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O blogue da Periférica

Página de entrada do blogue (últimas)

CRUEL

Com as devidas contextualizações (colégio interno, Suécia, década de 1950), Cruel, filme do sueco Mikael Håfström, dá-nos uma boa imagem dos méritos "integradores" da praxe — integração num sistema em que cada um aprende o seu lugar na "cadeia alimentar", garantindo a eternização do próprio sistema. Apesar do fim inevitável, a personagem principal consegue ser em grande medida imprevisível.

Infelizmente, em Portugal este filme nomeado para os Óscares de 2004 só está disponível em Lisboa (Quarteto e El Corte Inglés) e no Grande Porto (Arrábida Shopping). Resta esperar (?) pela disponibilização em DVD. FG 19/07/2005

PRÉ-CAMPANHA

Em outdoors espalhados pela cidade, Carmona Rodrigues arregaça as mangas e exorta: «VAMOS A ISTO LISBOA».

Pergunto: sendo Carmona Rodrigues vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (e, por meio ano, seu presidente), já não devia ter arregaçado as mangas há quatro anos atrás? FG 14/07/2005

O (IN)SULTÃO DA MADEIRA

Num processo de difamação em que o Presidente do Governo Regional da Madeira era a parte queixosa (ele há coisas!...), o tribunal reconheceu que Alberto João Jardim «tem apelidado, entre outros, os ambientalistas e os partidos da oposição regional e respectivos membros de "rascas", "rafeiros", "incompetentes", "covardes", "mafiosos", "parvalhões", "abutres", "malandros", "canalhas", "vigaristas", "tarados", "tontos", "broncos", "psiquicamente doentes" e "subversivos idiotas"» (Público). Em face destas evidências, a PJ irá investigar a eventual existência de ligações menos claras entre o monarca madeirense e o 3367 (serviço de envio de insultos por SMS). FG 08/07/2005

PODER DE SÍNTESE

Numa parede, oito palavras resumem 60% das ideias e da acção política do Bloco de Esquerda:

O PETRÓLEO NÃO BATE
CANNABIS LEGAL / NO WAR

FG 08/07/2005

DOUBLE 07

Mau sinal, quando "o dia da infâmia" se torna uma expressão banal. FG 07/07/2005

E SUPÕE-SE QUE ISSO DESINCENTIVE OS TERRORISTAS?

Segundo a agência noticiosa EFE, Bento XVI expressou a sua dor ao saber dos atentados desta manhã em Londres, que deplorou e considerou «actos inumanos e anticristãos». Entre as hostes terroristas, em especial o último adjectivo foi recebido como um balde de água fria. FG 07/07/2005

BARBARIDADES

«É particularmente bárbaro que estes ataques aconteçam hoje, num dia em que se está a discutir os problemas de África e os problemas ambientais no mundo.» Foi este um dos primeiros comentário de Tony Blair aos atentados terroristas desta manhã.

Um político com a responsabilidade e a tarimba do primeiro-ministro britânico deveria apelar menos ao lugar-comum nas declarações que faz: primeiro, porque não é o calendário que define a barbaridade do acto (não me parece que um atentado no Natal ou no Ramadão seja em essência pior do que a 16 de Abril ou 23 de Outubro); depois, porque já se sabe que aos terroristas islâmicos interessa pouco a miséria humana em África (ou mesmo nos seus próprios países) e ainda menos os problemas ambientais no mundo. FG 07/07/2005

P.S. Mas talvez o recurso ao lugar-comum seja realmente necessário num mundo onde um ataque indiscriminado é acolhido com comentários do tipo «Quem vai à guerra...»

"UM SORRISO VALE MAIS DO QUE UM MEDICAMENTO"

A Operação Nariz Vermelho é uma iniciativa que tenta «levar alegria às crianças» em tratamento no Instituto Português de Oncologia (IPO). Segundo o presidente do Conselho de Administração do IPO (creio que do Porto), «os "doutores palhaços" abafaram lágrimas e trouxeram esperanças e sorrisos que valem mais do que um medicamento» (Público, caderno Local). Não ponho em causa o mérito (não só afectivo, mas também terapêutico) de tal iniciativa, mas estando nós perante doentes oncológicos, dizer que sorrisos «valem mais do que um medicamento» situa-se entre o vácuo e o irresponsável. Há limites para a retórica. FG 07/07/2005

MIAU FU!

O Gato Fedorento entrou em ruptura com a SIC. A notícia veio ontem no DN e hoje no Público e no JN. Detalhes não há muitos, mas não me admirava que na decisão de o quarteto partir para o divórcio (com que consequências?) tivessem pesado bastante os reparos certeiros de Eduardo Cintra Torres no «Olho Vivo» de domingo passado. FG 06/07/2005

O EMBUSTE DA ESCOLA "DEMOCRÁTICA"

O n.º 3 da Atlântico, que chegou hoje, traz um longo (7 págs.) e interessante artigo de Gabriel Mithá Ribeiro (GMR) sobre «Ensino e Democracia: Colossal embuste». Quem tem acompanhado nos últimos anos a discussão à volta da Educação sabe do que trata: «Contra o "Eduquês", marchar, marchar!» E bem precisamos que nos chamem à liça, pois esta guerra de trincheiras prolonga-se há muito e a inércia beneficia o lado do establishment eduquês.

O artigo é longo, já disse, reclamando a leitura integral (e a reflexão subsequente), mas deixo aqui alguns highlights:

O surrealismo do que se passa no ensino tem muito que ver com o facto de toda uma sociedade se ter deixado enredar, há mais de duas décadas, por uma espécie de teologia que coloca o aluno no centro dos sistemas de ensino.

