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Página de entrada do blogue (últimas) UMA REACÇÃO AO POST «SERVIÇOS MÍNIMOS»Do leitor António Brandão:
Caro António Brandão, obrigado pelas sugestões de assuntos sobre os quais escrever. Bom seria que para uma boa piada bastasse o mote (sucinto mote, diga-se!). Mas se, para além do mote, fornecesse também a glosa, o post iria assinado AB e não FG... Piada fácil... será, sem dúvida. Mas há dias em que só saem dessas (e dias em que nem essas saem*). E se não têm graça... não ria. Agora, não me peça para respeitar as suas vacas sagradas. FG 28/10/2005 * Se soubesse a quantidade de coisas sobre as quais acho que é premente escrever... mas simplesmente falta-me o ânimo ou o tempo para organizar as ideias! SERVIÇOS MÍNIMOSAinda no Público online:
Porque, segundo fonte que pediu para permanecer anónima, se houver prestação de serviços mínimos, o que distinguiria um dia de greve de um dia de trabalho normal? FG 26/10/2005 SO, WHAT ELSE IS NEW?...Manchete no Público online:
FG 26/10/2005 MIL INFINITOSPúblico online:
Para o leigo, os efeitos da greve são insensíveis, mas não para o olho treinado: processos que antes demoravam «tempos infinitos» a serem tratados demoram agora «mil infinitos». FG 25/10/2005 HUMOR EM TEMPO DE GRIPE DAS AVESCartaz à entrada de uma churrasqueira: AQUI O CHURRASCO FG 25/10/2005 NATAL XLA caminho do trabalho a estação de rádio sintonizada no autocarro difunde uma música de Natal. Mal posso esperar pela mercantilização selvagem do dia de São Martinho. Pode ser que, então, a criançada do Coro de Santo Amaro de Oeiras no deixe em paz durante mais um mês... FG 19/10/2005 HARRY POTTER E O MEXILHÃO 2Com o indevido atraso, venho aqui deixar registado que, por uma vez, a Presença cumpriu o prometido e entregou na sexta-feira o novo Harry Potter. (Pelo menos chegou às livrarias de Vila Real, coisa que não acontecera com a edição do ano passado.) Mas não há bela sem senão: escaldados do flop de 2004 (à meia-noite de então houve miúdos a sair lavados em lágrimas das livrarias e a convencerem os pais para que se metessem no carro e os levassem às FNACs do Porto), escaldados, dizia eu, alguns livreiros vila-realenses não arriscaram a publicitar antecipadamente a abertura da sua livraria à meia-noite, pelo que, chegados os livros in extremis, a noite se saldou por meio flop. E algo vai mal, se meio flop é um progresso. FG 19/10/2005 A PRESENÇA MONTA O CIRCO ou HARRY POTTER E O MEXILHÃOA tradução portuguesa do mais recente livro de Harry Potter tem lançamento previsto para a meia-noite de hoje. Tal como o ano passado, a Presença acautelou todos os pormenores: não só foi requerida aos livreiros a entrega prévia de um cheque como caução da encomenda, como lhes foi exigida a assinatura de um termo de responsabilidade, em que os ditos livreiros se comprometem a não vender o livro antes da hora marcada (o que, por si só, pressuporia que os livreiros terão o livro antes da hora marcada). Ora, infelizmente não houve assinatura de qualquer termo de responsabilidade por parte da Presença — pelo que muitos livreiros prevêem (sem para tal precisarem de quaisquer dotes mágicos) que se vai repetir a vergonha do ano passado, em que o Harry Potter de então só chegou às grandes livrarias (FNAC, Bertrand...) e às principais localidades, embora se pudesse atapetar o país com os termos de responsabilidade também então assinados... FG 14/10/2005 AINDA A FALHA DO STAPEA outra grande questão é: Que ministro do governo de Santana Lopes culpar pelo falhanço do sistema informático do STAPE? FG (Obrigado, Serôdio!) 10/10/2005 E FILOMENA GONÇALVES?A grande questão desta manhã de ressaca eleitoral é: E Filomena Gonçalves? Com Moita Flores ocupado com outras lides, qual vai ser o futuro a curto/médio prazo da actriz? Convenhamos, o papel de Joaninha nas Viagens na Minha Terra já não lhe assenta muito bem... FG 10/10/2005 RTP MEMÓRIAÀ falta de dados mais recentes, mudo de canal e revivo a noite eleitoral das Autárquicas de 2001... FG (Obrigado, Eduardo!) 09/10/2005 AS AVENTURAS DE ROGER E MARGARIDA NO ESPAÇO-TEMPOUm participante no fórum do Citador descobriu mais uma "intertextualidade" de Margarida Rebelo Pinto (MRP) que escapou ao JPG. Escreveu Roger Bussy-Rabutin, em História Amorosa das Gálias:
