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O blogue da Periférica

Página de entrada do blogue (últimas)

A "MARCA" PORTUGAL

É uma constatação comum: a "marca" Portugal diminui quem a enverga (quase sempre, involuntariamente — et pour cause). Dos profissionais mais variados aos industriais e exportadores, passando por uma amiga minha (referia-se ao appeal que tem para os estrangeiros, antes e depois da "profana revelação"), a unanimidade é quase geral.

Portugal não é uma marca — é uma chaga. FG 22/02/2005

TRILEMA

Por fim a tão desejada chuva caiu, porque...

opção 1: ... as procissões finalmente surtiram efeito;
opção 2: ... a irmã Lúcia já começou a obrar milagres;
opção 3: ... a maioria absoluta de Sócrates agradou a Deus.

FG 22/02/2005

CROMOS

O PDA, Partido Democrático do Atlântico, nasceu nos Açores, mas, proibindo a Lei portuguesa partidos regionais, vê-se forçado a criar estruturas também no território continental. Esta necessidade desesperada de implantação em terras longínquas tem como resultado a abertura das portas a qualquer bicho-careto disposto a figurar nas suas listas: aspira-se a "quadros", vão-se arranjando "cromos". Close enough.

Caso ilustrativo é o do cabeça-de-lista do PDA pelo círculo eleitoral de Vila Real; chama-se Gonçalves Pedro e já foi candidato a candidato a Belém. Não resisto a reproduzir aqui (ipsis verbis et ipsis virgulis, digamos) o conteúdo do folheto que sintetiza o cavalo-de-batalha da sua campanha (que, ilegalmente, ainda decorria na madrugada de domingo, altura em que alguém os espalhou às centenas pelas ruas de Vila Real). Quem disse desta campanha ter sido vazia de ideias certamente não se cruzou com Gonçalves Pedro.

Folheto do PDA [D]

Nota pessoal (os jornalistas ensinaram-nos que devemos sempre introduzir uma nota pessoal): a minha preferência vai, sem dúvida, para o pormenor do foguetão que, de garrafa de vinho do Porto atada ao flanco, parte «Á PROCURA DE NOVOS PLANETAS». Isto sim, é um choque tecnológico! FG 21/02/2005

SONDAGENS

É sabido que uma coisa são as sondagens e outra as eleições — ou, com tanta sondagem, não seriam necessárias eleições. As razões para este facto são de dois tipos: por um lado, os defeitos (limitações) das sondagens; por outro, os efeitos das próprias sondagens. Uns e outros são explorados ou escamoteados pelos políticos conforme lhes convém (ou julgam que lhes convém).

Comecemos pelos efeitos das sondagens sobre o próprio universo sondado. Diz-se (com muita razão e em muitos domínios) que a observação do fenómeno altera a dimensão, quando não a natureza, desse mesmo fenómeno — e isso é verdade também no que diz respeito às sondagens. Perante uma anunciada vitória (ou derrota), há quem desmobilize: porque a vitória já está garantida, ou porque a derrota é inultrapassável. Mas há também quem passe da abstenção à acção: uns, porque acreditam que assim poderão inverter a tendência e evitar a derrota; outros, porque lhes convém ou lhes agrada juntar-se à anunciada onda vitoriosa. (E, claro, há os que agem perante as sondagens como agiriam na ausência delas.)

Quanto aos defeitos ou limitações dos métodos de sondagem, mesmo um não especialista (como eu) vê vários. Desde logo, uma amostra é apenas uma amostra, e não é certo que seja representativa do universo. (Borgesianamente, diríamos que a única amostra fiel à realidade é a própria realidade no seu todo: a amostra um-para-um — a anti-amostra, no fundo.) Existem métodos de correcção das amostras, certamente, que não menos certamente são falíveis e discutíveis (por alguma razão tanta gente estuda isto há tanto tempo). Finalmente, os inquiridos mentem (com boa ou má-fé).

Hoje são publicadas seis sondagens sobre as eleições de depois de amanhã. Cinco dão como certa uma maioria absoluta do PS. Não tenho conhecimentos para contestar ou subscrever as projecções, nem tão-pouco para avaliar o efeito que elas terão no próprio acto eleitoral. Mas de uma coisa estou quase certo: que, ao contrário do que os estudos dizem, é mentira que mais de 75% dos eleitores irão votar. As respostas até podem indiciar tais valores, mas, como também as sondagens aos hábitos de leitura nos ensinaram, quando confrontados com perguntas sobre o cumprimento de deveres cívicos ou práticas socioculturalmente valorizadas (ou, de mais difícil comprovação, sobre a actividade sexual), os portugueses tendem um pouco para o exagero. Numa palavra, mentimos.