[...] quem gere não é quem é prejudicado [...], podendo assim divagar sobre a bondade do sistema.

Professores que manifestem tão-só bom senso são rotulados pelos "do sistema" de conservadores, retrógrados, tradicionais, mesmo que estejam a "bater o pé" ao que é evidentemente prejudicial à sua dignidade e da escola.

Mas esses encarregados de educação e respectivos educandos acabam, a prazo, por ser seriamente prejudicados por um presente envenenado que é a pieguice pedagógica que nos domina.

As correntes pedagógicas centradas no aluno criaram a falsa ideia da parceria ou da irmandade entre professores e alunos. [...] Por muito que a realidade depois negue esse princípio idílico [...].

[...] relacionar isso [maior rigor e exigência, existência de exames nacionais] com um hipotético acréscimo de exclusão social só revela espíritos incapazes de confessarem abertamente que consideram os alunos, particularmente os oriundos de meios sociais desfavorecidos, como seres intelectualmente diminuídos a quem pouco ou nada se pode exigir e tudo se deve facilitar. [...] a escola que hoje temos é ela própria geradora de desigualdade e de exclusão sociais, precisamente por não ser exigente.

[...] o ensino é a Cuba do nosso sistema político.

Uma crítica, porém: o índice anuncia que «Gabriel Mithá Ribeiro denuncia "O Colossal embuste" que rodeia o ensino em Portugal». O verbo denunciar costuma pressupor o inaugurar de uma nova questão; ora, a percepção e a denúncia de que muito vai mal no ensino estão longe de ser de agora (infelizmente, pouco se progrediu). O próprio GMR publicou antes A Pedagogia da Avestruz (Gradiva, 2003), um livro que se recebe com dolorida concordância — como a quem nos coloca o dedo na ferida. FG 05/07/2005

P.S. O editorial de Helena Matos lança o mote para o artigo de GMR. É antológico o exemplo aí apresentado daquilo a que poderíamos chamar «Matemática sociopolítica».

REFERENDO AO ABORTO

Não sei por que razão o PS insiste em realizar antes do fim do ano um novo referendo ao aborto. Ainda a 20 de Fevereiro realizámos um — e o Aborto perdeu. FG 04/07/2005

DE MÁRIO PINTO, NEM BOM PENSAMENTO NEM BOM ARGUMENTO

Isto de concordar nalguma coisa com Mário Pinto (MP) tinha de ser sol de pouca dura...

A secção final do artigo a que me referi anteriormente chama-se «De Espanha, nem bom vento nem bom casamento» e trata da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os presentes (autênticas pérolas) ficam por conta de MP. Diz ele:

Ora, o casamento é heterossexual por natureza. E desta natureza não decorre nenhuma discriminação. Os homossexuais podem também, como toda a gente, celebrar um casamento (heterossexual). E muitos o fazem.

Percebem a lógica do argumento? Segundo MP, no que toca ao casamento os homossexuais não são discriminados por esse mundo fora, porque sempre podem casar com alguém do outro sexo — ou seja, com quem em princípio não querem casar! MP transforma o que muitas vezes é uma (infeliz) pressão da sociedade num exemplo de igualdade de direitos*. A isto só não se chama a lógica da batata porque o referido tubérculo merece todo o nosso respeito.

Mais à frente, continua MP:

O casamento é outra coisa, definida e controlada conceitualmente pela diferença dos sexos, pela coabitação e pela consequente geração de filhos [...]. Casamento e família são uma só coisa. E não há família sem geração.

Em que ficamos, então: o casamento é «naturalmente» heterossexual, ou apenas «conceptualmente»? É que me custa a aceitar algo como um «conceito natural»: um conceito é um constructo intelectual (e cultural), uma formalização operada pelo ser humano. Largas costas tem a Natureza!

Por serem alarvidades triviais, dispenso-me de comentar a passagem sobre a «consequente geração de filhos» e a opinião (permitam-me o trocadilho: de um inconsequente) de que «não há família sem geração». FG 04/07/2005

* Em Cuba também reina a igualdade de direitos: toda a gente pode votar no Partido Comunista Cubano, e muitos o fazem; em Cuba o voto é comunista por natureza.

O VALOR DA SAÚDE E DA EDUCAÇÃO

Mário Pinto escreve hoje no Público sobre «Um Estado excessivo e insuficiente». Enquanto leio faço uma pausa, atónito, pois algo de estranho se passa: pela primeira vez, que me lembre, concordo um bocadinho que seja com algo que Mário Pinto diz. Destaco o seguinte excerto:

A educação mantém-se como o monopólio público mais firme. Na segurança social e na saúde evolui-se para que cada cidadão se contente com menos e vá tratando de arranjar um seguro pessoal complementar. Na educação, não.

Mário Pinto não explica o porquê de tal situação, e a sua avaliação parece limitar-se à constatação da tendência monopolista do Estado no que toca à educação — passando ao lado das razões da aceitação desse facto por parte dos cidadãos, que, pelo contrário, tratam cada vez mais de garantir para si cuidados de saúde complementares (presume-se que de maior qualidade). Esta é uma questão muito mais interessante, a meu ver, pois fala um pouco de todos nós.