Já MRP, em As crónicas da Margarida:
e em Não Há Coincidências:
... e assim se associa Margarida Rebelo Pinto às comemorações do Ano Internacional da Física. FG 06/10/2005 MARGARIDA REBELO PINTO SOB A LUPA DE JOÃO PEDRO GEORGE (1)
João Pedro George (JPG) escalpelizou há uns dias a obra literária de Margarida Rebelo Pinto (MRP). O resultado encontra-se no blogue Esplanar e teve honras de primeira página no diário 24Horas (publicação da diáspora na costa leste dos EUA — não sei se tem alguma relação com o homónimo nacional). O JPG é mesmo assim: para espiolhar naquilo que qualquer outro abandonaria ao fim de um minuto não há como ele... No entanto, não concordo totalmente com uma das coisas que ele diz:
MRP escreve ficção, não escreve ensaio — logo, não é obrigatório dar crédito das fontes; tal seria, até, contraproducente. E, dependendo do tamanho da «citação», tal configura uma intertextualidade com o autor citado, não um plágio. (Saramago, por exemplo, é prenhe em intertextualidades.) Obviamente, a diferença entre intertextualidade (um "piscar de olhos" ao leitor, e mesmo ao autor citado) e o plágio (ficar com os méritos da produção alheia) depende não só do tamanho da citação — o que é importante —, mas também da capacidade que se espera que o leitor médio da obra tenha de reconhecer que determinada passagem não é da lavra do autor que lemos, mas de outrem. Por outro lado, se é verdade que um autor não pode ser responsabilizado pela ignorância de quem o lê (e, vai daí, não sei...), também é verdade que todo o livro tem um público-alvo em mente e, no caso dos leitores de MRP, a presunção de vastas referências literárias não será algo que nos ocorra naturalmente...* FG 06/10/2005 * Resta saber sobre quem recai o ónus da prova. (Ah, não! Isto é para outro post...) MARGARIDA REBELO PINTO SOB A LUPA DE JOÃO PEDRO GEORGE (2)Se no caso apresentado no post acima a propriedade ou não do reparo do JPG depende da avaliação quanto ao ónus da prova, nos casos que a seguir apresento a injustiça (a perseguição, mesmo!) é evidente. Diz JPG:
Ora, isto só prova que a Julieta concorda com a Verónica quanto ao vanguardismo da Tia Luísa. Segundo a sharia, duas testemunhas é quanto basta... E mais à frente:
Ora, como dizia Walter Lippmann (acho que era ele, mas não ponho as mãos no fogo...): «Quando todos pensam da mesma maneira, ninguém pensa grande coisa» — o que é consistente com as personagens de MRP. A emulação demonstra, de forma subliminar, a despersonalização — esta MRP é um génio! E ainda mais injustiças:
Posição claramente redutora da parte do JPG. Não há nada de contranatura em fazer coabitar — na mesma frase, que seja! — a angústia kierkegaardiana com uma boa caralhada, em jeito de desabafo... FG 06/10/2005 * Já agora, segundo o JPG (alhures), nem nisso — e, no caso de Ana Teresa Pereira, nem os nomes... A AL-QAEDA, O "AL-QAEDISMO" E O ESTRANHO "CLUBE" DOS QUE SE LHE OPÕEMA mais recente edição da Atlântico (n.º 7, Outubro) inclui um artigo de seis páginas de José António Teles Pereira, juiz desembargador e antigo Director-Geral do SIS, sobre a Al-Qaeda, o "al-qaedismo" e Portugal. Embora no geral concorde com as ideias apresentadas, tenho no entanto dois reparos a fazer, de natureza distinta.