Ou será o desgoverno de Santana Lopes/a traição a Santana Lopes [riscar o que não interessa] tamanho factor de mobilização? FG 18/02/2005

PORQUE OS SALDOS CHEGARAM AO LUTO...

A irmã Lúcia morreu: o governo decretou dois dias de luto; o PSD e o PP cancelaram as suas acções de campanha; o PS foi a reboque (ou a semi-reboque...), cancelando apenas alguns eventos.

Pacheco Pereira diz, e com razão, que se anda a banalizar o decreto de luto nacional (já repararam que ultimamente os lutos nunca são apenas de um dia, mas no mínimo dois, frequentemente três?). O bispo Manuel Martins opina, com não menos razão, que existe oportunismo político por detrás de tais decretos e cancelamentos; Vital Moreira secunda-o nas críticas.

Eu, abusando do poder que detenho sobre o espaço que governo (este site), decreto também o meu lutozinho. Aqui vai ele:

 

Ponho luto pela defunta separação entre o Estado e a Igreja (se é que alguma vez tal coisa existiu). Ponho luto pela reinante confusão entre campanha eleitoral, show biz e exploração emocional. Ponho luto pela finada distinção entre palhaços e políticos (com grandes prejuízos para o bom nome dos primeiros). FG 14/02/2005

DA DISPENSABILIDADE DO DIVINO

Segundo o artigo da Única do Expresso de hoje, Luís Delgado «diz que a relação com Deus o eleva, porque lhe permite descobrir que erra (quase) todos os dias.» Ora eu, sem necessidade de ajudas externas, cheguei exactamente à mesma conclusão sobre Luís Delgado. FG 12/02/2005

CAMPANHA DE SÓCRATES SOFRE REVÉS

O médico de Santana Lopes aconselhou-o a falar o menos possível.

Com esta ameaça à maioria absoluta é que José Sócrates não contava. CC 12/02/2005

LÍRICA RUMSFELDIANA

No Público de hoje:

«Pentágono Pagou a Jornalistas para Influenciarem a Opinião Pública»

«O secretário de Estado Donald Rumsfeld afirma que não era dito aos jornalistas o que deviam escrever. Apenas lhes era atribuído um assunto»

Administração Bush recupera nobre tradição do vilancete, com mote e glosa. FG 09/02/2005

OUTROS EUS QUE NÃO EU

A livraria Byblos tem um serviço online jeitoso. Seria abusivo chamar-lhe a Amazon portuguesa, mas no mínimo tem um catálogo simpático e as entregas são atempadas. No entanto, a sua base de dados é surreal: nela habitam outros eus que não eu.

Concretizemos: há uns dois anos encomendei alguns livros à Byblos; tudo me chegou conforme esperado*, não fora a morada indicada na factura: um certo Fernando Gouveia, morador na Rua dos Loureiros, 6200–750 Tortozendo (que, para quem não sabe, fica ali para os lados da Guarda). Desta vez, ou o tortozendense emigrou, ou tenho o prazer de lhes apresentar Fernando Gouveia III, residente numa certa Ephraim Williams House, sita em Banburry Road, Oxford OX2 7AN, Inglaterra.

Fernandos Gouveias (II e III): se me estiverem a ler, contactem. Tenho umas continhas de cartão de crédito que julgo serem vossas! FG 09/02/2005

* O mesmo não se pode dizer da Mediabooks, que pertence a um importante grupo editorial (a Texto Editora), mas cujo serviço (julgo pela minha experiência — primeira e última) é uma piada como há poucas: não é só a base de dados que é surreal.

«É BERLUSCONI QUEM PODE, NÃO É BERLUSCONI QUEM QUER»

O Público de hoje traz uma entrevista a Alain Minc (autor que conheci com Cartas Abertas aos Nossos Novos Senhores, Gradiva). Em duas palavras: simplesmente fundamental.

No entanto, no melhor pano cai a nódoa: concretamente, a afirmação que reproduzo como título deste post.

Alain: se entre ti e o RAA há divergências de opinião, resolvei-as em privado! Fazê-lo saber pela Comunicação Social é algo que ninguém esperava de ti... FG 03/02/2005

AS ESTATÍSTICAS VITORIOSAS DE SANTANA

Santana Lopes não se cansa de repetir que venceu todas as eleições a que concorreu: veja-se a câmara da Figueira da Foz, veja-se a de Lisboa. Espera o primeiro-ministro que, à força de apregoar uma e outra vez os sucessos passados, o eleitorado indeciso veja nele um vencedor nato — e diz quem supostamente sabe que, em caso de dúvida ou pouca convicção, muitos eleitores votam em quem acham que consegue ganhar (é a chamada "dinâmica de vitória").