E o que fala não é bom: os portugueses resignam-se ao sistema educativo público que têm — pouco exigente, pouco rigoroso, desincentivador de docentes e discentes, fraco em resultados — porque os portugueses não dão valor à educação. À saúde, sim, mas não à educação: de uma ida ao hospital não desejamos apenas a alta — esperamos a cura; já da escola, espera-se apenas a passagem de ano (ou, vá lá, a "ocupação dos tempos livres" da miudagem), não a aprendizagem. Isto prende-se com diferenças no estabelecimento de relações de causalidade: os efeitos de maus cuidados de saúde podem constatar-se (da pior forma) em questão de horas, enquanto que o presente envenenado de um sistema educativo pouco exigente e pouco rigoroso demora uma geração a fazer-se notar — e por essa altura, causa e consequência, a própria capacidade de análise da situação encontra-se já comprometida.

O pior legado de um mau sistema educativo é o seu próprio aprofundamento, o ciclo vicioso que gera. FG 04/07/2005

PERIFÉRICA n.º 13

Acaba de ser disponibilizada a edição online do n.º 13 da revista Periférica. A revista começará a chegar às bancas (e aos ansiosos leitores) no início da próxima semana. Para que as férias não sejam tão enfadonhas.

Da presente edição destacamos:

  • Duas entrevistas: a Helena Matos (jornalista, autora de muita da opinião mais outsider que se pode encontrar na imprensa nacional — e directora da neonata Atlântico) e a Manuel António Pina, poeta, que nos diz que «a poesia goza de um injustificado prestígio».
  • A tradução, no número anterior, de um excerto de Oeste (o mais recente romance do galego Manuel Rivas) levantou a questão da necessidade de tradução. Que grau de semelhança existe (e se deseja) entre o português e o galego? Três escritores galegos expõem as suas diferentes visões.
  • Quando não está opiaciamente alheio do rumo que leva — ou freneticamente in denial —, Portugal suspira e espera (sentado) pelo «político competente» que ponha ordem na casa. A espera dura, e dura, e dura. Carlos Jalali disseca-a.
  • Nas páginas centrais sugerimos dois percursos literários pelo Metro de Lisboa.
  • No campo da fotografia, dois portefólios de encher as medidas: o "clássico contemporâneo" Piotr Kowalik e o louco mundo a preto e branco de Armindo Dias.
  • Um ano depois, a banda desenhada regressa merecidamente às páginas da Periférica com Benoît Guillaume e Pilau, naquela que é a nossa estreia — que já tardava — pela francofonia.
  • In extremis, uma selecção de posts do recém-nascido Casmurro, uma das melhores notícias da blogosfera nacional desde que a blogosfera nacional passou a ser notícia.

Isto, e algumas coisas mais que lá encontrarão, são tudo boas razões para ler (e já agora comprar) o n.º 13 da Periférica. RP 28/06/2005

AS CONSEQUÊNCIAS PSICOLÓGICAS DO ABORTO — FACTOS E MITOS

É bom ver de vez em quando uma reportagem séria sobre a questão do aborto ilegal. O DN traz hoje uma. Destaco das palavras de um médico que realiza abortos o seguinte:

A conclusão [do simpósio francês subordinado ao tema As Consequências Psicológicas do Aborto — Factos e Mitos] é que essa ideia de que as mulheres ficam perturbadas é muito exagerada. A minha experiência é que as senhoras podem levar umas semanas a decidir, mas, quando chegam aqui com a decisão tomada, estão em paz com a ideia. Temos uma psicóloga de referência, mas sou franco, em cinco anos desta prática, nenhuma mulher recorreu a ela.

FG 27/06/2005

SONO NUMA NOITE DE VERÃO

A noite mais curta do ano foi a mais longa para nós. Quando começa o Verão, eis que segue finalmente para a tipografia a edição de Primavera da Periférica (n.º 13).

Em matéria de aggiornamento só mesmo a Igreja nos supera. Mas esta é uma espera que vale a pena. RP 22/06/2005

CASMURRICES

A nossa lista de blogues recomendáveis é velha e desactualizada. Haverá — certamente há — vários blogues que podiam ali figurar, enquanto outros que figuram já pouco fazem para merecê-lo (não só quantitativamente).

Sendo nós bloggers de anos bissextos e leitores meramente ocasionais, nunca nos preocupou ostentar a anacrónica lista aqui do lado. Não pretendemos cavalgar a onda (só o Nobel, e mesmo esse tem tempo).

Mas hoje, dia raro em que me arrasto para a sala antes da onze, com o sol a entrar pela varanda, os pássaros em festim nas tílias, as meninas de umbigo ao léu lá em baixo, eu de cuecas aqui em cima como um forçado, em busca duma ideia para o editorial 13 — hoje, cheguei ao Casmurro e deliciei-me (lá se foi outra vez o editorial) e decidi: Fernando, vamos pôr um link para estes gajos (Abel Barros Baptista and friends)! RAA 16/06/2005

"THE INNOVATIVE POWER OF MAGAZINE PUBLISHING"

A Periférica foi seleccionada como uma das representantes portuguesas na Exposição Europeia de Revistas (Bruxelas, 16–17 de Junho), evento organizado pela FAEP – European Federation of Magazine Publishers sob o tema "The Innovative Power of Magazine Publishing".

Para além da Periférica, foram seleccionadas na categoria Inovação a nível de Conteúdos as revistas CAIS, Con(tacto) e Autêntica. Na categoria Inovação de Layout e Design, as publicações escolhidas foram a Egoísta, a Umbigo e a "família" Blue (Blue Living, Blue Travel e Blue Simply). Informação da AIND – Associação Portuguesa de Imprensa 04/06/2005

ICH WEIß, DASS ICH NICHTS WEIß

Não há nada mais alemão do que a filosofia, nem nada mais filosófico do que um pouco de alemão. E não há filósofo ou crítico que no-lo deixe esquecer. Um mísero texto que trate da mais básica das questões metafísicas traz, mesmo que sem grande propósito, um pensador alemão como brinde e abundantes conceitos que só a língua alemã sabe exprimir (mais não seja, porque inventados nessa língua), coerentemente grafados em alemão. Claro que vários daqueles que se servem da filosofia querem ser entendidos por não iniciados, o que significa que a seguir aos termos ou expressões alemãs utilizados apõem, generosamente, a tradução ou aproximação portuguesas.

