidade, inteligência e dedicação do que a quem parte do meio da escala social ou a quem já se encontra no topo da pirâmide. E nesses desfavorecidos não se incluem apenas as minorias étnicas e religiosas, mas também quaisquer pessoas dos estratos sociais mais baixos, ou provenientes de zonas mais pobres, ou que não tiraram o curso na universidade X... e as mulheres, que sendo a maioria recebem o tratamento discriminatório que habitualmente associamos ao estatuto de minoria. 3.Abro aqui um parêntese para defender uma escola pública, universal, gratuita — e elitista. A escola deve ser acessível a todos, mas os seus conteúdos não. Se uma escola perpetuadora das elites estabelecidas, restritiva à entrada*, é antidemocrática e socialmente irresponsável, já uma escola formadora de elites — onde todos possam entrar, mas com critérios de progressão e permanência baseados na exigência e no mérito — é do mais democrático, progressista e socialmente desejável. Se seguirmos a via do facilitismo, da mediocrização dos programas, de falta de exigência — supostamente para não "excluirmos" ninguém — acabaremos no grau zero do conhecimento, pois só aí não haverá quem fique aquém dos objectivos (nulos). A estupidificação dos programas oficiais beneficia, em termos de competição, os que não têm na educação a sua bóia de salvação social. Uma escola exigente, que exponha os alunos a aspectos elevados da cultura, que lhes abra perspectivas, será para muitos (os mais desfavorecidos) a única oportunidade de irem mais além. Por isso é tão perturbante e desanimador ver rebanhos inteiros (não escolho o termo por acaso) de jovens de meios desfavorecidos desperdiçarem a oportunidade de educação que o Estado lhes dá — por parca que esta seja. Os filhos de Bill Gates podem dar-se ao luxo de desprezarem uma educação, de recusarem o esforço pessoal (coisa que, sintomaticamente, é pouco provável que ocorra) — alguém no fundo da pirâmide social não o pode, e se o fizer perde o direito a indignar-se com a situação "a que o votaram". Porque as pessoas que nascem desfavorecidas dividem-se em duas categorias: as Porques e as Apesares. As Porques arranjam sempre uma (des)culpa para a sua situação e o seu imobilismo — e a culpa, pois claro, está quase invariavelmente alhures. Já as Apesares passam da constatação da sua circunstância à acção, certas de que só um esforço extra permitirá remediar o handicap com que partem — e, apesar dos pesares e dos penares, conseguem subir na vida. Permitir-me-ei a semi-inconfidência de manifestar o meu orgulho por contar no meu círculo mais chegado de amigos com um bom exemplo de um Apesar: alguém que, isolado como poucos, sem electricidade em casa até aos 18 anos, cedo percebeu que a educação era o seu único passaporte para fora daquilo tudo — e, apesar do sobrestimado meio, mas não sem o tal esforço extra, venceu; alguém que à facilidade de se contentar em ser um Porque preferiu a (auto)exigência de se fazer um Apesar. Abrir mão de uma educação exigente é confiscar o passaporte aos desfavorecidos. * Vem-me à lembrança o caso do meu pai, que na década de 1950/60 não pôde realizar o exame do Liceu como autoproposto, por não ter um "fiador" que se "responsabilizasse" por ele (contra que "perigo"?). 4.Voltando ao seu e-mail. Fala da falência do chamado «modelo francês», anteriormente tão elogiado por países que «têm o mesmo problema com a imigração» que a França, como sejam a Inglaterra e a Alemanha. Pois com certeza que o modelo falhou — falhou, antes de mais, porque é um modelo que, na prática, exige pouco dos seus beneficiários («Vai-se buscar o subsídio de desemprego e é tudo», dizia no Público de sábado um imigrante congolês) e, depois, porque a imigração é, como diz, um problema, e grave. O fenómeno da imigração na França, um exemplo de Estado social europeu, acarreta dolorosas lições para alguém com background político de esquerda, como é o meu caso. Mostra que tal modelo só funciona se a comunidade no seu todo partilhar um mesmo conjunto de valores, e se esses valores incluírem os deveres de esforço pessoal e de retribuição para a sociedade, que os ajudará nos períodos de carência, que uns e outros desejam breves. Permitir que beneficie do modelo quem não partilha desta visão, quem do modelo gosta da secção dos direitos, mas não da dos deveres, levará (levou) inevitavelmente ao