O que Santana Lopes não quer é que se note o reverso da medalha polida que ostenta ao peito: se é verdadeiro o seu impecável currículo em termos de vitórias eleitorais, não é menos exacto que até agora nunca submeteu um mandato seu à decisão popular. As suas vitórias foram sempre fruto de um julgamento a priori da sua pessoa, não de uma apreciação positiva a posteriori do seu desempenho.

Ninguém pode afirmar que sabe, sem margem para dúvidas — isto é, com a devida confirmação na mesa de voto —, o que pensavam os figueirenses da actuação do seu ex-presidente, ou o que diriam os lisboetas nas eleições autárquicas de Dezembro se tivessem a oportunidade de se pronunciarem acerca da vereação liderada por Pedro Santana Lopes. Reparem: não estou a insinuar que a apreciação seria negativa (pois, como disse, não houve lugar a qualquer avaliação a posteriori), simplesmente sublinho que este tipo de "estatística" de vitórias passadas não tem qualquer valor. Como muitas outras estatísticas, de resto. FG 03/02/2005

ESTE SIM, É QUE ERA UM OUTDOOR!

«Este não! (Já sei quem é...) Pedro Santana Lopes? Por amor de deus!»

FG 01/02/2005

PAIXÃO: RELOADED

Pormenor do cartaz do PSD: «PEDRO SANTANA LOPES. POR AMOR A PORTUGAL.»
(Pormenor do cartaz apresentado mais abaixo.)

Só nos faltava mais esta! Ainda lambemos as feridas da «paixão» de Guterres, e vem-nos o Santana com amores... FG 01/02/2005

O CANDIDATO ONTOLÓGICO

Cartaz do PSD: «Este sim [Santana Lopes], sabe quem é!»

FG 01/02/2005

UM BERLUSCONI NO HORIZONTE

«Luís Delgado entrou na corrida à Lusomundo Media.» (Expresso).

Se lhe sair bem o negócio, o próximo passo de Delgado será uma futura corrida a São Bento — para nos fazer notar que (ainda) há pior do que Santana Lopes. RAA 29/01/2005

A REALPOLITIK DO EXPRESSO

Paulo Portas foi director d'O Independente na altura em que aquele jornal procurava morder as esquinas da folha de que o sr. arquitecto Saraiva é director. E isso o sr. Saraiva não perdoou. Donde, sempre que pode, retribui as dentadinhas. Com razão ou sem ela.

Hoje, em editorial, o sr. Saraiva lembra que o início da decadência das OGMA (Oficinas Gerais de Material Aeronáutico) foi uma notícia d'O Independente, «com grande destaque», revelando que aquelas oficinas haviam reparado dois motores de helicópteros indonésios. Na altura, o povo português estava muito sensível à causa timorense. A Indonésia, nas palavras suaves do Expresso, «surgia como carrasco do indefeso povo maubere». O facto provocou escândalo, e «o recurso aos serviços das OGMA» passou a correr «o risco de ser olhado como uma facada nas costas dos timorenses».

A doutrina implícita no editorial do Expresso é que os jornalistas devem abster-se de dar notícias se isso, de algum modo, puser em dificuldades uma empresa estatal «próspera e lucrativa».

Claro que naquela época nem a realpolitik faria o sr. Saraiva confessar ter O Independente tal influência na sociedade... RAA 29/01/2005

PENSE BEM ANTES DE COMPRAR A SÁBADO

A Sábado, em editorial assinado pela direcção, resolveu excomungar o Bloco de Esquerda. Está no seu direito. Aliás, a revista, na verdade, apenas fez meio caminho para aquilo que vem sendo reivindicado por muitos comentadores políticos (de direita): o esclarecimento político dos órgãos de comunicação social.

Mas acontece que as razões que a revista dá para o banimento do Bloco são aplicáveis a outros partidos, e não se vê que a Sábado os queira fora da brincadeira. O Bloco de Esquerda tem «pretensões de ditar, com olho rútilo e dedo em riste, a forma como devemos conduzir a nossa vida»? Onde tem andado a Sábado que não tem visto mister Portas em acção? O Bloco «propõe uma ruptura com a civilização capitalista» — ao contrário do PC, que anda rouco de apregoar os benefícios do capital. Louçã diz que «Lenine foi indispensável», ao passo que Bernardino Soares acha a Coreia do Norte uma terrível ditadura. Já na política externa, o Bloco de Esquerda é, claro, o único partido a achar que Portugal «deve cessar qualquer colaboração política ou militar com a ocupação do Iraque».

A Sábado integrou Paulo Portas nos seus quadros de direcção e não disse nada ao país. RAA 29/01/2005

FEDORENTO ACIDENTAL

O pessoal do Gato Fedorento envolveu-se numa troca de argumentos com o pessoal d'O Acidental, porque estes últimos opinam que o RAP, como Património Nacional, não tem direito a manifestar opiniões e opções políticas.