Existem momentos em que todos reconhecemos a indispensabilidade da alusão ao maître à penser alemão (particularmente quando o texto versa sobre o próprio). Do mesmo modo, há alturas em que a introdução do conceito em alemão na prosa é obrigatória: quando a expressão portuguesa não encerra todo o significado do palavrão, por exemplo. Nesse caso, ao usar o alemão, o plumitivo disse o que queria, e o não iniciado, ainda que não perceba, sempre se vai familiarizando com os termos.

Mas serão todos os casos assim? Não deixo de desconfiar que o alemão está para a filosofia como o francês estava para a alta-roda há cem anos. Uma questão de distinção. De nobreza. Uns itálicos para enfeitar a prosa (como o maître à penser que usei lá atrás por vaidade). Uma questão de... haut culture. Reforça-me esta ideia (algo plebeia e ressentida, é certo) o facto de não ver o grego a dar cartas nas citações de Platão e demais tropa helénica. E até o velhinho cogito ergo sum do Descartes, que tem a vantagem de ser facilmente decorado pelo mais alvar dos liceais, já raro substitui o penso, logo existo da mãe pátria.

Acertam os que dizem que em filosofia eu não devia fazer mais do que citar Sócrates. Pergunto-me como haveria eu de o fazer correctamente sem a Internet, já que os filósofos, germanófilos que são, não consagraram o clássico ΕΝ ΟΙΔΑ ΟΤΙ ΟΥΔΕΝ ΟΙΔΑ. RAA 19/05/2005

FOI BOM PARA TI?

A tarde da RTP é preenchida com todo o folclore à volta do jogo Sporting–CSKA desta noite. Na Praça da Figueira, adeptos excitados sobem ao palco e simulam relatos de um jogo que só começou nas suas cabeças, festejam efusivamente golos imaginários.

... e ainda há homens que duvidam que as mulheres finjam orgasmos, que isso seja sequer possível! FG 18/05/2005

A RIQUEZA SEMÂNTICA DA BOLSA DE VALORES

Quem quer que seja que introduz a informação das bolsas de valores nos rodapés dos telejornais deve ser o orgulho dos seus antigos professores e professoras de Português: após estes anos todos ainda não esqueceu o que lhe ensinaram nos bancos do ensino obrigatório. Pelo menos no que toca à necessidade de evitar a repetição vocabular.

Ora vejamos: se num dia negro o índice Dow Jones perde 2.1%, o "Footsie" (petit nom, entre os iniciados, do índice FTSE 100, da Bolsa de Londres), o "Footsie", dizia, desce 1.3%; já o PSI20 desvaloriza 2.4%, ao passo que o CAC 40 desliza 1.9% e o NASDAQ 100 cai outro tanto (há também os que resvalam e os que recuam). Um aviso aos mais esperançosos: a escolha do verbo não depende em nada da gravidade da desvalorização do índice — cair não é obrigatoriamente pior do que deslizar ou simplesmente descer; a escolha vocabular é isso mesmo: mera escolha, com o fim último de evitar as repetições (e o raspanete da 'stora).

Depois, claro, temos os contrapontos para dias mais eufóricos: este ganha, aquele sobe, aqueloutro valoriza, lá longe algum índice reforça-se.

Como os índices bolsistas são mais variados do que a imaginação de quem administra o rodapé (falta ainda o MIB30, o IBEX-35, etc.), recorre-se também, em desespero de causa, à variedade de tempos verbais: o DAX30 subiu e o Nikkei 225 ganhou — o que nada tem a ver com horas diferentes de fecho das respectivas bolsas.

Tudo isto, claro, resolvia-se mais simplesmente com uns inequívocos sinais matemáticos ('+' ou '–') ou com umas setas para cima ou para baixo. Mas isso faria da informação bolsista mera economia — quando é, como se sabe, paixão, arte e poesia. FG 16/05/2005

CABEÇAS NO AR

Na acepção de muitos jornalistas, fazer jornalismo é "mandar bocas", "dizer coisas". Isto é especialmente verdade no seio da classe jornalística televisiva. Não sei se será consequência inevitável do nosso paupérrimo "star system", se doença profissional imputável aos projectores, que lhes fritam os cérebros, ou ainda se tal se deverá à indicação "NO AR" — que os jornalistas pensam dever referir-se às suas cabeças. O que é certo é que na televisão "mandar bocas" é um imperativo do jornalista.

Veja-se o último Nós Por Cá (SIC): Conceição Lino anuncia, com um mordaz ar de triunfo, um "buraco" no novo Código da Estrada e faz gala da "dica" com que presenteia os telespectadores. Para melhor percebermos, citemos o artigo em causa (88.º), que trata da obrigatoriedade dos triângulos e coletes retrorreflectores:

1. Todos os veículos a motor [com excepções indicadas] devem estar equipados com um sinal de pré-sinalização de perigo [vulgo, triângulo] e um colete, ambos retrorreflectores e de modelo oficialmente aprovado.