Sociedades como a saudita e a marroquina (autocráticas, ou muito próximas disso) não pertencem ao mesmo "clube" que as sociedades inglesa, espanhola e portuguesa — e nem o uso cauteloso das aspas disfarça esta realidade. Podemos estar no mesmo lado da barricada no que à Al-Qaeda diz respeito, mas convém não esquecer uma segunda barricada, a que separa as democracias das ditaduras e das autocracias. O erro do Ocidente (e não só, vá lá) tem sido considerar mais vezes do que seria avisado e salutar que «os inimigos dos meus inimigos meus amigos são». Não são. Circunstancialmente, podem ser aliados, mas os objectivos (para lá dos estratégicos) de uns e de outros são totalmente diferentes. Se a Arábia Saudita e os Estados Unidos pertencem ao mesmo clube, isso será apenas aos olhos maniqueístas da Al-Qaeda (e nem isso, sejamos realistas) — mas não é isso que o autor pretende dizer. Poderíamos ainda interpretar as palavras de José António Teles Pereira como uma afirmação de que a existência de uma ameaça comum nos "irmanou", nos juntou em tão estranho "clube" — mas nesse caso a afirmação de que «trata-se de um "clube" ao qual é perigoso pertencer» é simplesmente tautológica; só não o seria se a "afinidade" que ditou a existência do "clube" preexistisse à ameaça, coisa de que discordo (e o «queiramo-lo ou não» do autor reconhece isso mesmo).
Esta explicação, além de errada do ponto de vista etimológico, parece-me fantasiosa (base de dados, comunidade virtual...), resultando duma associação algo cómica de desconhecimento linguístico e realidades circunstanciais. Se é verdade que a utilização da Internet se tornou fundamental ao funcionamento da Al-Qaeda (e à posterior "galáxia do al-qaedismo"), a sua natureza nunca seria invocada como estando no cerne de uma organização que se pretende emanante, em estado de "pureza", da realidade — ou melhor, da "idealidade" — islâmica (ainda que não recuse, bem pelo contrário, as tecnologias do "pérfido Ocidente"...). De resto, a improbabilidade de tal explicação para o nome da organização é notória pelas próprias palavras do autor: a Al-Qaeda surgiu no Paquistão na década de oitenta, numa altura e num local onde qualquer «base de dados» de uma «comunidade virtual» de crentes seria impensável (não só a nível prático, mas mesmo teórico). De facto, a "base" a que se refere a palavra "qaeda" é a base no sentido de "fundações", "alicerces" — a partir do qual se construirá o "edifício" do Califado universal (e nesse aspecto tem razão o autor ao referir a ideia que a Al-Qaeda tem de si mesma como "vanguarda" da regeneração islâmica). FG 06/10/2005 BERNARD LEWIS 1 – MARC FERRO 0
Antes de O Choque do Islão (Europa-América, 2003), de Marc Ferro, li O Médio Oriente e o Ocidente: O que correu mal? (Gradiva, 2003), de Bernard Lewis, duas obras que há já bastante tempo esperavam numa prateleira pela sua oportunidade comigo. São apenas dois livros, por isso a amostra não é científica, mas as diferenças entre eles não deixam de ilustrar o abismo entre o ensaísmo anglo-saxónico e o ensaísmo francófono. O livro de Bernard Lewis (publicado originalmente pouco após o 11 de Setembro, mas escrito antes) é um exemplo de clareza: a tese do autor é exposta sem ambiguidades na introdução (uma belíssima introdução de 17 páginas), sendo cada tópico desenvolvido e sustentado depois nos capítulos subsequentes; uma conclusão (não tão brilhante como a introdução, mas eficaz) remata tudo como deve ser. Ainda assim, O Médio Oriente e o Ocidente: O que correu mal? tem as suas fragilidades, a mais flagrante das quais será uma certa repetitividade e sobreposição dos três derradeiros capítulos (ao que não será alheio o facto de a obra partir de uma série de conferências que o autor compilou e reescreveu).