Ó RAP, às tantas tu nem sequer tens personalidade jurídica! FG 28/01/2005

(EM)POLAR O FRIO

Há coisa de um ano, analistas políticos e sociólogos decretaram que os portugueses estavam deprimidos. Os jornalistas, sempre prontos a seguir e ampliar a onda (quando — oh, miséria! — não a podem criar eles mesmos), saíram então à rua à procura das marcas da depressão. Queriam, à força, que fôssemos a verdadeira Nação Prozac. Conseguiram-no? Talvez um pouco mais do que seria o nosso estado "au naturel".

Agora — com um Santana não tão cómico desde que remetido ao estatuto de PM-gestor, com o ambiente de campanha ainda algo longe de levantar fervura, com as implicações da gaffe de Louçã a passarem ao lado (ou acima) do cidadão de sensibilidade e alcance mais rasteiros (para quem, cada vez mais, os telejornais são feitos), com o "bebé do ano" a aproximar-se do mês de vida — neste cenário de esvaziamento noticioso, no fundo, as redacções televisivas precisavam de descobrir "the next big thing": não sem surpresas, como toda a gente em todo o mundo quando fica sem tema de conversa, refugiaram-se no porto seguro das condições atmosféricas.

À falta de tsunamis, nevões, enxurradas, cheias, chuvas torrenciais ou deslizamentos de terra com mortos telegénicos, os jornalistas nacionais decretaram que os portugueses estão arrepiados — e toca a procurá-los pelos trilhos da Pátria!

Em especial a TVI é consistente na sua linha "noticiosa": com o regulamentar cachecol e de microfone em punho, os seus correspondentes locais desdobram-se em directos (!) pelos lugares mais recônditos de Portugal, à procura da velhinha que, aconchegando mais o xaile enquanto passa, deixe escapar entre os dentes tiritantes um mediático «Que friiiiiiio!...» Mas — oh, miséria! — que se passa com estas velhinhas, que se passa com estes serranos de postal, que não vêem (não aprendem...) na televisão o «frio polar» que está? Esfalfa-se um jornalista a desencantá-los nas reservas cinegéticas onde gostamos que estejam e eles, menos domesticados do que queríamos que fossem, respondem o mais das vezes: «Atão?! É o tempo dele...»!

Mas o jornalista televisivo que se preza não desiste: há sempre esperança, há sempre o próximo directo. O gajo da Produção que me arranje um velho de jeito, porra! FG 26/01/2005

LOUÇÃ NO CANTO, DE CASTIGO

O Público de hoje traz a resposta de Francisco Louçã às críticas que lhe têm sido feitas nos últimos dias. Quer dizer, "resposta" (ou "esclarecimento", nas palavras do próprio) é modo de expressão, porque no artigo de Louçã não há nada que sirva de justificação ao seu "deslize" de quinta-feira: não havendo como defender o indefensável, Francisco Louçã limita-se, para não errar ainda mais, a fazer profissão de fé das teses do BE sobre o aborto. Concordo basicamente com o que escreve — mas tal não obsta a que, retrospectivamente, tudo soe a cópia exigida para TPC de um aluno de castigo.

Sei o que Louçã queria dizer no debate em causa — e sei também quão diferente isso é do que efectivamente disse. Num político experimentado, tal diferença é inaceitável, servindo de pouco invocar contextos ou calores de discussão. Não há relativização possível. Por mim, Louçã continuará no canto, virado para a parede. FG 25/01/2005

ARTE NO LIXO

Vem nos jornais. Um pouco por todo o mundo ocidental, «homens do lixo» vão «destruindo» obras de arte contemporânea expostas em galerias. Em Dezembro passado, alguém recolheu «17 pedaços» de um lavatório partido em exposição no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz. Em Junho de 2004, na Tate Britain, um funcionário da limpeza recolheu parte de uma instalação, «um saco plástico com papéis e pedaços de cartão». Outra instalação presente noutra galeria londrina, a Eyestorm, foi parar ao lixo devido àquilo a que chamam excesso de zelo do departamento de limpeza. Desta vez tratava-se de «latas de cerveja vazias, chávenas de café, maços de tabaco e cinzeiros atulhados de beatas». Artisticamente dispostos, claro. Em Frankfurt, foi uma escultura instalada numa rotunda. Esta obra, na definição precisa do autor, tinha «qualquer coisa de parque infantil público, podia ver-se nela uma espécie de cobra ou assim».

A alegada «destruição» de obras de arte tem registos que remontam aos anos 80 do século passado, na Alemanha, quando uma banheira devidamente asquerosa «foi esfregada até ficar limpa». Mas ao contrário do que se julga, a intervenção dos departamentos de limpeza na arte contemporânea nada tem de destruição ignorante. Pelo contrário.