surgimento de indolentes (e, a prazo, de descontentes without a clue) — e à falência do modelo. Ora, se entre os autóctones há certamente muitos indolentes e entre os imigrantes há sem dúvida incontáveis casos de pessoas dispostas a todos os esforços para singrar na sociedade de acolhimento, a verdade é que o modelo europeu estimula bem mais a indolência do que, por exemplo, o modelo americano, mais realisticamente cruel. E a indolência é sempre menos tolerada em quem vem de fora — é uma realidade insofismável («Para parasitas, bastam-nos os que já cá temos», dizem não sem razão alguns). Se a isso somarmos imigrantes que se encontram menos dispostos a abrir mão de certos valores das suas sociedades de origem (valores que viu-se no que deram) e pouco afoitos a aceitar como seus os valores fundamentais da sociedade de acolhimento — como é o caso dos magrebinos em França —, o divórcio entre o que o modelo pressupõe de quem dele beneficia e o que os beneficiários realmente estão dispostos a retribuir ao modelo transforma-se a breve trecho num abismo instransponível onde o modelo cairá e se afundará. Isto é, já o disse, uma dura lição para alguém com formação de esquerda: não só ter de admitir que nem todas as pessoas estão naturalmente dispostas a dar o melhor de si em prol do bem próprio e comum, mas igualmente reconhecer nestas ideias muitas das bandeiras do espectro político oposto. Mas, politicamente, não me defino por oposição ao que O Outro defende — e, nisto como noutras coisas, muito aprendi para lá do que me serviram prêt-à-porter nos bancos da "escola". O grande problema da Esquerda é continuar a defender as mesmas coisas, malgré la réalité. Enquistar em conclusões a priori que o curso do tempo já desmentiu é partir para a rendição à "verdade revelada". E se recuso tal coisa num aspecto da vida, não vejo por que me agarrar a semelhante tábua de salvação política — correria bem o risco de, pelo contrário, me afundar com os destroços do barco ideológico. 5.Continuando, diz o Filipe Guerra a certa altura que «o mal foi terem posto essas pessoas em cités próprias e em não as terem dispersado pelas cités comuns espalhadas por toda a parte». Isso, concordo, foi um mal (e não o mal, pois bem estaríamos se o problema se reportasse a uma única fonte). Tal isolamento, ainda que evite problemas imediatos (os «conflitos» a que alude), cria-os a longo prazo, pois contribui para o ensimesmamento da comunidade alógena, dificultando a tal apropriação dos valores da sociedade de acolhimento a que me venho referindo como de capital importância. Mas proceder de forma diferente é, como dizem os anglo-saxões, easier said than done. Para além da questão dos conflitos a curto prazo (que todos os políticos querem evitar, pois eles mesmos terão de resolvê-los — e também as eleições decorrem a curto prazo...), pergunto-me qual seria a reacção dos imigrantes, dos defensores dos direitos destes — e de si, Filipe Guerra — se a política adoptada pelo governo francês fosse, declaradamente ou de forma tácita, «dispersem-se os imigrantes pelas cités». Diriam, por certo, que o governo tentava com tal política discriminatória evitar que a comunidade imigrante ganhasse consciência de si própria; diriam que com tal política até nos seus bairros seriam minoria, logo sem condições de exprimirem livremente a sua herança cultural, que desta forma lhes seria vilmente amputada (e logo os multiculturalistas saltariam para cena, qual coro grego); diriam que a dispersão visava garantir que nunca os imigrantes teriam relevância demográfica em qualquer zona, impedindo-os assim de ganhar peso político, quem sabe eleger um maire («cruz-credo, o governo não quer isso, por isso nos dispersa!»); diriam que tal política de dispersão era a manifestação de uma reacção epidérmica de alergia, de desconfiança em relação ao Outro, que a priori, inapelavelmente, é considerado potencialmente perigoso e passível de controlo («que nunca sejam muitos: "dividir para reinar", eis o mote!») — um ou outro mais imaginativo faria um colorido paralelo entre a política dispersão da população imigrante do governo francês e a política de dispersão dos presos etarras seguida pelo governo espanhol (com a agravante, em desfavor do governo francês, de os imigrantes nada terem feito). Reconhece-se nalgumas das reservas a esta hipotética política