O Choque do Islão, pelo contrário, é uma obra de leitura mais difícil e não raro enfadonha. A tese de Marc Ferro (pressupor-se-ia que tem uma...) não é claramente exposta a priori, pelo que o livro parece um desfilar de informação histórica quase sem um fio condutor. Lewis tem por objectivo mostrar-nos «o que correu mal» no mundo islâmico (apesar de algumas tentativas em contrário, particularmente da parte dos turcos) — já Ferro não se percebe onde que chegar, e o «choque» parece menos nosso (como anunciado no prefácio) do que dos próprios muçulmanos. O que também não ajuda é a tradução: provavelmente devido ao estilo rebuscado do original (cheio de orações subordinadas e elementos móveis enxertados no meio das frases), o sentido perde-se frequentemente, surgem as ambiguidades, faltam certamente palavras aqui e ali. Realce-se, ainda assim, uma terceira parte bastante boa, o que não redime a falta de uma conclusão, erro de palmatória que se soma à ausência de uma introdução digna desse nome (o telegráfico prefácio mais parece um post-it colado à pressa). FG 28/09/2005 LUCIDEZ MAQUIAVÉLICAFinalmente, após ano e meio de espera numa prateleira, leio O Choque dos Islão, de Marc Ferro. O livro deixa bastante a desejar (particularmente quando comparado com O Médio Oriente e o Ocidente: O que correu mal?, de Bernard Lewis — voltarei a este assunto), mas tem os seus pontos de interesse, aqui e ali. Entre eles, não resisto a reproduzir uma citação, datada de 1948, de Abd al-Aziz ibn Saud, primeiro rei da Arábia Saudita (a quem, modestamente, deu o seu nome). Surpreendo-me sempre quando alguns vão ao ponto de dizer ou escrever o que outros apenas têm a coragem de pensar:
(Os destaques são meus.) FG 28/09/2005 PENSANDO MELHORPensando melhor, a cogumelização de candidatos presidenciais de Esquerda não é descabida. Partindo do pressuposto que apenas haverá um candidato do campo da Direita (Cavaco Silva), e independentemente do número de candidatos à Esquerda, dois cenários se apresentam como mais prováveis:
Assim sendo, a frunofagia* a esta altura do campeonato seria, ou extemporânea, ou totalmente inútil. E ninguém se submete a uma dieta indigesta se o puder evitar. FG 27/09/2005 * Deglutição de sapos. UMA LIÇÃO DE VIDAA Xis do sábado passado dedicou o tema de capa a Morangos com Açúcar. Percebe-se: tal como aquele suplemento do Público, a telenovela das tardes da TVI aspira a despertar em nós o autoconhecimento. E, ao contrário da Xis, Morangos com Açúcar consegue-o: de facto, o seu grande mérito é ilustrar, de forma subliminar, que a vida da esmagadora maioria de nós é — dia após dia após dia — vã, vácua e repetitiva. FG 27/09/2005 OS MELHORES AMIGOS DE ANÍBAL
... e a Esquerda portuguesa não aprendeu nada com as últimas eleições presidenciais em França. FG 26/09/2005 NÃO TEM NADA QUE VEREm O Novo Sebastianismo Fernando Pessoa diz a certa altura (cito de memória):
... o que, obviamente, nada diz dos tempos que correm. FG 25/09/2005 "REACCIONARISMO", NÃO: "CHICO-ESPERTISMO"De Filipe Guerra, recebemos o seguinte comentário ao meu post anterior:
Caro Filipe Guerra, não sei o que passou ou não pela cabeça dos outros, pois o post em causa expressa uma opinião minha, mas efectivamente considerei a possibilidade que propõe — com a diferença de eu desde logo não achar que a Helena Matos seja «indigente mental» ou sequer «chica-esperta»: acho que frequentemente tem razão (o artigo a que me referi é um bom exemplo disso) e, quando não é assim, simplesmente penso que está errada (por exemplo, a defesa acérrima de Bush é claramente uma fuga para a frente...). Mas, voltando à possibilidade que o Filipe avança (a da sanha advir, não do "reaccionarismo", mas do "chico-espertismo" da autora), uma cuidada reflexão leva-me a concluir não ser essa a situação — pelo menos nos casos em análise, em que algumas pessoas contestavam a presença da Helena Matos nas páginas da Periférica. O que estava em causa não era se a directora da Atlântico acerta muito ou pouco — o problema era que ela supostamente não se enquadrava numa pretensa linha editorial e política da Periférica (linha que as pessoas em questão fizeram o favor de definir por nós), ou que a sua presença criava uma incompatibilidade com este ou aquele colaborador. Ora, na Periférica achamos (e por "nós" entenda-se a