Aqueles a quem se convencionou chamar «homens do lixo» integram, na verdade uma escola que luta pela democratização da arte, pela sua generalização, pelo livre acesso (literalmente) às obras que o génio humano concebe. A apropriação da arte pelo cidadão comum, tão propagandeada pelos teóricos contemporâneos, tem uma tradução exacta nos gestos decididos destes novos artistas, que trabalham em madrugadas mais tardias do que qualquer vanguarda jamais se atreveu.

É de realçar que não se trata de uma apropriação meramente consumista. Os homens e as mulheres do lixo são mais do que meros marchands capitalistas: são visionários que levam ainda mais longe o trabalho dos seus antecessores (a periferia urbana é a distância mínima que a arte percorre nas mãos dos departamentos de limpeza).

O mesmo rigor que levou Jimmie Durham a partir o seu lavatório em exactamente 17 pedaços aplicam-no estes mestres da piaçaba na gestão do aleatório que sempre resulta do acto de despejar um caixote no contentor. E com resultados semelhantes. É certo que a sociedade apenas tem estado atenta à disposição dos materiais nas salas dos museus ou galerias, mas é chegada a altura de os nossos olhos se voltarem para o interior dos ecopontos, onde se vêm acumulando maravilhas; para os aterros municipais, onde a perenidade se deitará sobre tantas e tantas obras de arte; para as sucatas, modeladoras incansáveis de materiais tão nobres como a chapa oxidada.

A acção dos departamentos de limpeza a que muitos chamam redutoramente «higiene» não é mais do que uma interacção desconstrutivista a que preside o mesmo impulso criador das obras originais. RAA 25/01/2005

O REGRESSO DE MEC

Miguel Esteves Cardoso regressou à crónica — mas não regressou à forma. O Diário de Notícias tem vindo a rodar o escritor por várias secções do jornal na tentativa de possibilitar ao homem e à musa o encontro procriador. A penúltima das tentativas remeteu Esteves Cardoso para a secção de culinária do DNA, resultando isso numa melhoria significativa dos ovos escalfados.

Agora a epifania é, muito apropriadamente, aos Domingos, e o fundador de O Independente tenta a análise política. Na edição desta semana, Miguel Esteves Cardoso analisou as metáforas de Santana Lopes. Frouxamente. Com o viço de um blogger titubeante. O melhor momento da crónica é o final, quando o texto resvala para... a culinária. (O autor confessa-se fascinado pelo enigmático conteúdo da cesta do Capuchinho Vermelho... Um caso de deformação profissional.)

Mas a crónica de Miguel Esteves Cardoso não saiu só frouxa. Saiu também indecisa. Antes, na obra de Esteves Cardoso, o texto que contradizia um anterior demorava alguns meses a ser escrito, presumivelmente com base na evolução da opinião do autor. Agora não há tempo a perder. As suas contradições são intratextuais. Repare-se: as incubadoras que serviram a Santana Lopes para metaforizar são «sólidas de mais» para serem pontapeadas. Mas, por outro lado, uma incubadora «é um aparelho complexo e delicado», impróprio para kickboxing. Miguel considera que a segunda metáfora usada por Santana Lopes (a casa apedrejada) «é, implicitamente, uma melhoria literária», mas ela é também «pior do que aquela que substitui».

De génios como o MEC esperamos um retorno sebastiânico, e eles cumprem sempre os nossos desejos — se tivermos em conta que D. Sebastião nunca regressou. Mas, que Diabo!, que punição irrevogável se abateu entre as orelhas do MEC? Pode uma mulher bonita como a de Miguel consumir no lar toda a imaginação de um cronista? Significam estes retornos falhados de Esteves Cardoso que com as musas não se brinca — nem se casa? RAA 25/01/2005

O TIROCÍNIO DE BUSH

De cada vez que Bush faz um discurso importante, pessoas inteligentes como José Manuel Fernandes prostram-se. Num célebre discurso sobre o Estado da Nação, George W. anunciou investimentos em veículos a água — e o petróleo deixou de estar entre os motivos da guerra no Iraque. Agora o homem anunciou a luta contra a tirania — e nasceu-lhe um nimbo.

O anti-americanismo tem o seu correspondente nas hostes pró-atlânticas. A um preconceito ideológico opõe-se um amor desmedido — e, naturalmente, cego. Como quase sempre esteve fácil de perceber, a invasão do Afeganistão impunha-se. Mas a campanha do Iraque era uma nefasta excitação adolescente (onde mais cabe o idealismo neoconservador?).