de dispersão populacional? Por outro lado, mais ou menos pela mesma altura, diz o Filipe Guerra que a degradação das cités provocou, entre outros males, «a fuga dos franceses que viviam, em minoria, nessas cités». Ora, o facto de existirem originalmente franceses nessas cités é sinal de que tais empreendimentos habitacionais não foram pensados como espaços de confinamento para este ou aquele grupo étnico-religioso imigrante: destinavam-se às classes desfavorecidas (pelo que não se situavam em zonas nobres — deixemo-nos de histórias da carochinha); se os franceses eram minoritários, tal não se devia a um planeamento maquiavélico, mas à realidade demográfica das classes mais baixas. E se os franceses maioritariamente de lá saíram e os outros não, foi porque uns maioritariamente trataram de fazer pela vida e os outros não (e sim, já admiti — como não?! — que é mais fácil um cidadão de etnia europeia "fazer pela vida" do que um estrangeiro e/ou de outra etnia). A verdade é que muitos dos deserdados da periferia das grandes cidades não só não fizeram nada (ou fizeram muito pouco) para mudarem de vida, como nada fizeram para sequer terem a vida modesta que têm. «Vai-se buscar o subsídio de desemprego e é tudo», dizia o outro. Até a casa (que, diz-me, nem é miserável) do bairro degradado em que vivem lhes foi dada pela dita sociedade «madrasta». Eles nada contribuíram. Ou melhor, contribuíram com a degradação, que isso sim, é da sua lavra. 6.Finalmente, e porque isto já vai demasiado longo, a questão da recusa em arrendar casas a negros e árabes em certas zonas «brancas», a recusa de trabalho condigno a magrebinos ou negros altamente qualificados. Não nego esse facto (quando incluí a pergunta sobre isto no meu post anterior já sabia que iria apontar estas ocorrências), mas é importante notar que tal não resulta da aplicação de qualquer política do governo, ao contrário do que se passava na África do Sul do Apartheid ou no Sul dos Estados Unidos até pelo menos à década de 1960. Esta diferença é fundamental — pois o governo pode ser responsabilizado pelas suas políticas, mas não pelo que vai na consciência de cada um (que não é coisa que se mude por decreto — pelo menos não numa sociedade onde eu queira viver). Os preconceitos existem, é verdade. É triste que assim seja, devemos combatê-los, e tudo o mais. Mas eles sempre existirão, em especial (cá estamos nós outra vez) quando o que nos separa (nos diferencia) é mais do que o que nos une. Mas convém não esquecer como se formam os preconceitos. Em primeiro lugar, poucos "preconceitos" o são, tecnicamente (isto é, pré-conceitos, conceitos a priori). Os ditos preconceitos são regras gerais inferidas a partir de uma amostra particular (logo são efectivamente pós-conceitos, conceitos a posteriori). E o ser humano passa a vida a fazer generalizações — não conseguiria sobreviver sem elas («largo um objecto e ele cai; as chamas queimam, as cobras são perigosas»). O problema, obviamente, é saber se a amostra de onde se inferiu a regra geral é representativa da realidade que se pretende caracterizar, pois disso depende a propriedade da avaliação posterior de um elemento não pertencente à amostra original (mas supostamente tendo algo de comum com ela); se a amostra não for representativa, diz-se que estamos perante uma generalização abusiva ou precipitada (por exemplo, se largar um balão cheio de hélio, ele não cai, sobe). O dito preconceito (que, já se viu, não o é) é então uma generalização abusiva de cariz negativo (com as de cariz positivo ninguém se preocupa). Haverá imigrantes imerecedores dos preconceitos de que são alvo? Certamente que há. Voltando aos actuais motins (com o agravar da situação a palavra começa a soar branda). Admitamos que eles sejam a face mais visível de um sentimento de injustiça, que quem assim procede "protesta" contra a discriminação de que é alvo. Reagir aos preconceitos com comportamentos que confirmam esses mesmos preconceitos é, no mínimo, pouco inteligente. Faz lembrar, num plano anedótico, a história dos dois irmãos, em que diz o primeiro: «Eu e ele nunca estamos de acordo.» «Isso não é verdade!», retorque o outro. (I rest my case...) Reagir aos preconceitos com comportamentos criminosos que confirmam e reforçam esses mesmos preconceitos não é só pouco inteligente — é merecedor de pouco, de nenhum respeito.