mão cheia de sujeitos que decidem o que lá vai dentro) que não existem incompatibilidades desse tipo; se outros, melindrados, acharem que existem, pois que se retirem, se assim lhes aprouver — e já noutras ocasiões os houve que se retiraram (não a nosso pedido). Não somos da opinião que o conhecimento d'A Verdade seja condição sine qua non para ser objecto de uma entrevista ou para colaborar connosco — ou nós próprios não colaboraríamos connosco! FG 22/09/2005 SILENCE OF THE LAMBSDiz a cartilha das publicações rebeldes (e subentendeu-se em tempos que a Periférica era uma publicação rebelde, isto é, inerentemente de esquerda) que as santas e progressistas páginas das publicações rebeldes não se abrem a gente da "reacção" (excepto, claro, para lhes "malhar forte e feio", que é a única coisa que se espera de uma publicação rebelde). Foi, com mais ou menos eufemismos, o que nos tentaram dizer algumas pessoas com quem trocámos impressões aquando da saída do nosso número 13: como é que nós, em quem depositavam tantas esperanças!, podíamos dar "tempo de antena" a alguém como a Helena Matos?! Tais reacções (assim de memória, de dois ou três colaboradores e livreiros) mostram que, três anos passados, muitos ainda não aprenderam a ler-nos. E foi tão-só o que pedíramos. O artigo de opinião de Helena Matos no Público deste sábado — sobre o silêncio das alas "progressistas" perante o boicote e a discriminação de que são vítimas artistas e atletas israelitas — explica bastante os anticorpos que a jornalista suscita: há verdades duras de enfrentar, e há quem tenha o desagradável hábito de no-las esfregar na cara. FG 18/09/2005 A ÉTICA INDOLOR
Nove meses depois da compra, leio finalmente As Origens do Mal, a mais recente obra de Georges Minois editada em Portugal (Teorema). O livro é aquilo a que o autor nos habituou com os trabalhos anteriores: uma perspectiva histórica da evolução do pensamento (fundamentalmente europeu ou de matriz europeia, "ocidental") sobre o tópico em análise— por vezes fascinante, por vezes repetitivo (o que decorre da própria repetitividade, ao longo dos séculos, dos problemas encontrados e das soluções propostas). A informação de cariz mais histórico (entenda-se: reportando-se a um passado mais longínquo) tem o valor que tem — quanto mais não seja, de tipo humorístico (as coisas que se disseram e ainda se dizem!). A evolução das teses é particularmente elucidativa: a maneira como a Igreja Católica tentou ir dizendo coisas diferentes enquanto fingia dizer sempre a mesma coisa (a Verdade revelada, absoluta e imutável) é talvez o exemplo mais acabado. Mas o maior valor residirá, talvez, naquilo que o livro diz sobre nós, agora, pelo que não resisto a transcrever uma página (432–433) do derradeiro capítulo:
E mais à frente, ainda na página 433:
E Georges Minois continua — mas o melhor mesmo é ler o livro. FG 13/09/2005 POST SCRIPTUM SOBRE A TRADUÇÃO DE AS ORIGENS DO MAL DE GEORGES MINOISA tradução de As Origens do Mal foi entregue a Carlos Correia Monteiro de Oliveira, o que é uma boa notícia, pois o tradutor das obras precedentes (Serafim Ferreira) foi avançando paulatinamente até alcançar o nível do assassinato na tradução de História do Ateísmo, em que frequentemente pôs a edição portuguesa a dizer precisamente o contrário do original francês. Se Carlos Oliveira comete os mesmos erros, tal não é evidente (o que, paradoxalmente, será um demérito face a Serafim Ferreira, com quem conseguíamos muitas vezes "reconstruir" o sentido original...), mas numa coisa ambos se irmanam: no critério (ou falta dele) quanto à tradução (ou não) de alguns títulos de obras e ao aportuguesamento (ou não) dos nomes de certos autores e personagens históricas ou mitológicas. É assim que surgem pérolas como a deusa grega «Gaïa», a seita dos «caïnitas» e o romancista «Dostoïevski», teólogos gregos como «Numérius d'Apamée», «Marcion du Pont» (ambos do séc. II) ou «Méthode d'Olympe» (séc. IV), o famoso escocês «Jean Duns Scot» (sécs. XIII–XIV) e muitos outros «Jeans» holandeses, alemães e doutras paragens, o «Livre des jubilés» (composto por uma seita judaica entre 135 a. C. e 105 a. C. e encontrado em Qumran) ou as obras de Ireneu (séc. II) e do alemão Martinho Lutero (séc. XVI), todas com títulos em francês — e ainda o meu preferido, o rei «Jacques I de