A luta pela liberdade, pelo combate às tiranias muçulmanas, tinha algum terreno no apoio ocidental a uma revolução (não de todo impossível) no Irão — não na cavalgada das valquírias no Iraque. Mas os EUA, rodando o colt na mão, preferem insistir na fanfarronice que reforça o espaço dos ayatollahs e desanima os reformadores. E talvez vão mais longe. Talvez busquem o mesmo ajuste de contas obcecado que os levou até Saddam, mesmo que o esforço militar agora necessário (mas não garantido) no Iraque devesse ser absolutamente constrangedor de outros movimentos bélicos ofensivos. E quem sabe se, um destes dias, Bush não irá à Coreia do Norte em busca da cabeleira anti-regulamentar do Querido Líder.

Só que agora, diz-nos Tony Blair, procurará não o fazer sozinho. Ao fim de quatro anos, Bush percebeu o que milhões de americanos e europeus sempre souberam: que a América precisa da comunidade internacional. «Em quatro anos ganha-se experiência.» O mundo esteve quatro anos pendente do tirocínio do ingénuo Bush — e o cândido Blair achou natural e apoiou. RAA 25/01/2005

AI!, LOUÇÃ, LOUÇÃ...

Por andar muito arredado da televisão ultimamente, e mais ainda do debate político para o qual já não há paciência, só durante o fim-de-semana soube, através do Público, as enormidades que andou dizendo Francisco Louçã no debate com Paulo Portas. Foram elas (debatia-se a questão do aborto): «Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida. [...] O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança. Sei o que é gerar uma vida.»

Sobre isto já escreveram (e bem) Eduardo Dâmaso e Helena Matos, pelo que não tenho ilusões de muito mais dizer, excepto o seguinte: quanta falta de visão estratégica; quão difícil é aos políticos absterem-se de pôr a perder o curso das guerras que supostamente lutam, tudo para garantirem uma qualquer vantagem momentânea numa refrega de traseira de tasco!

Escrevi aqui em tempos que a minha posição em questões como o aborto se aproximava da do BE. Vejo agora que não: se «saber o que é gerar vida» é pré-requisito para ter voto na matéria do aborto, ficam muitas das grávidas em causa desde já arredadas da decisão sobre as suas próprias vidas. Com as suas palavras, Francisco Louçã fez mais dano à causa da despenalização do aborto do que cem novenas dos movimentos "pró vida".

Pode alguém inteligente ser tão tolo assim? FG 24/01/2005

UM LOUÇÃ «À BENFICA»

No Sport Lisboa e Benfica a regra não é «um sócio, um voto»: em vez disso, um sócio pode valer mais ou menos, de acordo com determinado critério, que no caso é o da antiguidade do seu estatuto de sócio. Um corolário das palavras de Francisco Louçã no debate na SIC Notícias é que, num novo referendo ao aborto, cada mulher teria direito a tantos votos quantos os filhos que pariu (podendo por isso não ter direito a nenhum). Quantos aos homens, com sorte valer-lhes-iam os testes de paternidade para ganharem direito a pôr a cruzinha no boletim. FG 24/01/2005

AS FALÁCIAS DE JOÃO PEREIRA COUTINHO

Mais para ver como soava em "brasileiro" o nosso JPC, fui dar uma leitura ao artigo a que se referia o RAA no post anterior. Mas cedo o interesse passou da "tropicalização" do texto para o que o texto propriamente diz, sotaques e léxicos à parte.

A luta antitabágica a que vimos assistindo tem vários defeitos, um dos quais (porventura o maior) será a ineficácia, quando não a contraproducência. Isso diz JPC e diz bem. Mas o mais da sua argumentação um leitor atento classificará como falácia, ainda que se funde em factos verídicos e verificáveis (o que não fiz, por irrelevante).

Diz JPC, resumindo a tese de Robert Proctor: «[As] campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos.» Seja. E depois? O Volkswagen também surgiu na Alemanha por essa altura, e por trás de um projecto aparentemente civil estava o desejo de Hitler de dotar-se de uma frota de automóveis robustos, de construção simples e, em caso de necessidade (que Hitler sabia ir chegar), facilmente convertíveis para finalidades militares. Vamos com isso concluir que o VW é algo de negativo porque Hitler o promoveu? Por outro lado, a criação da guilhotina teve como principal objectivo tornar a morte mais rápida, logo mais indolor e "civilizada". Poderemos então afirmar a guilhotina como um expoente dos direitos humanos? O seu no seu tempo.

Continua JPC (versão brasileira): «Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. [...] Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental.» Uma vez mais, e então? Só porque Hitler demonizava o tabaco por razões lá dele, passa o tabaco a ser algo de bom? Só porque Hitler estava errado em muitas coisas, estava errado em tudo? (Hitler certamente achava que ser enterrado vivo fazia mal à saúde — prova mais do que irrefutável de que ser enterrado vivo é perfeitamente inócuo, se não mesmo um elixir de eterna juventude!) Uma proposição ou uma conclusão não são garantidamente falsas apenas porque incluem argumentos ou deduções falaciosas, Sr. João Pereira Coutinho — e você sabe certamente isso.