2. É obrigatório o uso do sinal de pré-sinalização de perigo sempre que o veículo fique imobilizado na faixa de rodagem ou na berma ou nestas tenha deixado cair carga, sem prejuízo do disposto no presente Código quanto à iluminação de veículos.

[...]

4. Nas circunstâncias referidas no n.º 2, quem proceder a colocação do sinal de pré-sinalização de perigo, à reparação do veículo ou à remoção da carga deve utilizar o colete retrorreflector.

[...]

6. Quem infringir o disposto no n.º 1 é sancionado com coima de €60 a €300, por cada equipamento em falta.

7. Quem infringir o disposto nos n.ºs 2 a 4 é sancionado com coima de €120 a €600.

Face a este articulado, concluía Conceição Lino (cito de memória): «Por isso já sabe: se se esquecer de utilizar o colete, mais vale dizer que não o tem, que sai mais barato!» (Aqui entrava o tal sorrisinho mordaz — belo que é.) Adaptando a "esperteza saloia" da receita anterior ao Código Penal: se alguma vez me acusarem de assassinar alguém, defender-me-ei dizendo à Polícia que usei uma pistola não registada — é que a pena por uso ilegal de arma de fogo é menor do que a por homicídio...

Ó Conceição Lino, então nunca ouviu falar de acumulação de contra-ordenações (e de coimas)? Vou dar-lhe uma pista: envolve contas de somar... FG 16/05/2005

P.S. Já depois de escrever o texto principal deste post soube através de um amigo que a "grande descoberta" teledifundida pelo Nós Por Cá anda há já alguns dias a circular pela internet. Reproduzir acriticamente aquilo que nos entra pela caixa de correio electrónico ou que vimos nuns blogues é ler o Nós, os Media um pouco na diagonal, não lhe parece, Conceição?

ANTES A GINA

A Associação para o Planeamento da Família terá copiado, para propor às escolas portuguesas, uns manuais de educação sexual espanhóis que estão a indignar muita gente. (Ainda bem que não estava disponível para cópia a bíblia da educação sexual tal como a APF a entende: o Kama Sutra. Em fotos.)

A proposta da APF é um avanço e um retrocesso em relação ao meu tempo de estudante. Um avanço, porque propõe aos pais que paguem às claras aquilo que nós comprávamos às escondidas. Um retrocesso, porque substitui por desenhos manhosos aquilo que nós tínhamos na Gina em fotos de alta definição. RAA 16/05/2005

EU GOSTO É DO DUBAI

Clara Ferreira Alves gosta do Dubai. O emirado árabe é «o melhor lugar do mundo para cavalgar». A "Pluma Caprichosa" desta semana descreve-nos as maravilhas naturais e construídas do Dubai, as mil e uma razões para gostar daquele estado, que até «é dos países islâmicos com menos repressão» e onde «a segurança é discreta». É certo que Clara Ferreira Alves nos avisa que as coisas lá não são mais baratas («comprar uma máquina de filmar japonesa não valeria a viagem»). Que há «escravos vestidos de azul escuro, os novos "coolies"», trazidos de vários países da Ásia, «homens que vivem em "trailers" e são alimentados para terem força», para serem a energia braçal do Dubai. Que depois do 11 de Setembro o número de mulheres veladas de negro «aumentou, em vez de diminuir». Mas também é verdade que muitas delas até «andam vestidas de Dior e Gucci por baixo». Mais: «uma percentagem anda vestida à ocidental» e há adolescentes «de "jeans" e umbigos à mostra». E o calor, meu Deus, o calor? «Até o aprecio em Agosto, quando estão quarenta à sombra.» E as maravilhosas praias (ameaçadas pela construção, há que dizer)?...

O Dubai, disse-nos há tempos Clara Ferreira Alves a propósito do tráfico de armas nucleares paquistanesas, é «um lugar onde o dinheiro não faz perguntas». Mas hoje que se fala do emirado pelas suas leis anti-charros é notória a sua imerecida «má reputação». RAA 16/05/2005

O DIVÓRCIO DA IGREJA

Mario Vargas Llosa escreve (DNA) que «não é concebível que uma sociedade progrida e prospere sem uma vida espiritual e religiosa», mas «teria sido desejável que o catolicismo se adaptasse (...) às realidades do nosso tempo em matéria sexual, moral e cultural». Para os mais agnósticos poderá não ser fácil, seguramente, concordar com a primeira afirmação, o que não os impedirá de subscrever plenamente a segunda. A Igreja Católica e os seus simpatizantes, pelo seu lado, negam-se a reconhecer acerto na segundo proposição, concordando sem dúvidas com a primeira.

O mundo não religioso (secular por opção ou praxis — o que inclui não crentes declarados e crentes nominais por tradição cultural) e a Igreja relacionam-se e adaptam, de facto, as suas existências à do outro. Na sua forma moderada (a mais vulgar), o mundo não religioso faz a sua vida apesar da religião, não encontrando fortes razões para especiais interacções ou conflitos. Respeitam-se (ou seguem-se mecanicamente, sem convicção) os ritos e as tradições, discorda-se e ignora-se na prática o quadro normativo sobre matéria sexual, moral e cultural. Pelo seu lado, a Igreja alimenta a ilusão de que os milhões que frequentam os seus templos o fazem por imperativos de fé ou religiosidade. Aceita converter-se num conjunto de tradições mecânicas e ocas na expectativa de que a proximidade do templo lhe garanta influência espiritual nos momentos de dúvida e medo humanos.