Inglaterra». Ou, reverso da medalha, um certo «Teodoro» Roosevelt...1 Sejamos claros: deixar em francês títulos de obras não originalmente publicadas nessa língua ou nomes de personagens históricas não francófonas que por tradição são conhecidos na sua forma aportuguesada (ou afrancesada, no caso dos países francófonos, daí a opção de G. Minois) denota, antes de mais, ignorância e falta de cultura geral. O tradutor, simplesmente, não faz a mínima ideia de quem tais personagens foram — nem procurou saber. FG 13/09/2005 1 Alguns dos exemplos que dou são da autoria de Serafim Ferreira e não de Carlos Oliveira. A HIGIENE ORAL REGRESSA DE FÉRIASNão sei se se lembram, mas houve um tempo em que a dinâmica do mercado (e o marketing associado) respeitava um ciclo anual de eventos reconhecidos como tal: Natal, Dia do Pai, Páscoa, Dia da Mãe, Férias de Verão, Regresso às Aulas, ao que havia a acrescentar os dois períodos de saldos. Foram os saudosos tempos do event-driven market (mercado determinado pelos eventos), que na altura não nos pareciam tão passíveis de saudades futuras. Depois, claro, as necessidades do mercado (isto é, dos mercadores) deram a volta ao texto e substituíram o event-driven market por market-driven events: a relevância dos eventos (quando não a sua própria existência) é agora determinada pelo mercado, sempre sôfrego por algo que «faça mexer». E assim, não só empolámos histrionicamente os eventos já existentes, como importámos (a ponto de já não conseguirmos passar sem eles) o Dia dos Namorados e o Dia das Bruxas; não há-de demorar muito a entrar-nos pelos olhos a dentro (vindo das monstras para fora) o Dia de Acção de Graças... Preexistindo ou não ao marketing, o único mal de uma onda consumista é não podermos cavalgá-la. E, convenhamos, alguns produtos tem a vida mais facilitada do que outros: os chocolates, por exemplo, são particularmente hábeis neste surf mercantil. Mas desengane-se quem pensa que a inadequação do produto ao evento determina a não utilização desse evento para promover tal produto. Se o vizinho do lado levantou a onda do marketing, há que aproveitar, antes que o mercado volte a estar flat. Mesmo que o slogan redunde ridículo e despropositado (conceitos vagamente conhecidos). É assim que surge a mais recente campanha da pasta dentífrica Elgydium: «Regresso às aulas sem cáries». Aparentemente, tal como a compra de toda a parafernália supostamente indispensável ao estudo, também a higiene oral e a saúde dentária são preocupações sazonais. FG 13/09/2005 A AMANTE HOLANDESA de J. RENTES DE CARVALHO: UMA LEITURANão se pode alterar o passado, mas é possível modificar-se-lhe o sentido, inclusive mitificá-lo com palavras. A amante holandesa é o pólo em torno do qual se constrói esta mitificação. Amadeu, o Gato, como se pastoreasse as suas memórias, vai cedendo retalhos do passado a um narrador que, pela profissão, mais não faz do que recriar passados alheios. Tal narrador, cuja vida se nos revela de início espectral e um pouco sonâmbula — «se sei o que não tive, não sei o que perdi, nem do que precisaria para encher o vazio que se me criou no íntimo» (p. 20) —, vai aos poucos ganhando protagonismo. Depois do suicídio do Gato (minado por demónios pretéritos tornados presentes), o leitor já só espera ver redimida a existência apagada e monótona do professor de História. E tudo começa com uma carta que ele escreve a anunciar à distante holandesa a morte daquele que um dia quis ser carteiro. Se Justina e Teresa representam, respectivamente, os lados teatral e rotineiro da sua vida, é possível que Laura (filha de Gato e de Clarisse, a amante holandesa) lhe traga um amanhã em que aconteça alguma coisa. Mas já estamos prevenidos contra a decepção, e Laura será o pretexto para que o narrador se nos revele na sua inteireza e mergulhe de novo num irremediável desencanto. Afinal, ao contrário daquela, o professor confessa que se perde a imaginar e «sonho com mais, mais alto, mais intenso, cavo desatinadamente o desengano» (p. 201). Ao final do romance ajustam-se as palavras com que Scott Fitzgerald conclui The Great Gatsby. Talvez, como Gatsby, o narrador não soubesse que o sonho é um elemento do passado, que fica para trás, perdido na vasta obscuridade. Talvez, como Gatsby, ele ainda acreditasse «in the green light, the orgiastic