Mas não se fica Pereira Coutinho por aqui. Mais adiante: «[Hitler] não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco — tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.» Estão a ver o padrão? Pois então não há dúvida: «as pessoas que fumam são mais tolerantes» (já para não falar que são ainda «mais calmas, mais interessantes»)! Entre ditadores brutos, sanguinários e não fumadores, e heróicos democratas que partilham o vício de Lauren Bacall, não há dúvida quanto ao clube a que quero pertencer — ao de Churchill, ao de Roosevelt... e esqueceu-se JPC de Estaline, que, para além de fumador, era um pilar da tolerância e da liberdade, conforme atestam as fotos do Clube de Yalta (smokers only). FG 21/01/2005

P.S. Para quem estiver interessado em descobrir as falácias presentes no artigo de JPC (e, já agora, no meu post), sugiro a leitura do excelente Guia das falácias, de Stephen Downes. Quanto a este meu texto não me manifesto, mas as minhas apostas para o artigo de Pereira Coutinho são (numa primeira análise): argumentum ad hominem (por interposta pessoa), argumentum ad logicam, espantalho, omissão de factos e generalização precipitada (estatística dos pequenos números). Também aqui JPC se revela um digno herdeiro de Miguel Esteves Cardoso.

JARARACA COUTINHO NA FOLHA

Depois de ler na Folha Online, traduzido para "brasileiro", o primeiro artigo da colaboração quinzenal de Pereira Coutinho, aguardo com ansiosa curiosidade epistemológica a versão do Jornal Sertanejo. RAA 20/01/2005

Para quem quiser: artigo de João Pereira Coutinho na Folha Online.

ENVIEUX

Segundo Le Nouvel Observateur, José Gil é um dos vinte e cinco maiores pensadores da actualidade. No domingo passado li a entrevista que o filósofo deu à Pública. Sã, mas pouco mais. Algumas considerações sociológicas já vulgares sobre o perfil do português e a sua natural tendência para a inveja. Não vi nada na entrevista que indicie um génio. Pergunto-me: se a formação de José Gil não tivesse passado pela universidade francesa, se o homem não estivesse recomendado pelo francófilo Eduardo Lourenço, aquela publicação francesa teria alcandorado o senhor a tais nuvens? Não será esta nomeação um louvor a La Grande France por interposta pessoa? Ou estarei eu apenas a revelar-me demasiado português — e invejoso? RAA 20/01/2005

HEIL HARRY!

Fica comprovado um dos argumentos mais queridos dos monárquicos: que o sistema que defendem, ao garantir aos herdeiros do Chefe de Estado uma educação esmerada logo desde o berço, permite incutir-lhes toda uma gama de valores pátrios e um sentido de responsabilidade e de Estado que não está acessível ao comum dos mortais. Way to go, Harry!

[Capa do 'The Sun': Príncipe Harry vestido de nazi]

FG 14/01/2005

SUI GENERIS CRONOLOGIA

A revista Sábado tem vindo a oferecer (por um preço módico) a série de DVDs História do Século XX, cujo sexto e último volume chegou hoje às bancas. Adquiri a série toda, embora admita que ainda não tive oportunidade de ver se valeu a pena ou não. Mas, dando uma vista de olhos ao título e ao índice de cada volume, digamos que estou algo preocupado quando ao rigor e cuidado tidos na elaboração da série...

Vejamos (para não nos alongarmos muito) os três últimos volumes. O quarto intitula-se «Da Recuperação aos Anos 50», mas o intervalo temporal indicado logo ao lado é «1945-1968». Longos anos 50! Dando uma vista de olhos à contracapa, logo descobrimos que o título do volume conjuga dois dos capítulos inclusos («A Lenta Recuperação» e «Os Anos 50»), esquecendo que existe um terceiro («A tensão (1960-1968)»). Estes "esquecimentos" repetem-se noutros volumes.

O quinto volume («A Saída da Crise») é talvez o mais estranho. O período de interesse anunciado na capa é «1968-1985», mas uma vez mais estamos perante um capítulo "esquecido": para além de «A Saída da Crise» (promovido a título do volume todo), há ainda «Incertezas e Alterações», que cobre acontecimentos como a queda do Muro de Berlim (1989). Mas as idiossincrasias cronológicas não se ficam por aí: apesar de o sexto volume se debruçar sobre acontecimentos como a Guerra do Golfo e o desmembramento da URSS (ambos de 1991), ou a guerra e desintegração da Jugoslávia (1992), a figura em destaque na capa do quinto volume é Bill Clinton, que foi eleito Presidente dos EUA em Novembro de 1992 e tomou posse no início de 1993! FG 14/01/2005

P.S. Para além das "liberdades" cronológicas, temos ainda uma falta de rigor ortográfico, nem sempre atribuível ao facto de o original ser espanhol: «Postdam» em vez de «Potsdam», «obsessâo», «inicio» em vez de «início», «desafío», «Stembro»...