Na realidade, e tomemos o exemplo de Portugal, raros como trevos de quatro folhas são os católicos por opção. Na hora de recorrer ao religioso (na dor, na proximidade da morte), os cidadãos recorrem ao espiritual em abstracto e ao catolicismo por movimento reflexo. O baptismo, a missa ao domingo, o casamento religioso não são opções de pura fé e religiosidade, como a Igreja não ignora. No baptismo o indivíduo não está presente — logo não teve nada a ver com o assunto, que não lhe causa mossa especial nos dias vindouros, não exigindo por tal nenhum gesto de confirmação ou repúdio. A missa ao domingo é, para grande parte dos poucos que a frequentam, um mero cumprimento de tradições culturais e rituais sociais. Tem mais a ver com a praxe secular do que com a busca espiritual. O casamento religioso não tem mais valor simbólico do que a cor do véu, que virgens e não virgens usam de igual modo discricionário. Os casais recorrem à Igreja no cumprimento da tradição por excelência, para evitar a censura social de uniões meramente civis, para homologar a prenhez, raramente em busca da bênção divina de um amor que não juram eterno.

Neste campo revela-se a hipocrisia (quase sempre consciente) da Igreja. Não há união que a cristandade não abençoe, cumpra esta os requisitos técnicos (bem, mesmo que nem todos, que o Templo é compassivo). À Igreja basta-lhe a palavra decorada dos candidatos para apadrinhar como eterno e profundo o desejo de união. Mesmo que seja óbvio que só ali estão pela fotografia em frente ao altar. Mesmo que, não são raros os casos, os candidatos não façam a mínima ideia do que significa um casamento, mesmo que civil. Mesmo que (ainda se verifica) um ou os dois futuros cônjuges padeçam de evidentes insuficiências de juízo. Dê Deus a sua bênção que a Igreja assim o deseja.

Mas se os mesmos cônjuges testemunharem com igual ou maior veracidade o seu erro, a Igreja não autoriza a separação do casal. O divórcio não existe no dicionário da Igreja. Para o casamento não há entraves, faça aqui a sua foto, venha o arroz. Para o divórcio não adianta pedir, que não dou.

É claro que a Igreja inventaria o divórcio no dia em que isso pusesse em causa a sua sobrevivência. Como aceitou a sua própria paganização (o que são os santos senão versões católicas de deuses pagãos? Só as múltiplas "versões oficiais" da Virgem Santíssima são um panteão). Mas não precisa: os cidadãos desobedecem e, estatisticamente, continuam católicos. O único divórcio que a Igreja, a Igreja das normas e dos rituais e da pompa, aceita placidamente é a separação de facto entre a prática do catolicismo e os valores do cristianismo. RAA 14/05/2005

A FOLHA EM BRANCO

A arquitectura portuguesa tem obra feita em Portugal e internacionalizações que atestam a sua qualidade. E tem ainda uma vantagem sobre a literatura: não padece do trauma da folha em branco porque não é dada a grandes hesitações. O orçamento da obra é posterior ao risco. Acresce que a arquitectura portuguesa, salvo escassas excepções, não consegue trabalhar senão a partir da folha em branco. Qualquer remodelação urbana em Portugal tem um pressuposto claro: as existências são para desconsiderar. Sobretudo se as existências forem do reino vegetal. Quando se decide remodelar uma praça, uma rua, um jardim, autarcas e arquitectos são unânimes: há que derrubar. Os autarcas, por um crónico ódio ao verde e natural desejo de refundação (em nome da história). Os arquitectos, porque resulta mais fácil trabalhar na folha em branco. A imaginação, e o lápis com ela, corre mais livre sem os entraves das preexistências. Os plátanos, as tílias e os choupos são claros inimigos da arquitectura — e das minas dos lápis. Nas mãos da moderna arquitectura portuguesa os porta-minas são bulldozers.

Mas a literatura e a arquitectura irmanam-se muitas vezes. A folha em branco de que ambas partem não dá garantias de vir a ser mais do que meras árvores derrubadas. RAA 13/05/2005

LIBERDADE RELIGIOSA E DIREITOS HUMANOS

Monsenhor Giampaolo Crepaldi, secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz, alerta-nos hoje no Público para o facto de que «onde o direito à liberdade religiosa é negado [...], mais cedo ou mais tarde acaba por se justificar a negação de qualquer outro direito humano, incluindo o direito à vida.»

Monsenhor Giampaolo Crepaldi deve saber do que fala, pois a Igreja Católica andou mais de milénio e meio (isto é, enquanto pôde) a negar o direito de todos à liberdade religiosa... FG 13/05/2005

O LUGAR DO PROFESSOR

Quando escrevia o post de anteontem sobre a ASPPO fiz uma pesquisa no Google para tentar encontrar uma transcrição do editorial do Nuno Pacheco (o exemplar do Público onde o li já tinha ido para o lixo). Encontrei um post sobre o assunto num blogue que desconhecia: o Abnóxio. Li-o. Cito (longamente) para depois discorrer:

(...) os modelos de relação pedagógica e os paradigmas de aprendizagem em que se revêem os promotores da iniciativa [o seminário da ASPPO] derivam, logicamente, dos modelos e dos paradigmas dominantes na escola à moda antiga (...) Para uns e para outros, a escola é o palco dos professores. Os professores são o sol da galáxia pedagógica. Os alunos, por definição, não sabem nada, nem seriam capazes de aprender, pelos seus próprios meios, o que quer que fosse, se os professores, misericordiosamente, não lhes "transmitissem", aula após aula, o saber adquirido e acumulado. A "aprendizagem" tem, por isso, de fazer-se ao ritmo dos caprichos de ensinagem dos professores, os soberanos e insubstituíveis detentores de todo o conhecimento. (...) No meu modelo de galáxia pedagógica, o sol são os alunos e tudo na escola deve ser concebido e organizado numa lógica de permanente favorecimento da autonomia dos "aprendentes" e da qualidade das aprendizagens...