future that year by year recedes before us». Talvez, como Gatsby, ele tenha sentido a ilusão e confiado de que amanhã (sempre amanhã) correria mais depressa e esticaria mais os braços... «So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past». JFB 07/09/2005 O ESPECTÁCULO DO MUNDO E A SABEDORIA«Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo», escreveu Ricardo Reis. Considerando detestável esta afirmação (em entrevista conduzida por Clara Ferreira Alves e inserida num documentário realizado por João Mário Grilo), José Saramago acrescenta que O Ano da Morte de Ricardo Reis quer «mostrar a esse homem, que fez essa declaração, a que apetece chamar monstruosa, que afinal de contas (...) se ser espectador do espectáculo do mundo constitui a sabedoria, então, meu caro Ricardo Reis (em 1936), aí tens o espectáculo do mundo, e agora diz-me se ser espectador disto é ser-se sábio». Acontece que o verso do heterónimo de Fernando Pessoa (Saramago coloca-o em epígrafe no romance) é o primeiro de uma ode que destila um certo hedonismo báquico. Assegura o poeta:
Há, portanto, vinho envolvido nesta sabedoria. Mais: o bebedor tem consciência da fragilidade ontológica da sua carcaça mortal. Com efeito,
Temos, por conseguinte, a chave: recorrendo à cor do vinho (ou seja, ao sabor, não importa se branco ou tinto), o discípulo de Baco decide ocultar a evidência da morte e, com toda a certeza, as convulsões dos dias e as agitações dos homens (embora se condene a sentir outras ainda maiores). Tal atitude não parece a de um espectador que rejubile ante o espectáculo do mundo: parece, ao invés, a de alguém que evita o mundo e o seu espectáculo, e a quem é dado contentar-se com semelhantes realidades — justamente por saber evitá-las. Todavia, se amputarmos o famigerado verso da vínica ambiência (como faz o Nobel da literatura), poderemos também interpretá-lo da seguinte forma: sábio é o que se contenta em ser espectador, uma vez colocado perante aquelas circunstâncias do mundo que lhe não solicitam qualquer acção particular. Entenda-se, não é quietismo: é prudência; não é conformismo: é discernimento. A sabedoria, neste caso, longe de ser uma extensão da vinhaça, consistirá em refrear ímpetos pseudo-revolucionários, sobretudo quando tais ímpetos expressam apenas, à sua maneira, a essência do próprio espectáculo que tencionam (ou fingem) subverter. JFB 30/08/2005 O MELHOR AMIGO DOS ESPANHÓISO Presidente do Governo Regional da Madeira diz que o arquipélago «seguirá o seu caminho» se Portugal e Espanha decidirem enveredar pela «aventura ibérica», porque ele, Alberto João Jardim, recusa-se a «ser espanhol». É assim Alberto João: sempre a sacrificar-se pelos amigos — prefere a independência (promessas, promessas!...) a fazer Espanha passar a vergonha de tê-lo como cidadão... FG 27/08/2005 M.I.J.A.A fossilização do cenário político na Madeira tem destas coisas: permite que ideias da nossa adolescência sejam recuperadas sem quaisquer sinais de anacronismo. Assim de repente, lembro-me do saudoso M.I.J.A. (Madeira Independente, Já! Agora!), um movimento reservado a continentais com vergonha na cara. Oh! If only... FG 27/08/2005 PALINÓDIAUma posterior e mais acurada reflexão resgatou do rol das minhas leituras A Lenda de Martim Regos, pelo que nos tempos recentes há efectivamente um romance a interferir na minha quase-monogamia literária. Apesar da dimensão da obra, despachei o Martim em pouco tempo — o que lhe dá, quando muito, o estatuto de uma rapidinha, uma queca inconsequente, a tal excepção que não invalida, antes confirma, a regra. FG 26/08/2005 O HOMEM DECADENTEOutros já o terão pensado de mim, mas é o seu estatuto de autodescoberta (atenção, editores da Pergaminho!) que lhe dá um valor acrescentado: acabo de concluir ser eu um homem decadente! Depois da declaração bombástica, o anticlímax: não, tal conclusão não constitui o mea culpa que antecede a palinódia do incréu moribundo, muito menos um acto de contrição pelas minhas inclinações capitalistas burguesas, sequer um primeiro passo na dura escalada kármica de aperfeiçoamento rumo ao Nirvana (hélas, editores da Pergaminho!). Falo, simplesmente, das minhas leituras. Até aos 14 anos li basicamente ficção. Por essa altura (depois de um período angustiante caracterizado pela falta de sincronia entre os meus