TIRO AO ALVO

O Banco de Portugal reviu em baixa as perspectivas de crescimento económico para 2005. Curioso: nos anos de que me lembro, as previsões de crescimento económico, de produtividade e de receitas fiscais foram sempre revistas em baixa e as perspectivas de inflação, de défice e de despesa pública foram consistentemente revistas em alta. Faz lembrar (por contraste) a história do atirador que acerta sempre 10 cm ao lado do alvo — e que resolve o problema do desalinhamento da mira apontando 10 cm para o outro lado. Em questão de previsões económicas, Portugal teria muito a aprender com o mais empírico atirador. FG 06/01/2005

CAVACO, O INGRATO

Diversos bloggers apresentaram as suas alternativas ao cartaz de pré-campanha do PSD que foi cancelado. Estas propostas, porém, são mais manifestações de sarcasmo do que sérias tentativas de dar uma mãozinha ao nosso primeiro (p. ex., as de José Mário Silva e Luís Rainha, ou a do Animal), achincalhando ainda mais o pobre do Pedro. Querendo corrigir esta injustiça, aqui vai a minha proposta, que simultaneamente acata os desejos do Prof. Cavaco Silva e espelha o sentir mais profundo e o estado de alma de Santana Lopes:

FG 06/01/2005

«... POR QUE LHES DAIS TANTA DOR?»

A alegada "sovinice" inicial do governo dos EUA e a autêntica "corrida ao donativo" que se processa a nível mundial (vejamos quanto se ficará pelas intenções anunciadas...) despoletou uma espécie de "olimpíadas da beneficiência" — de calculadoras na mão, cidadãos dos EUA (pró- e anti-Bush), da UE, da Noruega, do Japão apuram a pole position no ranking das boas acções. O critério escolhido é o que confirmar a nossa opinião à partida: valor total do apoio, percentagem do PIB, donativo per capita, donativos governamentais, donativos privados...

Ocorre-me uma nova resposta à pergunta sobre por que permite (ou causa) Deus o sofrimento humano a tão grande escala: as catástrofes e os seus magotes de vítimas miseráveis são um presente de Deus para os mais afortunados — que se podem então edificar, competindo pelo galardão de maior benemérito. FG 05/01/2005

P.S. Em alternativa, a possibilidade de resposta adiantada por um(a) participante no fórum do site conservador americano Free Republic: «Perhaps if more of the Third World Disaster countries fully observed Christmas, there would be less poverty and more prosperity.» A-ha!

«ONDE ESTAVA DEUS NAQUELE DIA?»

O Público de hoje coloca esta questão no título de um artigo que sintetiza as respostas das principais religiões (hinduísmo, islamismo, cristianismo, budismo e judaísmo) à velhíssima pergunta: se Deus existe, como é possível tal mortandade vinda da Natureza?

A resposta é simples: Nil nove sub sole — Deus está onde sempre esteve, a fazer o que sempre fez... FG 05/01/2005

BONS SENTIMENTOS

Há uns dias três funcionários da Livraria Almedina do Atrium Saldanha comentavam a "forretice" dos americanos, cujo governo tinha prometido apenas 15 milhões de dólares para ajudar a reconstrução pós-tsunami (emendando depois a mão para 350 milhões). A polémica tinha sido lançada por Jan Egeland, alto responsável das Nações Unidas para estas coisas das catástrofes. (Egeland não limitara as críticas aos EUA, apontando o dedo a todos os países ricos, tendo-os considerado pouco generosos.)

Esta questão da generosidade tem muito que se lhe diga, como os comentários dos tais funcionários da Almedina deixaram bem patente: dizia um deles (e os outros secundavam com acenos de cabeça) que os EUA «andam mesmo a pedi-las», que «não se deviam admirar» por terem sido atacados a 11 de Setembro de 2001. Ou seja: a "falta de generosidade" ganhou o estatuto de justificação moral do terror. Para tais pessoas (e são infelizmente mais do que as três a que me refiro), a solidariedade não é algo de voluntário — é o acto a que todos somos obrigados, sob pena de represálias no outro mundo e neste, porque há uma Contribuição Emocional Obrigatória, há uma Taxa de Baba e Ranho, há um Imposto sobre o Sentimento de Culpa (ou, mais cinicamente, um Show-Off Mínimo Garantido...). Mais do que o reconhecimento para quem ajuda, a tal gente move-a o desprezo por quem não ajuda ou ajuda "pouco": merece o apedrejamento público ou sucedâneo apropriado, na forma de atentado. Em especial se tal desprezo puder cimentar ódios a priori. FG 04/01/2005

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