O discurso do autor do Abnóxio vai, claramente, ao encontro dos modelos de ensino que vão sendo, de facto, postos em prática em Portugal: modelos que propõem, numa definição simplista, "promover competências" em vez de "transmitir conhecimentos". Independentemente da teoria declarada oficial, as práticas pedagógicas vêm colocando os alunos numa posição francamente sobrevalorizada no sistema estelar do ensino português. Se os alunos são, evidentemente, a razão que justifica a existência do ensino (o "sol" do Abnóxio), será sensato perceber que as débeis competências e a escassez de conhecimentos próprias da idade não aconselham que se faça da rapaziada uma miríade de "reis-sol" que tudo e todos submetem à sua vontade caprichosa. Separar competências de conhecimentos, como se aquelas fossem possíveis na ausência absoluta destes, é uma mera teimosia que procura projectar nos alunos uma crença ideológica na natural prontidão dos rapazes e raparigas para a infinda busca pessoal do saber, no seu voluntarismo e congénita aptidão para a decifração autodidacta do mundo. Um sonho lindo, enfim, mas que não se cumpre na vida real.

A verdade é que as gerações que por aí andam, na sua existência eternamente imberbe e imbecil, não surgiram por acaso. São fruto de um sistema de ensino feito à medida da sua resistência ao crescimento e à responsabilidade, de um sistema social obcecado com as "virtudes" da juventude e invejoso da sua energia e de um sistema familiar que primeiro mima em excesso e depois se faz integralmente tolerante porque já não pode orientar.

Claro que é fácil e cómodo ver no parágrafo anterior uma apologia do "antigamente", maneira que se costuma encontrar para acabar rapidamente com o debate. Mas fazer tábua rasa de milénios de história apenas para ver concretizada uma imprudência (a da desnecessidade do transmissor de saber — do professor, no fundo) é uma irresponsabilidade que não compete ao Estado sancionar. Aquilo que se passa nas escolas e nas universidades não é a irreverência dos que vêem debilidades nos professores e pressentem a possibilidade de seguir o caminho por motu próprio — é o desejo de desobediência e afrontação dos que vêem a autoridade desacreditada e desprotegida e a irresponsabilidade premiada.

«A nossa era é a da irreverência», observa George Steiner, em As Lições dos Mestres. «A consciência [da época] é populista e igualitária, ou finge sê-lo.» É tempo de se banirem os mestres ou de desacreditá-los («Os nossos ídolos devem exibir cabeças de barro»). Se os nossos professores (muitos deles já vítimas deste ensino), nas suas fragilidades e insuficiências, não justificam, obviamente, reverência ou submissão, os nossos meninos também não são génios ávidos que possam dispensá-los.

Ainda Steiner: «Uma sociedade [...] que não honre os seus professores é uma sociedade defeituosa.» A ASPPO, associação pró-ordem com vocação de entertainer, menospreza os professores. Mas não se peça ao Estado que promova outro defeito em nome da «autonomia dos "aprendentes"». RAA 13/05/2005

OS BARDOS

No mundo do fado e da "canção de Lisboa" (designação habitual de uma espécie de fado light) existe um fenómeno que me espanta de entre todos: a impunidade com que uma família inteira, os Câmara Pereira, se declara dotada para tais voos. Concretamente, falo de Nuno da Câmara Pereira (NCP) e Gonçalo da Câmara Pereira (GCP), deixando na paz do benefício da dúvida o Mico da Câmara Pereira, com quem os meus ouvidos nunca se cruzaram (felizmente?).

Pois dá-se o caso que nas veias destes irmãos corre, já meio diluído, o mesmo sangue que animou Maria Teresa de Noronha («a Amália da aristocracia») e Vicente da Câmara. Estes, rezam as crónicas, saberiam mesmo cantar; e assim, como fungos à sombra dos pinheiros, desenvolveram os Câmara Pereira a sua carreira artística à custa dos seus maiores — e das misérias do jet set nacional.

Assurancetourix, antepassado dos Câmara Pereira

Rezam ainda as ditas crónicas que NCP e GCP são descendentes do beato D. Nun'Álvares Pereira, Condestável do Reino e cunhado de D. João I (parentesco que justifica a pretensão de NCP ao inexistente trono de Portugal). Ora, segundo investigações do A Oeste Nada de Novo, a linhagem dos Câmara Pereira é ainda mais prestigiosa, recuando, tal como a do Conde D. Henrique de Borgonha, a terras gaulesas — e batendo esta última em antiguidade.

Não há registo de NCP e GCP terem herdado alguma da beatitude ou do talento militar de D. Nun'Álvares, mas, no que concerne à veia musical destoutro seu antepassado primevo, são os nossos ouvidos martirizadas testemunhas (permitam-me a redundância). FG 12/05/2005

NÃO NEGUE À PARTIDA UMA ASPPO QUE NÃO CONHECE

Aquando da colocação online do post anterior, pesquisámos a Internet em busca de um possível site da Associação Sindical de Professores Pró-Ordem. Demanda inglória. Encontrámos diversas ASPPO's, é verdade, mas não a lusa ASPPO. Ocorreu-nos, no entanto, que cada um deveria ter direito à ASPPO que melhor se adapte ao seu perfil, se não em nome da democracia e do direito à individualidade, no mínimo por força da lei da oferta e da procura. Criámos, por isso — e em exclusivo para os leitores da Periférica —, o serviço «ASPPO on demand», que é como quem diz...