novos e ainda desnítidos gostos literários e as minhas tentativas de leitura) pus de lado a ficção e passei quase exclusivamente para a História, a Divulgação Científica, a Sociologia das Religiões. Dez anos depois, muito por influência de duas amigas minhas, regressei em força à ficção, ao romance; isso foi há coisa de uma década. Revejo as minhas leituras dos últimos tempos e constato, não tão surpreso como isso, que há dois anos que não leio, não me sinto atraído por um livro de ficção (digo, um romance), tendo-me entregue quase de forma monogâmica ao ensaio. (As excepções são alguns volumes de contos, microcontos e afins, a maioria por culpa/mérito da Periférica.) Descobri, pois, que as minhas preferências literárias oscilam entre dois pólos, respeitando um período aproximado de uma década — o que faz de mim um leitor bipolar e decadente. (Alguns dirão que não só como leitor — et pour cause?) FG 25/08/2005 UM DITO SOBRE AS MULHERESNos Ditos Portugueses Dignos de Memória, lê-se a dada altura: «Um homem disse pelas mulheres que eram Paraíso para os olhos, Purgatório para as bolsas e Inferno para as almas.» Mediante o auxílio da lógica aristotélica, reduzamos a sentença a três proposições do tipo A (ou universais afirmativas): a) toda a mulher é Paraíso para os olhos; b) toda a mulher é Purgatório para as bolsas; c) toda a mulher é Inferno para as almas. Nenhuma dama escapa ao exercício generalizador daquele fulano anónimo. E nenhum cavalheiro prevenido deixaria de concordar com ele. Isto apesar dos exageros: por exemplo, só um tolo afirmaria que toda a mulher é Paraíso para os olhos. JFB 23/08/2005 WASHINGTON POST vs. EXPRESSO: DESCUBRA AS DIFERENÇASSegundo o Actual, aos colaboradores do Washington Post não são permitidas recensões de obras escritas por amigos ou conhecidos. Imagine-se o que aconteceria se essa norma vigorasse no Expresso. No Saco de Plástico, escrever sobre a obra dos compagnons de route littéraire é tão natural como uma progenitora avalizar a beleza apolínea da prole (o depoimento da mãe de José António Saraiva sobre a última obra deste foi só um cúmulo grotesco). Já no Post, ao que parece, não bastam as juras de isenção dos seus colaboradores. Aqui, uma norma que introduzisse à força o decoro e o pudor que por vezes se ausentam da colaboração do Expresso seria, obviamente, fascista — e mote de austeros poemas sobre a decadência do Ocidente. Claro que seguir os passos do Washington Post implicava reinventar o meio literário português. Que teria necessariamente de ser maior do que o país. Literalmente. RAA 18/08/2005 O EU E OUTRAS APARÊNCIASApós um interregno de quase oito meses, regresso ao blogue. Obrigo-me à disciplina do verbo. Condeno-me a um post semanal: é necessário recriar o mundo, para não o sentir demasiado gasto. «O senhor que sabe latim preferiria não esperar telefonemas; as chamadas telefónicas vêm do mundo, são, em conclusão, a única prova que lhe é dada da existência do mundo. Mas não da sua.» Giorgio Manganelli termina deste modo uma curta narrativa do seu livro Centúria. Será sempre possível provar que o mundo existe. No que a Deus diz respeito, vão servindo, à falta de melhor, as cinco vias de S. Tomás e o argumento de Santo Anselmo. Contudo, os tempos já não são favoráveis ao apaziguamento do eu. Longe correm os dias em que Descartes rejubilava na certeza do Cogito. Penso, logo existo: e a alma agitava-se de satisfação. Agora talvez se diga, não sem melancolia: penso, logo algo me aparece a existir. E o sujeito hipotético é arremessado para uma dança ingovernável de espelhos, reflectida nos célebres versos de Sá-Carneiro:
O labirinto impôs-se, a perda fez-se método, a fragmentação tornou-se regra. Mergulhado nestas amargas reflexões, como se quisesse interrogar o sentido oculto da história, abro um volume antológico de poesia maneirista. E recolho dois luminosos tercetos de um poeta obscuro:
O autor do soneto, Baltasar Estaço, viveu na época do pensador francês. Pois bem: é legítimo concluir que, afinal, já nessa altura o eu revelava sentir-se metafisicamente maldisposto. Os versos finais são uma bela síntese do paradoxo de ser um eu. E uma bela síntese é também uma promessa de salvação. JFB 18/08/2005 |
Autores dos textos:Fernando Gouveia [www] |
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