No plano teórico, continuo a achar que a «quem vier por bem», como diz o povo, deve ser dada uma oportunidade de uma vida melhor; mas, no plano prático, sabendo que até os filhos de «quem vem por bem» podem tornar-se no que por estes dias vamos vendo, as minhas reservas e as minhas cautelas aumentaram exponencialmente. Pergunto-me (e pergunto-lhe, Filipe Guerra) se fui eu que traí os meus ideais, ou se foram ou meus ideais — e a realidade — que me traíram a mim. FG 05–07/11/2005 GUETIZAÇÃO (2)Filipe Guerra, take 3:
A resposta, que se deseja (e merece ser) pensada, estará aqui logo que possível. FG 04/11/2005 GUETIZAÇÃOTem de novo a palavra Filipe Guerra:
Está certamente mais por dentro da realidade francesa do que eu, pelo que pergunto:
As respostas às perguntas anteriores são fundamentais para se poder dizer com propriedade que existe um "política de confinamento e guetização". E não, como acontece em toda a parte, que simplesmente quem consegue arranja melhor. Ora, se alguns esmagadoramente não conseguem arranjar melhor, convém interrogarmo-nos se as culpas serão exclusivamente exógenas (a tal sociedade «madrasta»), ou se não haverá também uma larga dose de culpa própria. Esta é uma pergunta que uns não fazem por recusa da autocrítica, outros por autocensura. Isto remete-me para um documentário que vi há alguns anos, sobre dois magrebinos que, ainda adolescentes, foram da Argélia recém-independente para França. Como muitos outros, foram colocados num "gueto" periférico da região de Paris, onde cresceram juntos e até foram colegas de escola. Trinta anos depois, o primeiro (chamemos-lhe 'A') mudou-se para uma área nobre do centro de Paris, é médico ou advogado (não me recordo bem) e o filho segue o mesmo caminho; o segundo ('B') vive no mesmo bairro, cada vez mais "guetizado", e as perspectivas do filho não são melhores. Ambos têm aspecto magrebino, não europeu; ambos foram inicialmente remetidos para o mesmo bairro de imigrados; ambos tiveram acesso ao mesmo sistema de ensino público — um progrediu, o outro deixou-se ficar (o que é uma forma de regressão). Deverei omitir a informação de que 'A' é judeu e 'B' muçulmano? Deverei autocensurar-me para não soar racista? (Tarde demais.) A sociedade pode ser madrasta — mas há quem nada faça para aproveitar as oportunidades (poucas, que sejam) que esta (maternalmente?) até lhes vai apresentando. É mais fácil queixar-se sentado do que levantar-se e tentar andar. FG 04/11/2005 DAS RAZÕES DOS MOTINS EM FRANÇADe Filipe Guerra:
Caro Filipe Guerra, nunca disse que não havia um motivo por detrás dos motins — mas uma coisa diferente é haver uma razão (ou tê-la quem assim procede). Quanto a ser esta uma «situação social muito grave», tal salta aos olhos de todos — o que não invalida que seja inaceitável e injustificável o "protesto" (não pense que por um minuto outra coisa passa pela cabeça do governo francês). Com sua licença, guetizados foram também (e, em parte, são ainda) os imigrantes portugueses e de muitas outras nacionalidades. É quase uma sina da imigração, pelo menos até à segunda geração. Mas não consta que tenham partido para o motim em jeito de guerrilha suburbana. A grande diferença, caro Filipe Guerra — e a razão do abismo entre o respeito que tenho por uns e por outros — é que os portugueses eram imigrantes guetizados que queriam ser integrados, queriam sair do gueto, queriam funcionar plenamente na sociedade que os acolheu — queriam fazer algo por si próprios; custou (está a custar), já lá vão três ou quatro gerações, mas é um caminho que está a ser percorrido. E estes? FG 04/11/2005 PROTESTOS CONTRA O QUÊ?!Os subúrbios de Paris andam a ferro e fogo desde quinta-feira passada: carros incendiados, montras partidas... Segundo os jornalistas, os motins (alguns dizem «os protestos») levados a cabo por grupos de adolescentes em fúria foram motivados pela morte de dois deles. Agora o cenário: as duas mortes ocorreram na sequência de uma fuga à polícia, que perseguia suspeitos de uma tentativa de assalto. E nem sequer estamos perante um caso de excesso de zelo policial, uso excessivo de força ou recurso evitável a arma de fogo: os adolescentes morreram electrocutados, porque se esconderam num posto de transformação. Apetece perguntar: protestos contra o quê? A sua própria estupidez? Não há respeito possível... FG 02/11/2005 |
Autores dos textos:Fernando Gouveia [www] |
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