ESCOLHA A ASPPO QUE MAIS LHE CONVÉM:

opção 1: Associação Sindical de Professores Pró-Ordem
opção 2: Armed Service Production Planning Office
opção 3: Association pour le développement des Soins Palliatifs des P.-O.
opção 4: Asociace pro pomoc v tísní
opção 5: Sociedad Peruana de Psicoprofilaxis Obstétrica
opção 6: Appel de Strasbourg pour une paix juste au Proche Orient
opção 7: Asplenium polyodon
opção 8: Aspidosperma polyneuron

FG 12/05/2005

POR UMA NOVA ORDEM DOCENTE

A Associação Sindical de Professores Pró-Ordem (ASPPO) organizou um seminário que, entre outras actividades, procurava dar resposta a algumas questões fundamentais do ensino em Portugal:

Como arrumar a sala de aula para facilitar a aprendizagem? Qual a melhor postura a adoptar? Como colocar a voz? Como gesticular? Que gestos devo evitar? De que cor me devo vestir? De que cor deve ser a sala de aula? Como gerir conflitos? Que legislação disciplinar devo saber de cor? Como relaxar os alunos antes da aula? Como auto-relaxar? É importante saber os signos dos alunos para transmitir melhor a matéria? Se um aluno sofrer um acidente que primeiros socorros devo saber? Como aplicar estas dicas na escola, em casa, aos alunos e a mim?

Para falar às massas docentes, a Pró-Ordem reuniu um elenco moderno que incluía uma astróloga, um actor de telenovela, uma «terapeuta de energias» e uma «formadora em marketing e relações públicas».

Ora, parece que, apesar da qualidade do circo montado pela ASPPO, os media não compareceram na tenda. Se exceptuarmos a presença da SIC Notícias e um editorial de Nuno Pacheco, o evento bem disposto da Pró-Ordem foi um esforço com pouca visibilidade mediática. Acresce que o director-adjunto do Público não levou a sério o seminário, tendo emitido uma opinião «gasosa». O que levou Filipe do Paulo, o presidente da Pró-Ordem, a alinhavar umas palavras queixosas numa "Carta ao Director" do Público. «Nuno Pacheco», diz o sr. presidente, «não faz a mínima ideia, como muitos dos "pedabobos" [sic] que proliferam nas colunas de jornal, de que, quando fazemos seminários com temas mais alternativos, as nossas iniciativas se cobrem ainda de maior sucesso».

A ASPPO não visa, ao contrário do que poderia parecer numa primeira leitura, reflectir sobre a carreira dos professores e alterar o seu estatuto. O que a preocupa é o bem-estar e o entretenimento do docente. Objectivo que o seminário atingiu plenamente, como, na ausência de testemunhos jornalísticos, nos informa Filipe do Paulo: «Conseguimos proporcionar aos professores um dia agradável e diferente do dia-a-dia da escola.» E, para que não restem dúvidas quanto à qualidade e ao sucesso dos programas de lazer da ASPPO, a carta do presidente da alegre instituição reproduz um depoimento de um participante de outras jornadas: «Ao fim de 28 anos de serviço e quando achamos que já não nos apetece ouvir falar sobre "avaliação", "direcção de turma", "relação escola-meio", de repente, surgem estes novos temas actuais [sic], que nos põem outra vez alerta e com vontade de aprender coisas novas. Fazem-nos sentir outra vez a adrenalina.» Fantástico.

A Pró-Ordem, a despeito da ausência dos media ou dos editoriais dissonantes (que acha dispensáveis, preferindo-lhes «uma notícia»), vai continuar a sua labuta a favor de uma nova ordem, de um professorado mais feliz. O próximo seminário terá o tema (alternativo, claro): Docente ou dolce fare niente? Muita adrenalina. Um sucesso de adesão (ainda maior). A comunicação social, como sempre, está convidada («muito se faz para alcançar os cinco minutos de fama a que todos temos direito» e, reconhece Paulo, «a ASPPO não é excepção»). RAA 11/05/2005

DIFERENÇA DE VALORES

O cineasta Ivo Ferreira foi ontem libertado no Dubai, antes mesmo de ouvir a sentença do tribunal que o julgara por consumo de haxixe. (À margem: segundo o Público, na nota do MNE lê-se que «O Governo expressa o seu reconhecimento ao xeque Mohammad Din Rashid Al Maktoum, Crown príncipe do Dubai»; "Crown príncipe" é um exemplar raramente perfeito de crioulo diplomatês...)

O caso de Ivo Ferreira é, de uma forma algo tragicómica (conforme sejamos o protagonista ou meros observadores), paradigmático do divórcio, da diferença de valores entre aqueles que, cá e lá, na Europa e no Médio Oriente, se manifestam em prol de uma causa que aparentemente os une: a Palestina. Ao que parece, o actor e realizador português estava nos Emirados Árabes Unidos a preparar um filme (documentário?) sobre a diáspora palestiniana, tema caro ao regime dos emires. Na Europa, apoiar os "irmãos palestinianos" pressupõe todo um folclore "rebelde": enfiar um shemagh sebento pela cabeça, gritar palavras de ordem contra Sharon e Israel, fumar umas ganzas. Lá, é política oficial do Estado — as ganzas não vêm incluídas. Azar nítido, Ivo. E olha só: estaríamos com sorte se os valores que nos separam deles se ficassem por uns charros. FG 11/05/2005

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